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Brasil

Todos de olho no Brasil

  • 23 de outubro de 2026
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Imprensa estrangeira acompanha com grande expectativa os rumos das eleições brasileiras de 2026.

Príscilla Melo

As eleições presidenciais do Brasil chegaram e com ela a polarização política vigente desde 2018 voltou à tona, mesmo que em menor escala que seu auge em 2022. O Brasil é um grande destaque internacional em tudo o que faz, isso não é novidade para ninguém. Seja pelo esporte, pela cultura ou pelo turismo, sempre estamos na mídia. E quando se trata de política a situação não é muito diferente, parece que vários países querem algo do Brasil. 

As eleições de 2026 tiveram uma cobertura massiva dos jornais internacionais, tanto nos Estados Unidos (EUA) quanto na América do Sul e Europa. Mas será que quem não vive nesta zona de tensão realmente sabe o que está acontecendo no país do outro?

Os olhos da águia sobre o Brasil

Desde que retomou o controle dos Estados Unidos em janeiro de 2025, Donald Trump passou a interferir ativamente na política de outros países, especialmente os da América Latina. Em janeiro de 2026, forças especiais dos EUA, a mando de Trump, capturaram o líder da Venezuela, Nicolás Maduro, e subiram ao poder uma liderança interina disposta a colaborar com Washington. Ainda em janeiro deste ano, o presidente americano disse que a Colômbia é ‘‘dirigida por um homem doente, que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos’’. Além disso, Trump afirmou que realizar uma operação como a da Venezuela na Colômbia lhe parecia algo bom. 

O presidente americano chegou até a se gabar por ter ajudado candidatos de direita, como Javier Milei na Argentina, a se elegerem na América do Sul, mas não declarou apoio a nenhum candidato brasileiro. Antes do primeiro turno, o The New York Times descreveu as eleições no Brasil como o maior teste regional para a direita e para o histórico de sucesso de Trump. O jornal também lembrou a tentativa de Donald de interferir na prisão de Jair Bolsonaro por golpe de Estado e destacou que ‘‘o Brasil está erguendo uma barreira’’ para tentar se proteger de uma interferência dos EUA nas suas eleições. 

Além disso, na mesma matéria intitulada: ‘‘The Big Question Looming Over Brazil’s Elections: President Trump’s Next Move’’ (A grande questão que paira sobre as eleições brasileiras: o próximo passo do presidente Trump), o The New York Times afirmou que o país brasileiro busca apoio de países europeus e asiáticos para evitar possível interferência dos EUA. O jornal ainda destacou que Trump negou alegações de que estaria tentando interferir na política brasileira. No portal do The New York Times é possível perceber que a maioria das matérias sobre as eleições do Brasil abordam o tema como um grande pontapé inicial para ações de Trump na política dos Estados Unidos e nas Américas como um todo (‘‘Brazil Is a Sign of Things to Come’’, ‘‘A Bolsonaro Win Would Nearly Complete Trump’s Latin America Map’’, ‘‘U.S. Suspends Consular Services in Brazil on Eve of Elections’’). 

Sobre o primeiro turno das eleições no Brasil o The Washington Post ressaltou que o resultado prepara o país para uma virada, relembrando a vitória de Lula sob Jair Bolsonaro em 2022 com a menor margem de diferença da história das eleições no país. Um dia após o primeiro turno, o The Washington Post publicou em uma matéria que uma fonte anônima da Casa Branca afirmou que o silêncio de Trump durante o primeiro turno foi uma decisão estratégica para evitar prejudicar Flávio Bolsonaro. O jornal ainda destacou a tentativa de interferência de Trump ao relatar que o governo americano planejou enviar uma delegação ao Brasil com o objetivo de questionar a integridade das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral antes das eleições de outubro, ação que foi negada pelo Brasil.

Europa e sua união estável com o Brasil

A União Europeia (UE) é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, responsável por 15% do comércio total e o maior investidor estrangeiro no país. Equivalente a isso, o Brasil é o segundo maior exportador de produtos agrícolas para a UE, atrás apenas da China e à frente dos EUA. Diante das eleições deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) credenciou sete instituições estrangeiras que solicitaram observar as eleições de 2026, a fim de gerar um relatório posteriormente que aprova ou não a regularidade do sistema eleitoral do país. Entre as organizações credenciadas está a União Europeia, que pela primeira vez enviou uma equipe técnica para o Brasil com o objetivo de monitorar a segurança das urnas e acompanhar o dia a dia das eleições em diversos pontos do país.

