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O mundo inteiro cobre a Venezuela exceto a Venezuela

  • 20 de maio de 2026
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  • Theillyson Lima
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O país é o assunto do momento e a imprensa venezuelana mal consegue cobrir isso.

Vefiola Shaka

O mundo inteiro olha para a Venezuela. Analistas, repórteres internacionais, think tanks americanos, emissoras espanholas transmitindo 16 horas seguidas de cobertura especial, todos tentando entender o que aconteceu depois que os Estados Unidos invadiram militarmente um país soberano em 3 de janeiro de 2026 e capturaram seu presidente.

Na Espanha, a cobertura do ataque e da captura de Nicolás Maduro fez La 1 alcançar 28% de audiência durante cinco horas consecutivas numa manhã de sábado. Foi a segunda maior cobertura ininterrupta da história da emissora, superando a do apagão e a do 11 de setembro. Agora, uma pergunta simples: o que fazia a imprensa de dentro da Venezuela enquanto isso acontecia?

Um país no escuro

A Venezuela ocupa o 159º lugar no ranking mundial de liberdade de imprensa de 2026, elaborado pela Repórteres Sem Fronteiras, em uma lista de 180 países. Fica atrás apenas de Cuba e Nicarágua nas Américas. Três regimes. Três países onde a imprensa não é exatamente uma instituição, mas sim um problema a ser administrado. Isso não é competição nem motivo de conforto comparativo. É algo sobre o qual vale a pena se preocupar de verdade.

Mais de 400 veículos de comunicação foram fechados em 20 anos. Cerca de 200 rádios deixaram de existir por meio de uma política de concessão e revogação de licenças que a RSF classifica como “pouco transparente”. Alguns veículos independentes operam em exílio, com servidores fora do país, para continuar publicando sem colocar a equipe em risco físico imediato. Isso não é metáfora. É a infraestrutura real do jornalismo naquele país em pleno 2026.

No dia da posse da nova presidenta Delcy Rodríguez, 14 jornalistas foram detidos temporariamente pelas forças venezuelanas. Quatro foram retidos na fronteira e depois liberados. Luis López está preso desde junho de 2024 e Rory Branker foi transferido em dezembro de 2025 para um paradeiro desconhecido. A RSF registrou que cerca de 200 jornalistas estrangeiros ficaram parados em Cúcuta, na Colômbia, esperando autorização para entrar na Venezuela.

O acesso dependia da discricionariedade do soldado de plantão. Não de credenciais, não de vistos, não de um sistema previsível. De um soldado, numa tarde específica, decidindo quem entra e quem volta para o hotel.

O papel dos Estados Unidos e o que ele significa para a cobertura

A política de “hegemonia comunicacional”, herdada de Hugo Chávez e mantida por Maduro, criou um ecossistema em que a sobrevivência dos veículos depende de não confrontar o governo. Paradoxalmente, o olhar da imprensa que sobreviveu se volta de forma permanente para Washington, porque é de lá que vêm as sanções, os acordos, as ameaças e, agora, as tropas.

Depois da captura de Maduro, os EUA intensificaram negociações diplomáticas e econômicas com Caracas. Representantes do governo americano e executivos de empresas de petróleo, gás natural e mineração passaram a circular pela capital venezuelana para fechar acordos no setor energético. As reservas petrolíferas venezuelanas são estimadas em aproximadamente 40 trilhões de dólares. Chegou a circular nos meios americanos uma declaração atribuída a Donald Trump de que estaria “considerando seriamente” incorporar a Venezuela como 51º estado dos EUA.

Noventa dias depois do ataque, as sanções ao setor de petróleo e mineração foram suspensas, os laços diplomáticos foram restaurados e Trump passou a elogiar publicamente a liderança de Delcy Rodríguez, enquanto a oposição venezuelana era progressivamente ignorada pelo mesmo governo que prometeu libertá-la.

Nesse contexto, não é surpreendente que os jornais venezuelanos cubram os Estados Unidos de forma obsessiva. A questão é que isso não é jornalismo de escolha editorial. É um jornalismo de sobrevivência institucional. Cobre o que não pode ignorar e evita o que pode custar caro.

