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Informação falsificada, verdade fabricada

  • 22 de outubro de 2026
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Como as fake news distorcem fatos e desafiam a democracia. 

Ellen Cristiny Andrade

Durante as eleições, as fake news circulam como notícias verdadeiras e podem influenciar a maneira como o público enxerga candidatos, partidos e acontecimentos políticos. Algumas inventam declarações, outras utilizam imagens reais ou imitam conteúdos jornalísticos para dar credibilidade a uma mentira. Com a velocidade das redes sociais, essas publicações podem alcançar milhares de pessoas antes que alguém verifique sua origem.

“Ver para crer”, a expressão popular resume a confiança que depositamos naquilo que vemos. Uma fotografia parece registrar um momento, um vídeo dá a impressão de mostrar os fatos e uma gravação pode soar como prova de uma declaração. Mas, quando esses materiais podem ser fabricados ou manipulados, a aparência já não garante a autenticidade. Se até aquilo que parece uma evidência pode ser falso, em que se sustenta a nossa confiança?

Mentira com cara de verdade 

As fake news não surgiram com a inteligência artificial, mas a tecnologia ampliou as possibilidades de produzir conteúdos que parecem autênticos. É como uma imitação que recebe um bom polimento: quanto mais se aproxima do original, mais difícil pode ser perceber que não é o que aparenta.

Um levantamento da Agência Lupa identificou conteúdos produzidos ou alterados por inteligência artificial em 15 das 80 publicações verificadas nas redes sociais durante o primeiro turno das eleições de 2026. Isso representa 18,8% dos materiais analisados. Entre os casos estavam falas falsamente atribuídas a candidatos, fotografias manipuladas e imagens de multidões que não existiam. O relatório da Agência também identificou o crescimento de conteúdos que fabricavam sinais de apoio ou vantagem política.

Um exemplo foi o vídeo que circulou nas redes sociais atribuindo a Flávio Bolsonaro declarações sobre cortes no décimo terceiro salário, nas aposentadorias e no programa Pé-de-Meia. Segundo o UOL Confere, a gravação foi manipulada com inteligência artificial a partir de um pronunciamento real do candidato. O registro original não continha as declarações que apareceram na versão compartilhada.

A estratégia funciona porque utiliza elementos reconhecíveis para dar credibilidade ao que foi inventado. O rosto é o do candidato, o cenário parece real e a gravação imita um registro legítimo. A falsificação não precisa convencer o público de que tudo aquilo existe, mas de que aquela pessoa realmente disse algo que nunca disse. É a aparência de autenticidade que sustenta a mentira.

O caso também evidencia o desafio de que apenas verificar a existência de uma gravação não basta quando o próprio material pode ter sido alterado. É preciso buscar a fonte original, comparar versões e investigar o conteúdo da fala. Afinal, se uma falsificação pode parecer tão convincente quanto o registro verdadeiro, até que ponto estamos acreditando nas evidências e até que ponto estamos apenas confiando naquilo que parece real?

Recorta daqui, distorce dali

Nem toda fake news precisa inventar uma cena. Às vezes, uma informação verdadeira é apresentada de maneira incompleta ou recebe uma interpretação que não corresponde aos fatos. O recorte pode parecer legítimo, mas a conclusão construída a partir dele é falsa.

Em outubro de 2026, uma publicação nas redes sociais afirmou que 20 seções eleitorais de cinco estados haviam registrado votos para apenas um candidato à presidência. A checagem do Tribunal Superior Eleitoral mostrou que a alegação era falsa, na maioria das seções citadas, também houve votos para outros candidatos. A publicação ainda desconsiderava que as seções ficavam em áreas indígenas, onde pode ocorrer concentração de votos em um candidato por razões culturais. A verificação foi publicada na plataforma Fato ou Boato.

O caso mostra como uma informação pode ser organizada para sugerir uma conclusão antes mesmo de o público conhecer todos os dados. Ao apresentar uma alegação sobre a votação sem explicar o contexto e sem conferir os boletins das seções, a publicação transformava uma suspeita em aparente evidência de fraude.

