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A Copa do Mundo é para o mundo inteiro, menos os imigrantes

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
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Enquanto a FIFA fala em inclusão global, novas restrições migratórias deixam parte dos torcedores do lado de fora. 

Vefiola Shaka

O futebol adora contar histórias de superação. O Haiti se classificou para sua primeira Copa do Mundo desde 1974. Mais de cinquenta anos se passaram desde a última participação haitiana em um Mundial. Uma geração inteira nasceu, cresceu e envelheceu sem ver a seleção do país disputar o maior torneio do esporte. Para uma nação marcada por crises econômicas, desastres naturais, violência política e colapsos institucionais recorrentes, a classificação é muito mais do que uma conquista esportiva. É um daqueles raros acontecimentos capazes de atravessar gerações.

O mesmo vale para Senegal e Costa do Marfim. Duas seleções que carregam algumas das torcidas mais apaixonadas da África e representam países com grandes comunidades espalhadas pelo mundo. Milhões de pessoas vivem na França, nos Estados Unidos, no Canadá e em outros países europeus acompanhando suas seleções à distância. Para muitos desses torcedores, a Copa de 2026 seria a oportunidade mais acessível de acompanhar um Mundial presencialmente.

E existe o Irã. O país chega ao torneio em meio a um conflito armado e a uma das situações diplomáticas mais delicadas entre todas as seleções classificadas. Jogadores saem de um país em guerra para disputar uma Copa do Mundo justamente no país que ocupa posição central nesse conflito. Em circunstâncias normais, essa já seria uma das histórias mais importantes do torneio.

Mas a Copa de 2026 não acontece em circunstâncias normais. Das 104 partidas previstas para o Mundial, 78 serão disputadas nos Estados Unidos. Embora a competição seja oficialmente compartilhada entre Estados Unidos, México e Canadá, a realidade é que o torneio será majoritariamente americano. A final acontece em Nova Jersey. A estrutura logística, comercial e de segurança gira em torno dos Estados Unidos. 

E é justamente aí que começa uma das contradições mais interessantes da Copa. Em janeiro deste ano, novas restrições imigratórias americanas passaram a afetar cidadãos de diversos países. Entre os casos mais rígidos estão justamente Haiti e Irã, que enfrentam proibições amplas de entrada, além de Senegal e Costa do Marfim, incluídos em categorias de restrição parcial e sujeitos a exigências adicionais para obtenção de visto. 

Inclusive, o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, um dos principais nomes da arbitragem africana na atualidade, viveu uma situação muito (in)esperada recentemente. Após anos de preparação para atuar no principal torneio do futebol mundial, ele teve a entrada negada nos Estados Unidos e precisou retornar à Turquia. Mesmo resolvendo a situação, assim que chegou nos EUA foi barrado de entrar no país. Não houve nenhum pronunciamento pelas autoridades e nem pela própria FIFA. Houve apenas um direito humano violado.

A Copa do Mundo encontra a política migratória

A FIFA gosta de repetir um slogan simples: “Pelo jogo. Pelo mundo.” A frase aparece em campanhas institucionais, discursos oficiais e materiais promocionais. A mensagem é clara. O futebol seria uma linguagem universal capaz de unir pessoas de diferentes nacionalidades, culturas e religiões em torno de uma experiência compartilhada. O problema é que as fronteiras não funcionam dessa maneira. E nem o futebol. 

Para milhares de torcedores de países classificados para a Copa de 2026, o principal desafio não será comprar ingressos, reservar hotéis ou atravessar continentes. Será conseguir entrar nos Estados Unidos.

Além das restrições migratórias adotadas pelo governo americano, houve a ampliação de mecanismos de garantia financeira para determinados vistos temporários. Em alguns casos, o valor exigido pode chegar a 15 mil dólares. Para um executivo de uma multinacional, isso pode ser apenas burocracia. Para um torcedor comum de Dakar, Abidjan ou Porto Príncipe, pode representar a diferença entre assistir ao jogo no estádio ou pela televisão. E essa não é uma distinção pequena para um evento que se vende como a maior celebração global do esporte.

O caso iraniano

Nenhum país ilustra melhor essa situação do que o Irã. Durante meses, a participação iraniana esteve cercada por dúvidas relacionadas a vistos, deslocamentos e questões diplomáticas. A situação se tornou ainda mais delicada por causa do conflito em andamento envolvendo justamente os Estados Unidos, principal sede da competição.