Quem ainda lê, assiste e onde circula informação de verdade

Em um ambiente com poucos veículos sobreviventes, o ecossistema que restou é pequeno, fragmentado e, em boa parte, informal. O El Nacional é citado consistentemente como o único veículo de imprensa escrita que ainda merece alguma credibilidade. O El Universal existe, mas usuários venezuelanos descrevem sua redação como “cínica, nerd e infantil”, além de apontarem erros ortográficos frequentes e falta de veracidade como problemas estruturais. O Últimas Noticias é criticado pela destruição da língua culta.

Na televisão, o cenário é ainda mais magro. Praticamente nenhum canal independente sobreviveu com credibilidade informativa. RCTV, um dos canais mais famosos do país, foi fechado no ano de 2007 por ser considerado de canal de oposição. Esse canal foi retirado da TV aberta e continuou a sua presença no digital até hoje. Enquanto na internet, o El Chiguire Bipolar divide espaço com o El Nacional como referências apontadas por quem ainda acompanha o setor. O El Chiguire é um veículo de sátira política, o que diz muito sobre o estado do ecossistema. Quando a alternativa mais confiável para entender a realidade é um site de humor, a imprensa séria já perdeu a batalha pela presença do público.

Mas talvez o dado mais revelador sobre onde circula informação na Venezuela hoje esteja em outro lugar completamente. O Reddit é um dos sites mais acessados no país, com 6,36 milhões de acessos registrados via celular ou computador e crescimento anual superior a 50%. Um fórum americano de discussão aberta, sem pauta editorial, sem linha editorial, sem editor-chefe, é possivelmente um dos principais canais de distribuição de informação para os venezuelanos. O vácuo que a imprensa não consegue preencher, a população preenche como pode.

Cadê o Brasil neste meio?

Analisando as editorias internacionais do El Nacional e do El Universal, o padrão editorial é revelador. No El Nacional, a editoria Mundo abre com uma seção dedicada aos Estados Unidos, que ocupa a maior parte do espaço visível. Depois vêm América Latina, Colômbia, Europa e Espanha. Nada do Brasil.

No El Universal, o padrão se repete. A maioria das matérias internacionais cobre os Estados Unidos. Há algumas matérias sobre a Bolívia. Por uma pesquisa feita recentemente, há uma matéria sobre o Brasil, sobre um caso de hantavírus em Minas Gerais. Não há uma análise do papel do maior país da América do Sul na crise regional.

Não há uma cobertura sobre a posição brasileira diante da primeira intervenção militar americana na história da América do Sul. Uma notícia de saúde pública de alcance limitado.

Para uma Venezuela que vive uma das maiores crises geopolíticas da história recente do continente, o Brasil praticamente não existe nas páginas dos seus jornais. O país que faz fronteira com a Venezuela ao sul, que abrigou milhões de imigrantes venezuelanos, que tem posição direta sobre os desdobramentos, cabe em uma nota sobre uma doença.

O que sobrou

Um usuário no Reddit, quando perguntado sobre o jornalismo venezuelano onze anos atrás, respondeu com objetividade: é uma piada. Um jornalista que respondeu na mesma thread descreveu o ecossistema como estruturalmente desonesto. O El Nacional foi citado como a única exceção que restou. O El Nacional existe. Mas a extensão do que foi destruído ao redor dele é o que importa entender. O único veículo decente numa paisagem de 400 fechamentos não é uma vitória. É um sobrevivente.

O jornalismo em si existe para promover a democracia, e trazer para a população a capacidade de analisar e formar suas próprias opiniões. Sem isso presente, tudo se torna caos.  Desaparece a fiscalização do poder e tudo vira desinformação. Em um país como a Venezuela, em que essa mediação foi sistematicamente destruída, o poder muda de mãos, mas o silêncio continua o mesmo. 

O que acontece quando a mídia de um país não consegue cobrir o maior evento da história recente desse mesmo país? A resposta não está em nenhum editorial, porque os editoriais  precisam de uma imprensa funcional para existir.

Esse é o cenário. A mídia inteira fala sobre a Venezuela. A Venezuela mal consegue falar sobre si mesma. 

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