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O pop sempre tem um lugar nos grandes shows

  • 10 de setembro de 2026
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Enquanto a indústria musical festeja o sucesso global de megashows, alguns gêneros continuam fora do line-up dos palcos mais famosos do mundo. 

Vefiola Shaka

O intervalo do Super Bowl, que dura pouco mais de dez minutos, geralmente provoca meses de discussão. O mesmo se aplica aos shows da FIFA e a eventos políticos que reúnem multidões. Cada megaevento é uma representação da música que o público aprecia, um reflexo do que está fazendo sucesso. No entanto, esse reflexo é cuidadosamente selecionado. O que fica de fora revela bastante sobre a indústria, mais do que o que é exibido.

As escolhas de artistas para esses shows não se baseia na qualidade musical, mas no número de espectadores que podem atrair e nas marcas dispostas a investir nessa audiência. O halftime show da NFL se tornou um dos ativos publicitários mais valiosos do mundo, e ativos caros não correm riscos. 

Dados da Statista sobre consumo musical digital explicam a dinâmica. Nos Estados Unidos, a pesquisa realizada em 2022 revelou que os gêneros preferidos do público são: Rock/Alternativo/Indie (42%), Pop/Contemporâneo (36%), Country (35%), Hip Hop/R&B (33%), Clássica (26%), Dance/EDM (23%), Jazz/Blues (18%) e Folk (13%). Essa diversidade é bem mais ampla do que qualquer line-up sugere, com o rock ainda liderando e o country muito próximo do pop. Esses dados são relevantes nesse tipo de pesquisa porque o país norte americano quase sempre é usado como referência. 

Quando olhamos para um cenário global, a fragmentação se dissolve. O Pop/Contemporâneo sobe para 64%, o Rock/Alternativo/Indie atinge 57% e o Dance/EDM chega a 32%. Nesse contexto internacional, o pop se torna a escolha “segura”, já que é o único gênero que não precisa de tradução cultural para ser reconhecido em qualquer lugar. Rock, country, jazz, sertanejo, todos exigem um contexto que o pop simplesmente não pede.

Os dados no Brasil também são cruciais para entender a contradição dos grandes shows. O Globo junto com Quaest divulgaram neste ano dados sobre os gêneros mais ouvidos do país. O sertanejo é disparado como o mais ouvido pelos brasileiros com 26%. Em segundo lugar aparece a música religiosa/gospel, com 16%, seguida por forró, samba/pagode e MPB. 

Vocês têm visto algum cantor desses estilos musicais em show de abertura ou algo do tipo? Nesse último ano “houve palco” para a Ana Castela, Alcione e o Péricles cantarem o hino do Brasil em jogos da NFL e Copa do Mundo.

O pop nunca foi questionado

A mudança de cenário não aconteceu por acaso. Nos anos 1990, o intervalo do Super Bowl ainda apresentava bandas de marchinha e números temáticos, sem relação com o que dominava as paradas. A transformação aconteceu quando a liga percebeu que o intervalo poderia ser tão valioso quanto o próprio jogo. A partir desse momento, o foco deixou de ser “quem representa o evento” para “quem já está em alta nas plataformas de streaming, no rádio e nas redes sociais”. 

A mudança também aparece na própria indústria. Gêneros como rock e country continuam populares mas perderam o seu palco para outros artistas que dominam o pop, como Beyoncé, The Weeknd e Taylor Swift, que conseguem alcançar vários públicos. Existe uma mistura dos estilos musicais, desses mesmos cantores, colaborações e até músicas que não combinam com o próprio perfil, mas o pop continua sendo a porta de entrada para eventos de alcance global. 

E como resultado, a transformação não foi um mero acidente de gosto. É uma manipulação da audiência, construída ao longo de mais de uma década, focada em atingir o maior público possível, em vez de refletir as preferências reais das pessoas.

Palco errado, nunca

Essa mesma curadoria aparece também fora do circuito comercial, mas de maneira inversa. Nos atos do Dia do Trabalhador em São Paulo deste ano, artistas como Gloria Groove, Filho do Piseiro e MC IG se apresentaram em torno de questões como a redução da jornada de trabalho e o combate à violência contra a mulher. Aqui, o objetivo não é alcançar o maior número de pessoas, mas reforçar a mensagem para quem já compartilha a causa. Na manifestação, a trilha sonora tem uma função discursiva, e o artista escolhido carrega a mensagem que os organizadores desejam destacar. 

O sertanejo é um exemplo claro dessa engenharia. Dominando streaming e rádio no Brasil, o gênero ainda é excluído de palcos de eventos como Rock in Rio, The Town e Lollapalooza, ou em aberturas de jogos importantes. O que incomoda é que artistas de outros gêneros se apresentam tranquilamente em festivais sertanejos, como Shakira, A-ha e Mariah Carey na Festa do Peão de Barretos. O inverso nunca acontece.

No Rock in Rio de 2024, os metaleiros esperavam escutar AC/DC enquanto quem realmente iria cantar seria o Luan Santana. Os organizadores do festival revelaram no dia 29 de setembro, que o dia seria dedicado aos ritmos brasileiros e não teria headliner na programação. A grande novidade trouxe comentários negativos e cancelamentos, principalmente pela ideia de “gastar o dinheiro” por cantores de sertanejo e não por cantores com fama mundial que raramente vem ao Brasil.

Os organizadores de festivais de pop-rock justificam a ausência do sertanejo com a ideia de “coerência de curadoria”. Em declarações à imprensa, afirmam não ter nada contra o gênero, mas veem a exclusão como uma forma de “sentir o público” e manter a identidade do evento. O funk, que também foi barrado por anos, acabou sendo incluído. A diferença parece estar mais no status do que no som: empresários do setor associam a resistência ao sertanejo a um estigma de “caipira e popular demais”, temendo que a mistura de públicos possa diluir a identidade do evento.

Curiosamente, o mercado sertanejo funciona de maneira oposta. Seus promotores costumam abrir espaço para eletrônica, pop e funk, pois consideram seu público eclético e receptivo a outros estilos. Contudo, a porta giratória só se move em uma direção, e não é o sertanejo quem a fecha.

Tudo sobre pertencimento

Se reunirmos Super Bowl, eventos da FIFA e atos políticos, o padrão se repete com pequenas variações. Quanto maior o evento e mais internacional for a audiência, mais o repertório se volta para um pop de baixo atrito cultural, com uma pitada de gêneros regionais, como o samba em hinos, que serve como um toque de identidade local, mas sem protagonismo. Em eventos menores, como manifestações ou festivais de nicho, o gênero volta a ser uma questão de pertencimento, não de alcance massivo.

A reflexão que fica não é se existe critério por trás do line-up. É o critério que cada vez mais aliado a dados de streaming e alcance internacional, ainda abre espaço para a música que as pessoas realmente ouvem, ou se apenas otimiza o megashow para o denominador comum mais seguro e chama isso de celebração global.

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