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Neymar é o camisa 10 que o Brasil idealiza

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
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Por que o nome do atacante está no centro da mídia e como o jornalismo deveria se portar. 

Raíssa Oliveira

Estava tudo normal e correndo conforme o previsto em um evento no Museu do Amanhã no Centro do Rio de Janeiro: roupas elegantes, convidados importantes, uma lista aguardada e pronta para ser anunciada pelo técnico Carlo Ancelotti. Os aplausos em curtos intervalos de tempo conforme os jogadores eram citados também estavam conforme o protocolo, mas um dos nomes ficou em evidência e mobilizou a audiência. O nome de Neymar Júnior exigiu um espaço de tempo maior para que o treinador italiano pudesse nomear o próximo jogador da sua lista de escolhidos, já que além de aplausos também ecoavam gritos de comemoração.

Enquanto o técnico tentava voltar ao anúncio da lista da Convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo, os mais de 600 profissionais da imprensa que cobriram o programa já mapeavam as perguntas para a coletiva de imprensa que se aproximava, muitas girando em torno da famigerada camisa 10 da canarinho. Entretanto, se diferenciando dos aplausos de quando o atacante foi anunciado, nem todas as perguntas sobre o tema eram agradáveis ou fáceis de responder, porque o assunto da convocação do atacante alcançou um patamar grande de polarização nos dias que antecederam o evento, seja na imprensa ou no público.   

Essa polarização é percebida nos comentários de postagens da convocação. Enquanto uns idolatram o Neymar e fazem declarações ao jogador, sonhando com o título mundial, outros se indignam com a escolha. Independente do lado em que o torcedor está, essa polarização acontece e o menino da Vila é colocado no centro midiático de uma forma ou outra. Mas por que a mídia está centralizada nesse tema e como o jornalismo está cobrindo esse assunto?    

Neymarketing: a publicidade em torno de um nome

Apesar de toda representatividade que o Neymar traz para a Seleção e para os brasileiros, atualmente ele não vive a sua melhor fase, fazendo com que muitos torcedores acreditem que a sua convocação não é correta. Isso fez com que muitas pessoas deduzissem que a presença de Neymar na convocação está para além do campo, é algo puramente midiático.

A mídia em torno do camisa 10 da canarinho é indiscutível, até porque há tempos que se for analisado somente o desempenho dentro de jogo não tem o que se noticiar. Ele não é mais aquele menino que desponta no topo do futebol mundial disputando com Cristiano Ronaldo e Messi e é carta descartada no principal time da atualidade, o PSG. Sendo assim, as notas giram ao redor de polêmicas, relacionamentos, falas mal ditas e publicidades, como sempre aconteceu, mas antes existia outros assuntos intra campo para sustentar essa midiatização. 

No Santos, por exemplo, o clube que está beirando a zona de rebaixamento do Brasileirão, apesar do baixo rendimento e frequência em campo, Neymar lotou estádios e repercutiu em camisas e ingressos para os caixas santistas. O clube lançou em 2025 uma camisa azul em homenagem ao jogador e esse modelo vendeu 70% a mais do que o tradicional em só cinco dias. O Santos também terminou o ano passado como o time com mais transmissões na TV aberta e a receita de sócio torcedor bateu 50 milhões de reais, acima do dobro do previsto.     

Mas até que ponto essa mídia atrapalha dentro de campo ou nas decisões dos treinadores? Antes da convocação, apenas o que se falava era que se não tivesse Neymar ninguém iria assistir a Copa do Mundo ou os próprios jogadores não ficariam satisfeitos com a escolha. Mas é justamente ao contrário: quando um jogador que carrega tanta mídia consigo e está em uma má fase, todos ficam pressionados a jogar a favor dele e ele não entrega resultado, sem contar que o fator Neymar impacta muito o vestiário, sendo negativa ou positivamente.  

“Vamos ao que importa… quanto o Neymar já ganhou em patrocínio desde a convocação?” foi um comentário deixado no Instagram da Seleção Brasileira ao divulgarem a convocação. E isso foi muito abordado nos noticiários nos dias que sucederam, já que Neymar celebrou a convocação com uma postagem de uma publicidade nas redes sociais. Além disso, muito antes de saber que seria convocado pelo Carlo Ancelotti, já havia gravado propagandas e fechado contratos. Fica para reflexão qual o verdadeiro interesse dele na seleção: dinheiro, fama ou representar a canarinho. E por que a mídia insiste em dar espaço e palco para ele? Porque existem pessoas que consomem, o brasileiro idolatra o Neymar desde seu moicano.    

Por que o brasileiro idolatra o Neymar

Por onde a gente passa é show fechou

E olha onde a gente chegou

Eu sou país do futebol negô

Até gringo sambou, tocou Neymar é gol 

— País do Futebol, MC Guime Part. Emicida 

Apesar de não falar somente sobre o Neymar, essa música foi escrita em homenagem a ele e a estrofe mencionada acima traz três percepções que podem ser observadas de um ponto de vista explicativo do porquê o atacante é amado e idolatrado no Brasil. Em primeiro lugar, é indispensável pontuar que o Brasil é percebido no mundo inteiro como país do futebol por diversos fatores. A Seleção Brasileira é a única a participar de todas as edições da Copa do Mundo da FIFA desde 1930 e acumula cinco conquistas mundiais, a maior quantidade entre todos os países. O que também sustenta essa reputação do Brasil no contexto do futebol é a formação dos jogadores que fizeram história mundialmente. 

