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eleitor brasileiro

A disputa que não aconteceu 

  • 22 de outubro de 2026
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O comportamento político da mídia antes de 4 de outubro.

Luisa Oliveira

“Meu partido

É um coração partido

E as ilusões

Estão todas perdidas” 

Ideologia, Cazuza. 

Quarenta e oito dias foi o tempo que a mídia precisou para produzir intriga, violência e fake news. Esses poucos dias foram o período da campanha eleitoral. De 16 de agosto a 3 de outubro, véspera do primeiro turno, usar a camisa da Copa virou declaração de voto, batom e esmalte vermelho também eram. Nesse período, o que o eleitor recebeu do noticiário? Quem foi ao debate, quem fugiu, quem liderava a pesquisa, quem mentiu sobre o banqueiro, qual vídeo era falso? Se quiser saber o que cada candidato fará com o seu 13º, com o Benefício de Prestação Continuada (BPC), direito de voto ou com as bets,  o que se ganha e se perde em cada escolha, vai precisar procurar sozinho e muito a fundo. 

Divulgação da verdade, quem faz? Candidatos, ministros, emissoras, Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner). Todos falam suas próprias versões, mas a verdade é uma só e quando a imprensa busca, descobre e se prepara para falar a sociedade civil ela é atacada. A Coalizão em Defesa do Jornalismo contou 14.182 ataques digitais a jornalistas e veículos em 48 dias, e 64,8% das agressões a profissionais identificados atingiram mulheres.

As sabatinas

Entre 24 e 29 de agosto, o Jornal Nacional fez seis sabatinas, todas com a mesma dupla, Renata Vasconcellos e César Tralli: Zema (NOVO) na segunda, Caiado (PSD) na terça, Renan Santos (MISSÃO) na quarta, Lula (PT) na quinta, Flávio (PL) na sexta e Augusto Cury (AVANTE) no sábado. Os convidados eram os seis mais bem colocados na Quaest de 14 de agosto. Foi a coisa mais próxima de um debate que o eleitor ganhou no primeiro turno, só que sem o adversário na sala para contestar. Seis candidatos, seis noites, e nenhuma chance de ver um respondendo ao outro.

As perguntas eram duras, e isso precisa ser dito. Zema respondeu por Minas Gerais, vacinação e compromisso democrático, Caiado foi pressionado sobre a viabilidade fiscal, Renan Santos teve de explicar segurança pública e clima, e Cury foi cobrado por detalhes em economia e inteligência artificial. Parte das afirmações de Zema e de Renan foi checada depois e se mostrou exagerada ou incorreta. 

A sabatina que mais chamou atenção e virou notícia foi a de Lula, e não pelo que ele propôs. A parte inicial foi consumida por inquéritos envolvendo o filho, Lulinha, e pelas relações do presidente com citados nas investigações, antes de a conversa chegar a segurança, economia, dívida pública e educação. Lula reclamou que parecia estar depondo ao Ministério Público. Na pergunta sobre dívida pública, disse esperar que uma jornalista “da tua qualidade” tivesse formulado a questão de outro jeito, e ainda sugeriu como. Ao ser questionado sobre Carlos Lupi, voltou à Lava Jato, Moro e Dallagnol, e Renata respondeu que o jornalismo da Globo cumpriu a obrigação de noticiar os fatos. A pergunta sobre a dívida, que deu início ao atrito, virou rodapé do próprio atrito. Fez-se o enquadramento episódico em tempo real, o que ficou foi quem bateu boca com quem.

É justo registrar que perguntar sobre pessoas próximas ao poder é obrigação da imprensa. A discussão que sobra é de proporção, quanto tempo e quantas perguntas foram dedicadas ao tema em comparação com os outros candidatos, e ninguém cronometrou isso para ser transparente com o eleitor. Flávio também enfrentou perguntas pesadas, e a diferença é que respondeu por si mesmo, não pelo pai em prisão domiciliar nem pelo entorno. Só que ele entrou no estúdio já sabendo da cena da véspera. Em sua primeira resposta, prestou “solidariedade” à Renata pela “descortesia” de Lula. Foi um gesto de cavalheirismo político impecável, isso não se pode contestar, o candidato transformou o desgaste do adversário em tapete vermelho para a própria entrada. Depois vieram o artigo em que negava o aquecimento global, a comemoração do tarifaço por Eduardo Bolsonaro e a pergunta sobre respeitar o resultado das urnas, ao que respondeu que ganharia no primeiro turno. 

