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Peru, o país que só diz o que convém

  • 20 de maio de 2026
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  • Theillyson Lima
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Como um único grupo controla o jornalismo que 33 milhões de peruanos lêem, vêem e acreditam.

Luisa Oliveira

Ao observar todo o jornalismo brasileiro e latino-americano é possível se questionar, por que tanta diferença? O mais impressionante de tudo é como Peru tem tantas características únicas positivas e negativas. Existe uma história tão longa para ele ser assim, único em sua forma de retratar os acontecimentos nacionais, internacionais e a perspectiva que tem do Brasil de forma escrita e audiovisual. 

Imagine que, em todo um país, quase 80% do que você lê nos jornais, vê na TV ou acessa na internet é controlado por um único grupo. No Peru, isso não é ficção é a realidade do Grupo El Comercio. Fundado em 1839, e pertencente à família Miró Quesada, esse conglomerado não apenas detém o jornal mais antigo e famoso do país, mas também controla a América Televisión, o Canal N e dezenas de outros veículos. Ou seja, o jornalismo que deveria mostrar toda a realidade e a verdade, deixa nítido apenas o que convém a eles.

Essa concentração criou o que estudiosos chamam de monopólio da narrativa. Quando a diversidade de opiniões é engolida por interesses corporativos, a própria democracia fica sob risco. A imprensa, que deveria ser o espelho da sociedade, transforma-se em um espelho deformado, que reflete apenas os interesses de quem o detém.

Os dados são preocupantes, segundo o Barómetro da Confiança, entre 2012 e 2021, a confiança dos peruanos nos meios de comunicação tradicionais caiu de forma expressiva, o que antes era 71% agora se trata de somente 30% de toda a população nacional acreditar naquilo que seus comunicadores retratam. Isso significa que o cidadão comum começou a perceber que por trás das manchetes aparentemente neutras, existem linhas editoriais que desvalorizam e ocultam protestos, criminalizam movimentos sociais e reforçam a situação atual.

Protestos e a arte da deslegitimação

Em dezembro de 2022, quando o Peru mergulhou em uma onda de manifestações após a deposição de Pedro Castillo, a mídia entrou em ação. Os protestos, que tinham raízes profundas em questões históricas de marginalização e desigualdade socioeconômica especialmente no sul do país, foram sistematicamente enquadrados como “ameaças à ordem pública”.

Termos como “vândalos”, “terroristas” e “infiltrados” surgiram nas manchetes com uma frequência que não poderia ser coincidência. A análise de conteúdo revela um padrão claro, a demonização dos participantes das manifestações, associando-os a práticas violentas ou a “ações externas” que supostamente desestabilizaram o país.

Essa estratégia editorial não é aleatória. Ela serve para preservar uma imagem de estabilidade política, necessária para os interesses econômicos das elites. Ao mesmo tempo, veículos como RPP.ez que mantêm uma linha editorial alinhada a esses interesses optam por uma cobertura mais “neutralizada”, criando a ilusão de equilíbrio.

O Brasil no jornal peruano

Enquanto os conflitos internos dominam as primeiras páginas, o Brasil ocupa um espaço curioso na imprensa peruana. Ele é visto como um país vizinho, potência regional, parceiro comercial, o Brasil é retratado com uma complexidade que revela muito sobre as relações bilaterais.

Nas editorias de política, figuras como Lula e Bolsonaro são acompanhadas de perto, especialmente em períodos eleitorais. O escândalo da Odebrecht, que teve ramificações devastadoras para a política peruana, foi amplamente coberto. A Amazônia compartilhada entre os dois países é tema constante, gerando debates sobre questões ambientais e soberania.

O caso Odebrecht é talvez o exemplo mais concreto de como o Brasil é enquadrado editorialmente no Peru. O El Comercio mapeou toda a rede empresarial da construtora no país, que envolveu mais de 800 pessoas, a maioria ex-funcionários públicos. Mais recentemente, quando o Brasil suspendeu a cooperação jurídica com o Peru nos casos Lava Jato, o mesmo jornal cobriu o episódio como uma ameaça ao andamento da Justiça peruana  colocando o Brasil numa posição ambígua ao mesmo tempo origem das provas e obstáculo ao processo. 