O jornal britânico The Guardian publicou uma semana antes das eleições no Brasil, um editorial intitulado ‘‘The Guardian view of Lula v the Bolsonaros: the decision of Brazilian voters will affect us all’’ (A visão do The Guardian sobre Lula x Bolsonaro: a decisão dos eleitores brasileiros afetará a todos nós). Sobre Flávio Bolsonaro, o texto alega que embora ele aparente ser uma versão ‘‘menos grosseira e menos temperamental’’ do pai, ele mantém posicionamentos igualmente radicais. O artigo também concluiu que uma vitória de Flávio pode significar riscos à democracia, aos direitos das minorias e ao meio ambiente. A respeito de Lula, o texto avalia que o então presidente encara um desgaste causado pela desaceleração econômica, o escândalo do Banco Master e a criminalidade.

No El País Espanha, muitas manchetes foram dedicadas à descrição da situação caótica do Brasil em meio a polarização política que divide o país entre Lula e Bolsonaro. Entre os títulos temos representações como ‘‘Brasil decide su futuro entre Lula y Bolsonaro, un estadista desgastado y el hijo de un ultra’’, ‘‘Elecciones en Brasil 2026: claves de una votación polarizada’’ e ‘‘Brasil: entre lo peor y la catástrofe’’. Apesar de em primeira vista parecer uma observação neutra, textos opinativos com manchetes ‘‘Brasil ante el riesgo de Bolsonaro’’, ‘‘La democracia en Brasil está amenazada’’ ‘‘El apellido Bolsonaro gana desde la cárcel’’, mostraram que o posicionamento do El País é bem diferente do Clarín. No dia 15 de outubro o senado brasileiro aprovou o fim da escala 6×1, o El País noticiou o fato com o título ‘‘Decenas de millones de trabajadores logran un segundo día libre en Brasil, una victoria política para Lula’’, enfatizando que o ocorrido pode beneficiar Lula no segundo turno.

Nossos vizinhos 

Além da proximidade geográfica, o Brasil se destaca como o maior território, a maior economia e o grande motor do comércio sul-americano através da sua atuação no bloco econômico Mercosul composto por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia. Sendo o grande líder da região, os países vizinhos se veem dependentes do Brasil, por isso o desenrolar destas eleições é tão importante.

O argentino Clarín, considerado um jornal de centro-direita, priorizou destacar a ‘‘não vitória’’ de Lula no primeiro turno, com títulos como ‘‘Elecciones en Brasil con dos malas noticias para Lula: otra encuesta da ganador a Bolsonaro y la inflación rompe el techo del Central’’ e ‘‘Panorama Internacional: El capítulo final de la leyenda de Lula da Silva’’. Além disso, o jornal comentou a relação entre Flávio Bolsonaro e Miley e a reação do presidente argentino ao resultado do primeiro turno.

O jornal boliviano la Razón, destacou a tentativa de interferência de Trump e o interesse dos Estados Unidos no Brasil através das manchetes ‘‘Los brasileños votan en unas elecciones seguidas muy de cerca por Trump’’, ‘‘Lula: Trump no debe meterse en las elecciones de Brasil’’, ‘‘Trump saluda ‘gran victoria’ de Flávio Bolsonaro en las elecciones’’.

O centro das atenções

A cobertura internacional das eleições no Brasil foi muito além de apenas contar o que estava acontecendo. Os jornais estrangeiros misturam fatos e opiniões, explicando como a votação por aqui poderia mexer com a política do mundo todo. Falando sobre riscos para a democracia e analisando o desgaste dos líderes políticos. Cada país deixou claro de que lado estava. O jornal argentino Clarín se posiciona mais à direita, mostrando uma linha mais conservadora que costuma criticar governos de esquerda. Já o britânico The Guardian e o espanhol El País demonstram um lado centro-esquerda, fazendo alertas firmes contra o avanço da extrema-direita. Por fim, o The New York Times assume um papel de centro, focado em analisar como a eleição mexe com a economia e com a geopolítica do mundo, sem declarar viés a nenhum candidato local.

Durante as eleições presidenciais no Brasil, os olhos do mundo estão voltados para nós. Seja pela cautela europeia ou a ambição estadunidense, o Brasil mostrou que suas urnas têm peso global. Entre as pressões externas e a polarização interna, apenas um presidente sairá do dia 25 de outubro. Mais do que escolher um líder para o seu território, os eleitores brasileiros vão ditar os próximos capítulos geopolíticos mundiais. E entre o cidadão e a urna não há espaço para Trump nem nenhuma outra interferência, essa decisão é totalmente do povo brasileiro.

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