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Palcos vazios que oscilam entre o silêncio e falácias

  • 22 de outubro de 2026
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  • UCB - UNASP-EC - Vefiola Shaka
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Nem em nome da democracia a imprensa pode conter a ridicularização dos debates eleitorais. 

Vitória Amábili

Foi em 17 de julho de 1989 que os brasileiros assistiram pela primeira vez os candidatos à presidência da República participando de um debate em rede nacional, na Band. Com a participação de nove candidatos, o encontro ficou marcado pelo improviso e tensão. O país vinha de um contexto em que não elegia um presidente da República pelo voto popular desde 1960 e vivia sob o impacto de uma hiperinflação que corroía o poder de compra e testava os limites da recém-promulgada Constituição Cidadã de 1988. 

Depois do primeiro turno, Fernando Collor (PRN) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participaram de um debate no dia 14 de dezembro antes de disputarem o segundo turno. O encontro durou mais de três horas e foi transmitido por um pool de emissoras. No dia seguinte, a emissora Globo veiculou duas edições jornalísticas sobre o encontro, e no horário nobre priorizou uma versão que beneficiou Collor, que venceu as eleições no dia 17.  O episódio mostrou a força da imprensa sobre a democracia e exigiu mudanças definitivas nas regras de cobertura eleitoral, principalmente pela TV ter se consolidado como o principal meio de comunicação de massa no país. 

Os anos passaram e as regras mudaram o formato dos debates. Mas o fato é que este recurso, ao lado do horário eleitoral, é umas das maiores vitrines de divulgação de propostas disponíveis em uma campanha. O que começou em 1989 com nove candidatos defendendo suas propostas se diferencia muito dos debates deste ano, em que os púlpitos estão vazios, os candidatos desistem em cima da hora e os presentes não sabem aproveitar o horário nobre para apresentar suas idéias. Se o objetivo destes debates é testar os candidatos e usar o maior meio de comunicação em prol da democracia, por que ele tem sido ridicularizado? 

Púlpitos vazios e perguntas direcionadas para o nada 

A Band foi a emissora que realizou o primeiro debate do primeiro turno neste ano, mas ela não esperava que o palco estivesse quase vazio. A mesma emissora que iniciou com os debates presidenciais em 1989 foi a que precisou deixar três lugares vazios na noite de 23 de agosto. Os candidatos que estiveram presentes foram Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD). 

Foi a primeira vez que os principais candidatos que lideravam as pesquisas se ausentaram do debate. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) adotou a estratégia de campanha de não participar de nenhum debate. Flávio Bolsonaro (PL) adotou a estratégia de não participar de debates sem a presença de Lula, afinal ele não ia querer ser o saco de pancada sozinho. Além dos dois, Romeu Zema (Novo) também decidiu se ausentar de última hora. 

Os líderes das pesquisas acertaram que seriam o saco de pancada se estivessem presentes. Os candidatos que participaram do primeiro debate tinham juntos cerca de 10% das intenções de votos, e durante uma hora e meia dispararam perguntas e críticas contra os líderes que nem estavam no encontro. Renan Santos chamou Flávio e Lula de covardes e canalhas por não comparecerem ao encontro. 

Mas apesar de não terem aproveitado todo o tempo de tela para divulgar os planos de governo, os candidatos presentes cresceram em buscas após o debate. Augusto Cury ganhou quase 2,5 milhões de seguidores em sua conta do Instagram e subiu para o terceiro lugar na disputa presidencial. Aqui está a importância dos debates, gerar no leitor o interesse por estudar mais sobre o candidato. No final da apuração do primeiro turno, Augusto Cury, Renan Santos e Ronaldo Caiado somaram juntos 7,31% votos. Mas será que se os demais debates tivessem acontecido, eles não teriam se consolidado mais na apuração? 

De qualquer forma o tempo foi mal aproveitado. Quando existe a oportunidade de apresentar novas propostas de governo, os candidatos usam o tempo para falar sobre toda essa polarização entre esquerda e direita. Provavelmente os números do primeiro turno não teriam sido diferentes se eles falassem apenas sobre as suas propostas, mas pelo menos ninguém ia sair sendo taxado de ridículo e com propostas mal explicadas. Por que no fim, o que fica na memória e vira vídeo de TikTok não são os cortes das propostas, mas sim as vergonhas alheias que cada candidato passa. E o pior é que talvez é isso mesmo que eles querem, virar lembrança do ridículo do que esquecidos por sua participação política. 