A solução encontrada pela Federação Iraniana foi transferir sua base operacional para Tijuana, no México. Na prática, a seleção vai treinar no México, cruzar a fronteira para disputar partidas nos Estados Unidos e retornar ao México após os jogos. Os cálculos logísticos indicam que a operação é viável. Os dirigentes iranianos destacaram a proximidade de Tijuana com parte da estrutura necessária para a competição. Mas a logística não elimina a pergunta óbvia. Como chegamos ao ponto em que uma seleção disputa uma Copa do Mundo em um país onde prefere não estabelecer sua base principal?

A FIFA não parece considerar isso uma questão relevante. Os comunicados oficiais tratam o assunto como uma simples decisão operacional. O impacto físico de viajar antes de cada jogo, o impacto psicológico e simbólico dessa situação praticamente desaparece da comunicação institucional.

Uma seleção sai de um país em guerra, atravessa uma fronteira internacional para jogar e retorna para outro país ao final da partida. E isso é tratado como um detalhe administrativo.

O futebol nunca foi apolítico

Existe uma tradição antiga no futebol de fingir que política e esporte ocupam universos separados. A própria FIFA passou décadas defendendo a ideia de neutralidade. O problema é que a história das Copas do Mundo conta uma narrativa diferente. A edição de 1938 aconteceu enquanto a Europa caminhava para a Segunda Guerra Mundial. As Copas de 1942 e 1946 foram canceladas pela guerra. Em 1978, a Argentina utilizou o torneio como ferramenta de projeção internacional durante a ditadura militar. Em 2022, no Qatar, jogadores alemães cobriram a boca em protesto contra restrições impostas pela própria FIFA relacionadas à braçadeira One Love. O futebol nunca deixou de ser político, apenas escolhe quando reconhecer isso. Existe uma ironia interessante nessa discussão. Neste ano não houve manifestações, não houve nada discutido, apenas aceito silêncio. 

Durante décadas, uma das músicas mais associadas ao esporte e ironicamente foi a música tema da Copa do Mundo em 1990 nos EUA, “We Are the Champions“, composta por Freddie Mercury. A canção fala sobre resistência, obstáculos e recompensa, e isso tem tudo a ver com o futebol. Como diz a música: “Eu paguei minhas dívidas, vez após vez. Cumpri minha sentença, mas não cometi crime algum.”

Não por acaso, tornou-se um hino esportivo, a frase resume uma das contradições da Copa de 2026. Algumas das seleções classificadas representam justamente países cujos torcedores enfrentam obstáculos extras para participar da celebração. Depois de décadas de espera, depois de campanhas eliminatórias inteiras, depois da classificação finalmente conquistada, a barreira mais difícil não é esportiva. É migratória.

Onde está a discussão?

Talvez o aspecto mais curioso de toda essa história seja a forma como ela aparece na cobertura. A maior parte das discussões sobre a Copa de 2026 gira em torno de estádios, infraestrutura, venda de ingressos, patrocínios, transmissões e expectativas esportivas. Tudo isso é relevante. Mas existe uma questão menos confortável que recebe muito menos atenção.

O ICE, agência responsável pela fiscalização migratória e controle de fronteiras dos Estados Unidos, confirmou participação nas operações de segurança relacionadas ao torneio. Aeroportos continuam operando sob os mesmos protocolos de fiscalização. Sistemas de controle migratório permanecem ativos. As regras não desaparecem porque existe uma Copa do Mundo acontecendo. 

Gianni Infantino, o presidente da FIFA, chegou a discutir com Donald Trump a possibilidade de flexibilizações temporárias durante o período da competição. O presidente prometeu que essa seria a melhor Copa do Mundo de todos os tempos. A simples existência dessa conversa já revela o tamanho do problema. 

A fronteira dentro da Copa (ou do futebol) 

O futebol não criou as políticas migratórias americanas. Elas existiriam com ou sem Copa do Mundo. A responsabilidade por essas medidas não é da FIFA. Mas o torneio coloca essas políticas sob uma vitrine internacional impossível de ignorar. O Haiti retorna a uma Copa depois de mais de cinquenta anos. O Irã chega em meio a um conflito armado. Senegal e Costa do Marfim representam milhões de torcedores espalhados pelo mundo. Nenhuma dessas histórias acontece fora da Copa do Mundo.

O futebol não era pra ser político. Ele tenta, com sinceridade, não ser. Mas quando o país-sede decide quem pode atravessar sua fronteira baseado em origem nacional, quando um time joga num país mas dorme em outro porque não tem segurança garantida, quando torcedores que acompanharam sua seleção por anos não podem estar presentes no momento mais importante, o futebol não tem como fingir que isso não acontece dentro dele, todas as vezes. A bola rola. O mundo assiste. E alguns ficam do lado de fora do muro.

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