Essa distorção também pode ocorrer quando uma legenda muda o sentido de uma imagem. Em outubro de 2026, um vídeo da Marcha para Exu, realizada em agosto, circulou nas redes sociais como se mostrasse um ritual durante uma manifestação de apoio a Lula. Segundo o UOL Confere, as imagens eram de um evento religioso e não tinham relação com o ato político. A gravação existia, mas a legenda atribuía a ela outro contexto, induzindo o público a uma interpretação falsa.

Algo semelhante ocorreu com Flávio Bolsonaro e Nossa Senhora Aparecida. Nas redes sociais, uma interpretação associou o candidato a uma suposta proposta para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. Conforme explicou o UOL, a proposta citada havia sido apresentada por outro deputado em 2007 e arquivada em 2008, sem ligação direta com Flávio. Após a repercussão do assunto, a GloboNews corrigiu uma informação divulgada sobre o caso. O episódio mostra como uma associação fora de contexto pode alimentar uma narrativa política enganosa.

É como observar uma peça de um quebra-cabeça e afirmar que ela representa a imagem inteira. O fragmento pode ser verdadeiro, mas não permite compreender o conjunto sozinho. Nas fake news, a omissão de informações pode cumprir justamente essa função: conduzir o público a uma interpretação que os fatos completos não sustentam.

Isso não significa que toda seleção de informações seja manipulação ou fake news. A questão está em retirar elementos essenciais para induzir o leitor ao erro. Quando um recorte é apresentado como prova de fraude sem sustentação nos registros que existem disponíveis, ele deixa de esclarecer um acontecimento e passa a construir uma suspeita. Se uma informação pode ser usada para sustentar uma conclusão falsa, o que importa mais: o dado que aparece na publicação ou aquilo que ela deixa de mostrar?

A mentira circula, o jornalismo apura 

Enquanto conteúdos falsos circulam pelas redes sociais, o jornalismo precisa investigar o que está por trás de cada publicação. O desafio não está apenas em identificar uma informação falsa, mas em apurar sua origem, recuperar o contexto, consultar fontes e apresentar ao público evidências que permitam compreender o que realmente aconteceu. Em um ambiente no qual uma publicação pode alcançar milhares de pessoas em pouco tempo, a verificação exige cuidado, mas também precisa lidar com a velocidade da circulação.

Nas eleições de 2026, o trabalho de checagem apareceu em diferentes iniciativas. O UOL Confere,e o Fato ou Fake do G1, por exemplo, publicaram verificações sobre vídeos manipulados por inteligência artificial, imagens falsas de candidatos e alegações enganosas sobre o processo eleitoral. Já o Tribunal Superior Eleitoral mantém a plataforma Fato ou Boato, que reúne checagens produzidas por agências especializadas e conteúdos educativos para esclarecer informações falsas ou fora de contexto. Essas iniciativas mostram como o jornalismo e as instituições de verificação atuam para confrontar narrativas que circulam nas redes sociais.

Mas verificar uma informação não significa, necessariamente, alcançar todas as pessoas que tiveram contato com a mentira. Uma publicação pode viralizar antes de ser checada, e a correção pode não chegar ao mesmo público que recebeu o conteúdo original. Além disso, quando uma informação falsa é desmentida, ela já pode ter influenciado a percepção de quem a viu. A apuração jornalística consegue esclarecer os fatos, mas não controla a distribuição das publicações nem garante que a correção tenha o mesmo alcance.

Isso não significa que o jornalismo tenha deixado de cumprir seu papel, mas evidencia os limites de sua atuação diante da dinâmica das plataformas digitais. A apuração continua sendo fundamental, assi como a transparência sobre as fontes, os métodos utilizados e eventuais correções. Ao mesmo tempo, o enfrentamento da desinformação exige que as plataformas também sejam discutidas, já que seus sistemas de recomendação influenciam quais conteúdos ganham visibilidade. A questão, portanto, não é apenas descobrir quem produziu uma mentira, mas compreender por que ela circulou tanto e se a informação verificada conseguiu chegar a quem precisava dela.