Estratégia de campanha que desrespeita o eleitor 

Enquanto os três candidatos estavam ao vivo na Band batendo boca e falando com bancos vazios, uma entrevista gravada com o presidente Lula cravava o terceiro lugar de audiência da noite no canal da Record, ficando à frente da própria Band. De um lado, candidatos que não souberam aproveitar o tempo para si, mas que estavam presentes por causa do eleitor. Do outro lado, um candidato que segurou a audiência sozinho, mas não participou do momento que trabalha pela democracia do país.

Desde o começo de sua campanha, Lula tem adotado a estratégia de não participar de debates e reduzido a quantidade de entrevistas em veículos de imprensa. O petista tem participado de podcasts e canais da internet. Um dos motivos é porque em entrevistas ele responde pouco e argumentam muito contra ele, e o outro é porque nestas situações surgem cortes desfavoráveis nas redes sociais. Talvez o ocorrido de 1989 tenha ficado gravado em sua mente e ele queira evitar ser boicotado pela televisão novamente. 

O que faz sentido, pois o público que o presidente está alcançando está atrás das telas de celular, acompanhando a política por cortes do Youtube e TikTok. Mas e o alcance da TV? O meio de comunicação responde à 63,2% de todo o consumo de vídeo no Brasil, superando a soma conjunta de 36,8% do Youtube, TikTok, Netflix e outras plataformas de streaming. O presidente do Brasil não deveria pensar nas pessoas que assistem à televisão e na história que a imprensa desempenha na política no país? Os anos passam e as gerações mudam, mas os meios tradicionais de comunicação nunca perderam o seu lugar pela luta da democracia. 

Mas além do Lula, o outro nome das pesquisas também deixou de participar. Flávio Bolsonaro participou de entrevistas, mas não esteve presente em debates presidenciais, porque seu “maior adversário” não iria estar. Ele não poderia aproveitar justamente que Lula estaria ausente para abordar às suas propostas e divulgar seu plano de governo para o eleitor? Mais uma vez, milhares de eleitores que assistem às programações de TV tiveram que se contentar com farpas trocadas entre os candidatos pelas redes sociais e a falta de acesso às propostas dos mesmos. 

Desde quando esses encontros viraram essa briga de escola? “Eu não vou pois fulano não vai”. Não é uma surpresa no fim, pois os debates de 2022 seguiram nesta mesma linha: brigas, críticas, desrespeito e piadas, tudo menos o que ele deveria ser: um debate em prol do eleitor e da democracia do país.

Que país é esse? 

O segundo debate estava previsto para acontecer no dia 14 de setembro, entre várias emissoras juntas, mas foi cancelado. No dia 27 do mesmo mês aconteceria o terceiro debate na Record, mas a emissora decidiu cancelar. A decisão foi tomada porque os dois candidatos que lideravam as pesquisas escolheram não participar e “o programa não cumpriria a finalidade de promover um confronto de ideias diante do eleitorado”. 

As esperanças se viraram para a Globo, que realizaria o último debate antes do primeiro turno das eleições no dia quatro de outubro. Mas as expectativas foram quebradas e ele também foi cancelado. A emissora encarou duas notificações do TSE que interferiram nas regras previamente acordadas e decidiu cancelar o encontro. 

Uma das polêmicas geradas no primeiro debate foi a formulação de perguntas dos candidatos presentes aos púlpitos vazios dos ausentes. A Globo iria repetir o mesmo feito, mas recebeu uma notificação proibindo a exibição do púlpito do presidente Lula e a formulação de perguntas que seriam feitas a ele em sua ausência. Aqui se repetiria o mesmo: os candidatos iam dar palco para quem nem estava lá e usariam pouco tempo em sua própria propaganda. Pra que participar de um momento assim se você só vai promover o outro que tanto odeia? Falta preparo para apresentar as propostas, ou elas nem existem? 

A segunda notificação que a emissora recebeu foi sobre o convite feito aos candidatos, que precisavam ter pelo menos cinco parlamentares no Congresso Nacional. Regra que foi mudada no dia do debate para a participação de Renan Santos e Romeu Zema. Legião Urbana acertou em escrever que ninguém respeita a Constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Como a nação vai para a frente se o próprio Tribunal Superior Eleitoral muda regras de última hora e interfere na programação eleitoral passada na TV? A imprensa é livre, mas só até certo ponto, e o eleitor, que deveria ser o mais beneficiado com toda a programação eleitoral, precisa encarar o fato de que nem na TV as informações são tão acessíveis assim. 

Um dia após o cancelamento, diversas associações de imprensa manifestaram sua indignação em nota conjunta sobre as intervenções judiciais que alteravam as regras previamente acordadas. Além delas, os próprios candidatos lamentaram o cancelamento do evento. Flávio Bolsonaro lamentou o ocorrido, mas horas antes do debate já tinha dito que não iria participar. E o presidente? Estava dando uma entrevista no FlowPodcast. Mais uma vez a preferência dos candidatos não foi com a imprensa e com a população. 

