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Poder legisalativo

Quando uma só árvore esconde o resto da floresta

  • 22 de outubro de 2026
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Como as eleições para o Executivo ofuscaram a escolha do Parlamento.

Natan Santos

O Datafolha fez uma pesquisa com 2.016 brasileiros aptos a votar entre os dias 28 e 29 de setembro, menos de uma semana antes das eleições. Os resultados mostraram que, entre os participantes, 59% ainda não haviam decidido seu voto para o Senado. Outros 14% haviam decidido apenas um nome para as duas vagas.

Na mesma pesquisa, 57% dos entrevistados ainda não haviam decidido seu voto para deputado federal. O mesmo percentual também não havia escolhido um candidato a deputado estadual.

Por outro lado, uma pesquisa divulgada pelo mesmo instituto, realizada em 28 de setembro, mostrou que apenas 5% dos participantes estavam indecisos sobre seu voto para a Presidência da República.

Esses números mostram uma diferença significativa no momento de escolha dos representantes. Por mais que a indecisão não signifique necessariamente desinteresse ou desconhecimento, os dados levantam uma pergunta importante: por que a escolha de alguns cargos parece chamar mais a atenção do eleitor do que a de outros?

Essa resposta pode estar na forma que a imprensa organiza sua cobertura eleitoral. Durante as campanhas, a disputa pela Presidência costuma ocupar o centro do debate público. Os candidatos ganham espaço nas manchetes, nos debates televisivos, nas redes sociais e nas discussões sobre pesquisas eleitorais. Enquanto isso, a escolha dos representantes do Legislativo frequentemente fica em segundo plano.

Uma eleição, diferentes níveis de atenção

A questão não está em questionar o espaço da eleição presidencial, que possui grande relevância, mas em observar a atenção destinada às demais disputas. A mesma população que escolhe o presidente também escolhe os representantes responsáveis por elaborar leis, fiscalizar o governo e participar de decisões que afetam diretamente a vida dos cidadãos.

Por exemplo, o Partido Liberal (PL), que foi o partido que mais elegeu deputados federais em 2026, teve disponíveis 4m20s para tempo de propaganda na televisão para o cargo de presidente. Enquanto isso, mesmo tendo 71 candidatos a deputado federal no estado de São Paulo, o partido teve 2m20s para a propaganda no bloco de deputados. Se o PL dividisse uniformemente o tempo para os deputados, cada um teria 2 segundos de tela, 130 vezes menos que o candidato à presidência.

Quando a cobertura concentra seus esforços nos candidatos ao Executivo, o eleitor recebe mais informações sobre uma parte da disputa e pode encontrar menos oportunidades para conhecer os candidatos ao Legislativo, suas propostas e suas responsabilidades. Um deputado estadual, por exemplo, vai conseguir lutar por recursos para a região da sua cidade, mas uma pessoa mal informada não tem esse conhecimento. Assim, a diferença de visibilidade entre os cargos pode gerar uma escolha eleitoral menos informada.

O que a imprensa escolhe mostrar do Legislativo

A produção jornalística não se limita a transmitir acontecimentos. A escolha dos assuntos que recebem destaque, o espaço destinado a cada pauta e a frequência com que determinados temas aparecem também influenciam a percepção do público sobre o que é importante.

É necessário questionar os critérios utilizados pela imprensa durante o período eleitoral. De que maneira os veículos de comunicação apresentam os candidatos ao Legislativo e suas propostas? Quanto espaço é destinado às pesquisas presidenciais em relação às disputas legislativas? E quantas reportagens explicam as atribuições dos parlamentares e as consequências de suas decisões?

Essas perguntas ajudam a entender se a cobertura eleitoral oferece ao público uma visão geral da disputa, ou se dá privilégios aos cargos que tradicionalmente chamam mais atenção. Mais do que dar mais espaço ainda para quem lidera as pesquisas, o jornalismo também precisa oferecer informações que permitam ao eleitor avaliar os candidatos e compreender as funções que vão exercer.

Explicando o Legislativo

A falta de informações sobre as atribuições dos cargos legislativos pode dificultar a escolha dos representantes. Enquanto a Presidência é associada a uma figura central do governo, o trabalho de deputados e senadores envolve responsabilidades que nem sempre recebem a mesma atenção na cobertura cotidiana.

Isso não significa que a mídia seja a única responsável pela indecisão dos eleitores. A decisão do voto também envolve fatores como identificação partidária, experiências pessoais e interesses econômicos. Ainda assim, o jornalismo tem uma função importante na apresentação dos candidatos e na explicação do funcionamento das instituições políticas.

Quando a cobertura não dedica espaço suficiente para explicar o papel do Legislativo, se perde uma oportunidade de aproximar o eleitor de decisões que também interferem em seu cotidiano. A falta de informação nesse âmbito pode acarretar até mesmo na eleição de uma pessoa que não anexou nada à área de propostas do TSE.

Uma floresta que precisa ser vista por inteiro

A democracia não se resume à escolha de quem ocupará a Presidência da República. Ela também depende da composição do Congresso Nacional e das assembleias legislativas, espaços em que são debatidas, aprovadas ou rejeitadas decisões que afetam a sociedade.

Por isso, a cobertura eleitoral precisa ir além do protagonismo dos candidatos ao Executivo. 

É necessário ampliar o espaço destinado às disputas legislativas, explicar as atribuições de cada cargo e apresentar propostas que permitam ao eleitor fazer escolhas conscientes.

A imprensa não precisa diminuir a importância das eleições presidenciais para valorizar o Legislativo. Precisa reconhecer que a relevância de uma eleição não se limita à visibilidade de seus candidatos. Quando uma parte da disputa ocupa quase todo o campo de visão, outras escolhas fundamentais correm o risco de passar despercebidas. Afinal, enxergar apenas a árvore mais alta não significa conhecer a floresta inteira.

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