Os porteiros da era digital 

As redes sociais não apenas permitem que as informações circulem, mas também influenciam o que ganha visibilidade. Os algoritmos organizam os conteúdos que aparecem nos feeds, recomendam publicações e sugerem novos materiais com base em diferentes critérios. Nesse processo, uma informação pode alcançar milhares de pessoas em pouco tempo, enquanto outras permanecem pouco visíveis.

Na comunicação, o conceito de gatekeeping, ou “seleção dos portões”, está relacionado ao processo de escolher quais informações serão divulgadas e terão espaço nos meios de comunicação. Tradicionalmente, essa função era exercida por jornalistas, editores e outros profissionais que selecionavam os acontecimentos considerados relevantes para o público. Com as redes sociais, essa dinâmica se tornou mais complexa. Além dos profissionais da comunicação, as plataformas digitais e seus algoritmos passaram a influenciar quais conteúdos aparecem com maior frequência e alcançam mais pessoas.

Essa mudança não significa que os algoritmos substituíram completamente o trabalho dos jornalistas, mas que a seleção das informações passou a ocorrer também em ambientes digitais, nos quais os critérios de recomendação nem sempre são transparentes para o público. Quando uma publicação recebe maior visibilidade, ela pode continuar sendo compartilhada e alcançar novos usuários, mesmo que contenha informações falsas ou fora de contexto. Por isso, a circulação de uma notícia não depende apenas de quem a produz, mas também dos mecanismos que determinam como ela será distribuída.

Um caso verificado pelo UOL Confere ajuda a compreender essa dinâmica. Uma imagem criada por inteligência artificial mostrava Renan Santos fazendo o gesto associado ao apoio a Lula, sugerindo uma adesão política que ele não havia declarado. Uma publicação no Instagram chegou a reunir 565,4 mil curtidas e 89,5 mil republicações. Os números demonstram a dimensão da circulação do conteúdo, mas não comprovam sua veracidade.

Influenciadores e agentes políticos também podem ampliar o alcance de uma publicação ao compartilhá-la com seus seguidores. Quando um conteúdo falso é reproduzido por diferentes perfis e aparece repetidamente nas redes, pode ganhar ainda mais visibilidade. Compreender o papel das plataformas, portanto, é fundamental para analisar a desinformação, pois a questão não envolve apenas a criação de uma mentira, mas também as condições que permitem que ela se espalhe.

Verdade ou aparência? 

Quando uma imagem falsa recebe centenas de milhares de interações, a popularidade pode funcionar como um sinal de credibilidade para quem a encontra depois. A publicação parece ter sido aceita por muita gente, mesmo que suas afirmações não tenham sido comprovadas.

As fake news representam um desafio para a democracia porque interferem na maneira como os cidadãos compreendem os acontecimentos e formam suas opiniões. O jornalismo pode investigar, confrontar versões e corrigir informações, mas a verificação também depende da atenção de quem recebe e compartilha esses conteúdos. Uma imagem pode ser verdadeira e ter uma legenda enganosa, um vídeo pode parecer autêntico e ter sido manipulado, uma informação pode apresentar apenas parte dos fatos.

O problema não está em questionar o que vemos, mas em aceitar uma versão sem procurar compreender sua origem e seu contexto. As redes sociais ampliaram o acesso à informação, mas também tornaram mais fácil confundir popularidade com credibilidade e aparência com evidência. Se uma mentira pode circular como verdade e permanecer na memória mesmo depois de ser desmentida, a pergunta que fica é: quando decidimos em que acreditar, estamos procurando aquilo que realmente aconteceu ou apenas a versão que mais combina com aquilo em que já acreditamos?

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