O lugar que antes era usado para que o povo brasileiro pudesse conhecer as propostas dos candidatos e participar da luta pela democracia no país é apenas um palco qualquer hoje. Encontros barrados, regras sendo mudadas em cima da hora, desrespeito com a organização do evento, com a população e com os eleitores, esse vai ser o marco que os debates das eleições de 2026 vão deixar para a história do país. Como querem lutar pelos direitos do cidadão se quem quer governar o país não sabe apresentar suas propostas ou nem se dá ao trabalho de fazer isso em rede nacional?

Pelo menos o silêncio não era acompanhado de falácias

Chegamos no segundo turno. Lula e Flávio Bolsonaro disputam a presidência da República após uma apuração acirrada no dia quatro de outubro e sem terem pisado em um debate do primeiro turno. Os candidatos que precisavam estar à frente desses encontros chegam neste momento decisivo pelo voto do eleitor que não teve a oportunidade de ver as propostas na tela da imprensa. Se um deles tivesse participado de um debate no primeiro turno, teria vencido? 

Pergunta que já começou a ser respondida. O primeiro debate para o segundo turno foi realizado no dia 18 de outubro, em parceria da Band com um pool de outros veículos. Os dois candidatos estiveram presentes, antes tarde do que nunca. A StagePop publicou no X que depois do encontro, Lula ganhou 30 mil seguidores no Instagram em apenas uma hora após o término do debate, e Flávio ganhou cerca de 12 mil seguidores na mesma rede social. Realmente estaríamos a alguns dias do segundo turno se eles tivessem participado de pelo menos um debate antes? O presidente do Brasil já poderia ter sido escolhido se ambos os candidatos tivessem aparecido na TV antes. 

Mas eles finalmente participaram, deram as caras para a imprensa e para o eleitor que estava ansioso por este momento. Mas para que? O debate era pra ser de idéias, propostas e esclarecimento, mas o que o público viu foi perguntas não respondidas, deboche entre os candidatos e o desrespeito com os jornalistas por parte da plateia. Lula e Flávio Bolsonaro dividiram um palco, travaram perguntas e poucas respostas e movimentaram os cortes das redes sociais depois. 

Nas considerações finais de Lula, a plateia começou a se exaltar por causa das interações que Flávio estava fazendo enquanto Lula falava. Os jornalistas precisaram intervir durante três minutos, até que o silêncio fosse tomado e o candidato retomasse sua conclusão. Depois, Flávio Bolsonaro pediu seu tempo de considerações de novo, por causa da interferência da platéia. Novamente, as pessoas presentes começaram a elevar a voz, até que os jornalistas precisaram relembrar que “a plateia não faz parte do debate”. 

Mais uma vez, a atenção do eleitor foi desviada. Ao invés de estar preocupado em checar o que os candidatos estão falando no debate, toda a confusão vira pauta na boca do povo, e o que era pra ser a ferramenta em prol da democracia é ridicularizado mais uma vez. 

A organização jornalística Aos Fatos checou em tempo real o encontro entre os candidatos. Muitas das pautas e afirmações levantadas por ambos não eram verdade ou estavam distorcidas. Para quem assiste ao debate e leva em consideração somente aquilo que o candidato fala, cai no erro ao acreditar que tudo é verdadeiro. E para aqueles que se preocupam em saber mais sobre as polêmicas e a baderna, os candidatos terminam o debate batendo em mesas e dando saltos de alegria. 

Antes dos eleitores voltarem às urnas novamente, está marcado o último debate, no dia 23 de outubro, na Globo. Será que ele vai acontecer? O histórico dos candidatos não está à favor deles. Se o debate acontecer, os eleitores vão estar preparados para checar o que os candidatos vão falar? Nestes momentos, os jornalistas são apenas os mediadores, e não estão checando o que cada candidato fala para comunicar ao público o que é uma falácia ou não. O que aliás fez muita falta no dia 18. 

E então isso fica nas mãos do telespectador, que precisa buscar, pesquisar e entender se as propostas defendidas e os dados levantados durante o encontro realmente são verdadeiros ou não. Os candidatos devem participar dos debates para que os telespectadores possam assistir e entender as propostas, mas a população deve entender que a TV não faz nada além de informar e trabalhar em prol da democracia através do acesso à informação. Ela cumpre o seu papel ao proporcionar o acesso a tudo isso a população, mas não faz o papel do eleitor de escolha, análise e voto.  

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