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Uruguai, o país sem nome próprio no jornalismo

  • 20 de maio de 2026
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  • Theillyson Lima
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O país que não é reconhecido pelo jornalismo local.

Vitória Amábili 

Geralmente os brasileiros pensam que os outros países da América do Sul não são tão desenvolvidos tecnologicamente. Para os leigos, não há a presença jornalística nesses países, pois tudo o que se lê sobre eles é por portais de notícias e sites do Brasil. 

Conforme o Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa, publicado no Repórteres Sem Fronteira (RSF), pela primeira vez, mais da metade dos países do mundo se encontram em uma situação “difícil” ou “muito grave”. O Uruguai, país que faz fronteira com o Rio Grande do Sul, está em 48° lugar, alguns pontos acima do Brasil, que se encontra em 52° no ranking. Ambos estão em uma classificação “problemática” na liberdade de imprensa, contudo, a colocação é boa comparada a outros países da América do Sul. 

Por isso, o intuito desse texto é avaliar o jornalismo local do Uruguai e como ele se comporta com a liberdade de imprensa. Responder como os meios jornalísticos utilizam a profissão para produzir produtos e divulgar os mesmos no país, e mostrar a realidade da vida do jornalismo no contexto econômico e político. 

A lei que dá a sensação de liberdade

O Jornal da USP publicou em 2024 uma matéria com entrevista de Carlos Muñoz, ex-presidente do Serviço de Comunicação Audiovisual do Uruguai. Neste material, é destacado a aprovação da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual em 2014, no final do governo de José Mujica. Conhecida como “Lei de Meios”, foi estabelecido explicitamente que os meios públicos deveriam garantir o exercício do direito humano à liberdade de expressão e à liberdade de informação. 

Essa lei favorece o pluralismo da mídia. Porém, modificações aprovadas pelo Congresso em 2024 afetam a transparência e favorecem a censura a veículos de comunicação e jornalistas. Tudo isso não garante de maneira explícita o direito à liberdade editorial e, no contexto econômico, o salário e as garantias profissionais se tornaram cada vez mais precárias. 

Hoje, existem os principais meios jornalísticos uruguaios. Para o Brasil, o grande protagonista em notícias é a Globo, liderando em portais, podcast, rádio, TV aberta e sites diversos. Já no Uruguai, El País ocupa esse lugar de fama, com amplo alcance e mídias diversas. Além dele, El Observador e La Diaria são os portais de notícia mais consumidos pelos leitores, movimentando também as categorias de rádio e podcasts. Junto deles, Villar/De Feo, Romay e Cardoso/Scheck são grandes grupos do país. 

Jornalismo de outros países, não do Uruguai

O país do asado, famoso churrasco uruguaio preparado na parrilla, possui grandes nomes de portais de notícias. El País se consagra como o mais acessado no país, embora seja apenas uma franquia do jornal da Espanha. Fundado em 1918, o jornal cobriu boa parte da história do Uruguai ao longo dos anos e busca princípios de objetivo e pluralismo em seus produtos jornalísticos. Detendo a maior circulação nacional, o noticiário entrega diariamente matérias com assuntos de economia, política, futebol, saúde e diversos outros nichos. Além das matérias diárias, ele possui podcast e rádio no próprio site. 

Contudo, apesar da visão do portal ser “Consolidar nossa liderança no Uruguai, produzindo jornalismo relevante e de alta qualidade que ajude as pessoas a entender o mundo”, é irônico o Uruguai se consolidar nos jornais usando o nome de um portal de outro país. Diferentemente do Brasil, com o portal G1 sendo local e mais acessado, o Uruguai divide a audiência das matérias locais com as da Espanha e outros países da América do Sul. 

Junto dele, está O Observador, que começou a sua jornada em 1991, em Montevidéu. Peirano, um dos fundadores, apresentou o jornal no dia 17 de outubro, sabendo que a jornada não seria fácil por se tratar de reportagens independentes e objetivas. Desde então, o portal é outro que divide a audiência entre Uruguai e outros países, como Argentina. Em seu portal online, é possível ler sobre uma variedade de assuntos e acompanhar ao vivo programações no Youtube. 

Diferentemente dos primeiros, La Diaria é uma plataforma jornalística independente que surgiu da iniciativa de cidadãos locais. Mais de 90% da sua renda provém de assinantes que pagam por um jornalismo diferenciado e é apoiada por uma comunidade que compartilha suas sensibilidades e interesses. Política, esporte, opinião e cultura fazem parte da lista de assuntos abordados no jornal, além de temas globais. 

Mesmo sendo um país pequeno, o jornalismo não deveria ter o nome de outro país a não ser do Uruguai. Uma mídia local passa muito mais valor, confiabilidade e ética para os cidadãos, do que um nome da Espanha usado nos portais locais. Além disso, para quem não mora no Uruguai, a imagem passada é de que não há presença jornalística lá, pois entre os três maiores nomes de portais do país, dois deles não são de origem uruguaia. 

Não basta produzir, é preciso saber publicar 

Apesar do forte alcance local, as plataformas são precárias para pesquisa no âmbito jornalístico. No El País, não há um filtro para buscar matérias específicas em determinado período de tempo, o leitor sabe somente a quantidade de matérias sobre o assunto. O mesmo acontece com o El Observador, que não possibilita saber a data da publicação da matéria sem clicar na mesma, oferecendo somente uma busca sobre o assunto e a opção de ver a data da publicação sem precisar clicar na mesma. Com o La Diaria não é diferente, no site não há nem uma barra de pesquisa para limitar os assuntos. 

Comparando com o G1, o portal de notícias mais acessado do Brasil, os sites apresentam diferenças consideráveis na hora da pesquisa. Neste portal brasileiro, há como pesquisar assunto, período de publicação e até saber a quantidade de artigos publicados sobre os temas de interesse do indivíduo. 

Para os leigos, não há necessidade de um filtro que direcione para a quantidade de matérias sobre futebol, contudo, a implementação dessa ferramenta de busca de datas facilita o processo jornalístico de busca e checagem. Se o próprio jornalista que escreve e apura as matérias publicadas precisa acessar sites visualmente confusos e com poucas opções de busca, a população deve se sentir ainda mais atrapalhada ao receber as informações do país desta forma. 

Onde estão os jornais locais do Uruguai? Talvez um dos problemas seja realmente a falta de bons sites de divulgação jornalística sobre os assuntos locais. A dificuldade de acessar o portal e usar filtro nas notícias faz com que o leitor leia aquilo que está exposto para ele, e em sua maioria não são notícias locais. Além disso, o segundo problema é que o jornalismo uruguaio tem se apoiado nos grandes nomes de fora para promover o jornalismo. O que eles não sabem é que essas duas coisas juntas fazem com que a essência do país se perca em meio a histórias de outros lugares. 

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