No fim, as sabatinas cumpriram o ritual de cobrar, e a cobrança é válida. Mas a pergunta incômoda e sem comparação entre propostas é só mais um capítulo do que já vimos nos debates, o conflito é encenado, o diagnóstico fica para depois. O eleitor saiu sabendo quem se irritou, quem se solidarizou e quem foi desmentido, e continuou sem saber o que cada um fará com a vida dele.

O debate oferecido para o eleitor

O fato central do primeiro turno foi um debate que não aconteceu. Lula e Flávio Bolsonaro não foram a nenhum debate televisivo. O do consórcio Momento da Decisão (14/9) e o da Record (27/9) caíram pela ausência dos dois, e o da Globo (1º/10) caiu depois que Flávio desistiu horas antes e a Justiça mexeu nas regras. O eleitor foi convidado para uma festa cujos anfitriões não apareceram, e a cobertura passou semanas contando quem faltou. Na Band, Renan Santos apareceu com duas fraldas com o nome dos rivais, e a cena virou manchete, enquadramento episódico de manual. A pauta, claro, ficou para depois.

Na Globo, a imprensa deixou de ser observadora e virou a vítima. Nunes Marques manda incluir Zema, Gilmar Mendes manda incluir Renan Santos e a ministra Estela Aranha proibiu o púlpito vazio com o nome de Lula. Flávio, que dizia que iria de qualquer jeito, saiu alegando censura, a Globo cancelou menos de uma hora antes e pôs uma novela no ar. Abert, ANJ e Aner disseram ser agredidas com sua liberdade de imprensa. A imprensa transformou o próprio cancelamento em notícia, e o debate, que serviria para comparar propostas, saiu de pauta. O Datafolha mostrou que 78% consideram muito importante a presença dos dois no segundo turno, na esperança de terem aquilo que não houve no início.

Como forma de fugir de debates, na mesma noite que aconteceria o debate da Globo, Lula foi ao Flow Podcast. Segundo a Revista Fórum, passou de 10 milhões de acessos em 12 horas, enquanto a live improvisada de Flávio alcançou o total 5 milhões de pessoas e seu ápice ficou em cerca de 941 mil conectados ao mesmo tempo. O Pleno.News, de perfil oposto, registrou 1,2 milhão de espectadores em média. Dos dois lados, a ordem de grandeza é a mesma,um podcast bateu de frente com o horário nobre da maior emissora do país.

A imprensa contou tudo pelo número da audiência. Ninguém perguntou o que foi dito. No Flow, Lula ironizou a relação de Huck com Vorcaro e com a Globo, sem ninguém para replicar. A nova mídia virou o lugar onde candidatos falam da velha mídia sem intermediação, e a velha mídia, em vez de checar, cobriu como se fosse desnecessário. 

Banco Master um escândalo como pauta única

Aqui a imprensa foi agressiva, e é justo reconhecer. O Intercept mostrou mensagens em que Flávio pedia dinheiro a Daniel Vorcaro e o chamava de “irmão”. Ele negou, depois confirmou a conversa, alegando buscar investimento para o filme sobre o pai. A cobertura também alcançou Moraes, Toffoli, Lulinha e a própria Globo, com a auditoria interna sobre Huck. Tudo isso é investigação, não condenação.

Foi jornalismo de apuração, com documento e fonte, e merece crédito. Mas apurar escândalo é uma coisa, e dar informação de diagnóstico é outra. A denúncia diz quem errou e quanto, mas não diz que política pública está em jogo. É o enquadramento de conflito na versão gourmet. O próprio Intercept acusa parte da imprensa de repetir vícios da Lava Jato e de só olhar outros alvos quando os ministros se mexeram. É uma opinião concorrente, mas a nuance existe.

E no final das contas, a imprensa explodiu os escândalos com documentos e vazamento da PF, e foi forte como fiscal de fake news, com Aos Fatos, Lupa e Núcleo investigando, não só desmentindo. Mas errou a leitura do eleitor com pesquisas que ela mesma contratou, e perdeu a agenda dos debates. Parte do espaço da TV foi ocupada por podcasts, o que reduz a mediação jornalística.

Se a função do jornalismo é entregar informação de diagnóstico, a imprensa explodiu o escândalo e abafou a política. Falou de quem briga, de quem lidera, de quem mente e de quem falta, e deixou o eleitor sem saber o que está em jogo na própria vida, sem saber de promessas, projetos ou qualquer coisa que vá mudar em seus próximos quatro anos. 

 

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