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Um homem, um negro, uma mulher e um canadense

  • 29 de abril de 2026
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  • Theillyson Lima
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Quatro astronautas foram ao espaço, mas não foram apresentadas da mesma forma.

Vefiola Shaka

A Artemis II é uma das missões mais importantes da exploração espacial recente. Em termos técnicos, é um avanço histórico. Mas a forma como essa missão chega ao público também revela outra camada sobre a forma como é contada.

A tripulação é formada por Victor Glover, Christina Koch, Reid Wiseman e Jeremy Hansen. São quatro astronautas com funções reais dentro da missão. Ainda assim, na comunicação pública, eles acabam sendo rapidamente organizados em outro tipo de leitura.

Glover como o primeiro homem negro nessa trajetória, Koch como a primeira mulher nessa posição, Reid Wiseman, como “apenas um homem” e Hansen, o colega canadense que teve a oportunidade de participar. Em um programa ao vivo, a jornalista brasileira Marina Franceschini classificou os astronautas desta forma: “um homem, um negro e uma mulher, ah…e um canadense”. 

O que aparece não é só a missão em si, mas também a forma como foi enquadrada. E é justamente nesse espaço entre o fato e a narrativa que a Artemis II passa a dizer algo além da engenharia espacial.

A missão foi vendida como marco histórico. Quatro nomes que são quatro símbolos diferentes. Cada um deles tem uma longa história de estudos e conquistas. Além disso, eles carregam algo a mais que tem peso simbólico real e valor publicitário. E a NASA sabe disso. A equipe tem uma diversidade que aparece como vitrine. Gênero, raça, nacionalidade diferente. Antes do lançamento, a capa de um reels no Instagram oficial da NASA mostrava dois homens negros, um pardo e uma mulher loira. Quando o vídeo começava, a tripulação real aparecia, três brancos e um negro. A capa vendia uma diversidade ampliada, enquanto o vídeo entregava a composição real. Não é erro. É pura estratégia. 

Inclusão estrutural ou inclusão de vitrine

A NASA gosta de dizer que o programa Artemis é o mais inclusivo da história. Em números, há avanços, cerca de 35% da força de trabalho feminina e 30% composta por minorias em 2021. Programas de diversidade, metas institucionais, reconhecimento público. Mas inclusão de equipe não é o mesmo que inclusão de poder.

Estudos mostram que mulheres e minorias continuam sub-representadas em posições de liderança científica dentro das missões. Em equipes de projetos espaciais, a presença feminina historicamente ficou abaixo de 16% em certos períodos. A diversidade aparece mais na comunicação do que na estrutura de decisão. É visível, mas nem sempre determinante.

Menos de 24 horas após mudanças políticas nos Estados Unidos em 2024, a NASA encerrou seu programa de diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade. Um memorando da administradora interina Janet Petro orientou o fechamento de escritórios e cancelamento de contratos, sob a justificativa de que esses programas dividiam o país e desperdiçavam recursos. O que durou anos para ser construído levou horas para ser desmontado. A missão continua diversa, mas, aparentemente, a política institucional, nem tanto.

A corrida nunca foi neutra

Sempre foi também mensagem. Na Guerra Fria, a União Soviética colocou a primeira mulher no espaço com Valentina Tereshkova em 1963, o primeiro homem negro com Arnaldo Tamayo Méndez em 1980, e fez questão de dizer isso ao mundo. Era propaganda, e também era avanço real. Os Estados Unidos responderam da mesma forma. Colocar a diversidade em órbita sempre foi também disputar narrativa.

A diferença é que, décadas depois, a disputa continua, mas o discurso mudou. Hoje não se fala em propaganda. Fala-se em representatividade, e sempre que sair para o espaço levar uma mensagem pela ciência. 

Uma pergunta no Reddit resume bem o que ficou desse período de disputa. Por que todos os astronautas da NASA que pousaram na Lua eram homens brancos? Se o assunto fosse sobre agências espaciais em geral, a pergunta seria infelizmente direcionada a quase todas elas.  Mas para este caso, a resposta da pergunta foi dada por um homem que ressaltou o fato que a  NASA recrutava entre pilotos de teste de alto desempenho e, por normas discriminatórias da época, esses pilotos eram exclusivamente homens brancos. Mercury, Gemini, Apollo, o padrão se repetiu por décadas sem precisar de justificativa, porque era o padrão.

Hoje, a presença de um canadense na tripulação já gera debate. O que antes parecia invisível por ser absoluto, agora incomoda por ser de outra nacionalidade (vizinha e norte americana).

O preço da publicidade 

Para quem não entendeu nada deste texto até agora, vou resumir tudo em apenas uma frase. A NASA sabe vender. Sempre soube. Os posts no Instagram da agência acumulam milhões de curtidas com uma consistência que poucos veículos de comunicação conseguem. Brasileiros, norte-americanos, europeus, o mundo inteiro compartilhando o mesmo conteúdo, a mesma imagem, a mesma emoção cuidadosamente embalada. O que chegou às telas do mundo foi muito bem construído, e é justamente por isso que merece ser lido com atenção.

Há algo genuíno nesse alcance. Ver uma mulher ou um homem negro em direção à Lua tem peso real para gerações que cresceram sem se enxergar naquelas imagens. Isso não é pequeno. Representatividade move pessoas, muda trajetórias, faz adolescentes repensarem o que é possível para eles. A força disso é concreta e não deveria ser descartada por ser também conveniente para a agência.

Mas conveniência e sinceridade não se excluem. Podem coexistir, e é exatamente essa coexistência que torna tudo mais opaco. A agência  usa a diversidade como argumento porque funciona, porque gera engajamento, porque transforma uma missão científica em evento cultural de massa. E quando esse mesmo argumento se torna politicamente inconveniente, como aconteceu em 2024, quando o programa de diversidade foi encerrado em menos de 24 horas, a estrutura cai mais rápido do que qualquer foguete decola.

O que fica, então? A missão, os quatro astronautas, e a pergunta que a cobertura raramente faz: o que significa inspirar pessoas a sonhar com um futuro que a própria instituição não garante no presente?

A Artemis II foi além da lua. Trouxe imagens bonitas e cheias de engajamento. E em algum lugar, um escritório de inclusão que levou anos para ser construído continuará fechado. Inspiração e propaganda nunca foram opostos. Às vezes são a mesma coisa, com logos diferentes.

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