A cobertura política segue padrão semelhante. O El Comercio republica majoritariamente material da agência EFE sobre o Brasil, sem correspondentes próprios, o que significa que sua “linha editorial” sobre o país vizinho se expressa sobretudo na escolha de quais reportagens destacar. Em coberturas do julgamento de Bolsonaro, por exemplo, o jornal publicou declarações do ex-presidente sem contraponto imediato, tendência que espelha as afinidades conservadoras do Grupo El Comercio. O Brasil aparece, assim, ora como o país da corrupção petista, ora como parceiro estratégico amazônico, sempre como espelho das disputas internas da imprensa peruana, mais do que como sujeito com realidade própria. 

É incrível observar que a representação do Brasil varia conforme o veículo. Jornais com linhas editoriais mais conservadoras tendem a enfatizar o papel do Brasil como potência regional, enquanto outros focam mais nas crises políticas e nas tendências autoritárias observadas na região. Essa dualidade reflete a complexidade das relações bilaterais e das influências mútuas na comunicação política latino-americana.

Google Discover 

Se o monopólio midiático representa o passado, o Google Discover simboliza o futuro e os desafios do jornalismo peruano. Com a expansão da internet, a forma como as notícias são distribuídas e consumidas mudou drasticamente. O Discover se tornou uma das principais fontes de tráfego para portais de notícias no país.

A análise do portal RPP.pe revela padrões fascinantes. Conteúdos de formato médio, com entre 11 e 17 linhas, são os que melhor performam. Os gêneros mais eficientes para atrair tráfego são as notícias e o entretenimento, enquanto matérias de opinião e crônicas têm um desempenho inferior.

Essa realidade cria um dilema, a necessidade de otimização para plataformas digitais impõe a elaboração de conteúdos padronizados, com ênfase em métricas de desempenho. O que ganha em clicks, pode perder em profundidade jornalística. A luta pela atenção do leitor, mediada por algoritmos, ameaça transformar o jornalismo em uma corrida por engajamento rápido, em detrimento da qualidade e da investigação.

O futuro da imprensa peruana

Apesar de todos os desafios, o jornalismo peruano demonstra um lado positivo. Organizações como a IDL-Reporteros, liderada por Gustavo Gorriti, produzem jornalismo investigativo de alta qualidade, denunciando escândalos de corrupção e responsabilizando o poder. O Peru é famoso nesse tipo de jornalismo, os casos Lava Jato, Los Dinámicos del Centro e outros já investigados revelam uma imprensa com grande potencial que pode ser usado para o bem. 

A tendência futura aponta para uma maior diversificação dos canais digitais. Plataformas independentes e regionais começam a ganhar relevância, oferecendo vozes alternativas ao monopólio. Paralelamente, a pressão da população por uma abordagem mais ética e plural na cobertura política incentiva a adoção de metodologias que ampliem a transparência editorial.

No entanto, o caminho é longo. O Peru ocupa a 144ª posição no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa de 2026, uma queda de 67 posições desde 2022. Jornalistas enfrentam assédio judicial e processos criminais,por exemplo, a jornalista Mabel Cáceres acumula 16 processos movidos em razão de seu trabalho. 

Todos os dias esses profissionais da verdade sofrem com o medo da morte, considerando que no último ano quatro profissionais foram assassinados por fazerem corretamente seu trabalho. Gastón Sotomayor morto após relatar um caso de corrupção local, Raúl López radialista morto por relatar crimes ambientais na Amazônia, Fernando Nuñez e Mitzar Castillejos foram assassinados no mesmo mês, dezembro de 2025. 

Diante disso, o jornalismo peruano contemporâneo é marcado por uma forte concentração de poder midiático, desafios significativos em termos de confiança do público e a necessidade de adaptação às dinâmicas digitais. Grandes grupos, como o Grupo El Comercio, dominam a imprensa, impactando tanto a diversidade quanto a profundidade das coberturas jornalísticas. A cobertura dos protestos e crises é muitas vezes moldada por dispositivos de deslegitimação, que visam preservar os interesses das elites econômicas.

A representação do Brasil, embora variável, reflete a importância do país como ator regional.  A adaptação digital evidencia a importância das estratégias de SEO e do uso otimizado de conteúdos para atrair novos públicos.

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