Além de quem é vidrado em futebol sempre, há quem goste só do clima da Copa do Mundo. De acordo com a pesquisa realizada pela Adlook, 61% dos espectadores nacionais da Copa do Mundo acompanharão o campeonato de forma casual. Essa prática não é um problema necessariamente, mas deixa claro que as pessoas que não acompanham futebol e que não conhecem os atletas provavelmente têm um nome de referência: o Neymar. Essas pessoas saberão identificar apenas ele em campo e é um dos fatores da torcida ser grande, traz uma questão de pertencimento, de poder argumentar em um tema que todos estão comentando. 

Nesse ponto, se define que a idolatria ao Neymar vai bem além do que ele joga em campo, mas do que ele representa para a Seleção, e isso já desencadeia uma segunda percepção. O Neymar é uma referência, independente se apenas midiática. Quem acompanha somente os grandes campeonatos e entra no futebol apenas no clima de Copa do Mundo, tem boas recordações com o atleta e esse apego é suficiente para as pessoas leigas nesse esporte, porque entre o Neymar ou outro atleta, o que já é o caminho conhecido é mais confortável.      

Porém, além de pessoas leigas, existem muitos homens fanáticos por futebol que sabem da má fase do jogador e mesmo assim o apoiam, e isso inclui a terceira percepção da estrofe que menciona uma história de superação de alguém que veio de baixo para chegar ao topo. Com certeza você conhece um homem que só não foi jogador de futebol profissional porque machucou o joelho quando estava no auge do preparo físico ou não ganhou oportunidades. 

O storytelling do Neymar apresenta a história do menino que saiu da periferia de São Paulo para disputar a Champions League e levar a essência da brasilidade para o planeta, mesmo que isso possa ser representado às vezes somente com uma dancinha de comemoração ou com uma JBL estourando uma música de Funk. Ele representa o sonho de muitos que não conseguiram alcançar as mesmas conquistas e o apoiam cegamente por se espelharem nele. 

A cobertura centrada no Neymar

Apesar de ter sido analisado até aqui apenas sobre a midiatização do case Neymar, o texto já trouxe nuances de como o jornalismo vem atuando na cobertura dessa repercussão. Seja em perguntas direcionadas apenas ao tema sobre o jogador na coletiva de imprensa ou nas informações sobre os primeiros passos de Neymar desde a convocação, o jornalismo está presente, talvez bem mais do que deveria. Compreensível pensar que se as pessoas estão falando deve ser abordado e questionado pela imprensa, mas quase todas as perguntas da coletiva serem sobre esse assunto é uma atitude que pode ser justificada pelo jornalismo? 

A cobertura jornalística internacional também pesou em cima do nome do camisa 10. Além dos destaques sobre a convocação do Neymar estarem nas manchetes, como a notícia do jornal Marca, da Espanha, e L’Équipe, da França, uma repercussão negativa tomou conta da Inglaterra, com o destaque do jornal “The Guardian”. A manchete divulgou a decisão de Ancelotti como uma tentativa desesperada de ter seu Messi. Difícil argumentar contra fatos.  

O texto da coluna segue dizendo que “a escolha pelo Neymar é ou um grande ato de fé por parte de Carlo Ancelotti, ou uma aceitação, por parte do italiano, de que existem exigências políticas sobre a decisão do técnico da Seleção Brasileira das quais nem mesmo o treinador mais vitorioso da história da Champions League consegue escapar. Ancelotti acredita muito no talento, mas nada na forma de Neymar justifica essa convocação. Uma decisão baseada na esperança, e não na lógica”. Ou seja, a pressão midiática que já foi citada, em conjunto com a representatividade do jogador para o brasileiro, desenha essa perspectiva ao mundo. 

Exagero midiático que repercute na cobertura jornalística 

A partir da análise, a conclusão é que onde está o Neymar, está o foco midiático do futebol brasileiro. Parte dessa repercussão jornalística está correta porque se as pessoas buscam por informação, o jornalismo precisa suprir. No Google Trends, as três primeiras consultas mais frequentes sobre o Neymar são relacionadas à Copa do Mundo, interesse indiscutível. 

O aproveitamento midiático em cima dele entrega o que ele e a Confederação Brasileira de Futebol querem, mas o que o jornalismo ganha e busca com isso? As notícias jornalísticas em grande parte são sobre o Neymar e sempre se encontra uma pauta: se está disponível para o jogo, se será convocado, se tem condições físicas, se será cortado da lista, se será titular ou se será relacionado para o jogo. Nunca acaba. É o que as pessoas querem saber, mas até onde é informação ou aproveitamento midiático para ganhar lucro nas manchetes?     

E para quem quer o tão sonhado hexacampeonato da Seleção Brasileira, o fator Neymar vai ter que dar espaço na mídia para ser discutido o que realmente importa sobre outros atletas questionáveis na equipe, porque tendo em vista alguns nomes da seleção que ninguém fala porque não consideram importante como o camisa 10, a política do pão e circo se perpetua.   

No fim, o Neymar está indo para a Copa do Mundo mais pelo que representa, não pelo que apresenta em campo. E pelo que ele representa não só para os muitos brasileiros ufanistas, mas também para o lucro da mídia e da cobertura jornalística, que é bastante exacerbado.   

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