
Tradwife e a imagem de bela, recatada e do lar
- 2 de abril de 2025
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- Theillyson Lima
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Esposas tradicionais, conhecidas como tradwife, crescem nas redes sociais e levantam debate sobre conservadorismo.
Raíssa Oliveira
Uma carreira promissora deixada de lado para se dedicar integralmente à casa, ao marido e aos oito filhos, vivendo de forma tradicional e caseira. Essa é a realidade da vida de Hannah Neeleman, popularmente conhecida como Ballerina Farm, que compartilha a sua rotina nas redes sociais, inspirando ou até indignando milhares de seguidores pelo estilo conservador. A vida que ela e outras influenciadoras desse nicho apresentam, tem conquistado mulheres e gerado amplos debates sobre maternidade, trabalho e os papéis femininos na sociedade.
Nem dona de casa, muito menos esposa troféu
O termo tradwife nada mais é do que um jeito americano de chamar as esposas tradicionais inspiradas no modelo da dona de casa das capas de revista americana dos anos de 1950. Donas de casa sofisticadas, com o cabelo impecavelmente arrumado e maquiagem perfeita. Além de ser mais do que uma simples cuidadora da casa, o significado do termo também se difere do que é conhecido nas redes sociais por esposa troféu, já que as tradwives ocupam as suas rotinas cuidando da casa, ao invés de delegar essas atividades e marcar horário no pilates ou cabeleireiro. Entretanto, pelas postagens nas redes sociais, parece que acabaram de sair direto de um tratamento de beleza, diferentemente das donas de casa comuns.
Fazem todas as atividades necessárias para cuidar da casa, cuidam sozinhas dos filhos, se preocupam com a saúde da família e em fazer as comidas de modo natural, com o mínimo de industrializados possível. Ao final do dia, além de estarem com os filhos arrumados, janta fresquinha e cozinha brilhando, parece que ainda poderiam desfilar em um tapete vermelho para receberem os maridos que estavam trabalhando fora para sustento financeiro da casa.
Ballerina Farm
Hannah é uma bailarina formada na Universidade de Juilliard, uma das faculdades de Artes mais conceituadas dos Estados Unidos, que guardou o diploma na gaveta após engravidar do primeiro filho. Ela mora em uma fazenda em Utah, nos Estados Unidos, com seu marido Daniel Neeleman, herdeiro do fundador das companhias aéreas JetBlue Airways, Morris Air, WestJet e Azul Linhas Aéreas e compartilha nas redes sociais sua rotina ao lado do marido e dos oito filhos do casal, com postagens sobre maternidade, receitas preparadas do zero e o seu dia a dia no campo, incluindo a ordenha das vacas para produzir a própria manteiga.
Ela também participa de concursos de beleza e desfilou no Mrs. World duas semanas após o nascimento do seu oitavo filho, em que o parto ocorreu em casa, sem nenhum anestésico, em conformidade com os princípios da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Segundo dados da Public Broadcasting Service, existem cerca de 13 milhões de mórmons no mundo e a grande maioria deles vive no estado de Utah, sendo mais conservadores do que aqueles que vivem em outros locais dos Estados Unidos. A valorização da família é um dos grandes pilares dessa religião e isso é refletido na grande média de filhos que mulheres mórmons possuem, com a taxa de fecundidade 50% maior do que a taxa nacional dos EUA.
Hannah e Daniel Neeleman se envolveram em polêmicas após concederem uma entrevista ao jornal The Times. O texto levantou debates se esse seria realmente o sonho de Hannah ou se ela estava sendo oprimida e vítima de um sistema patriarcal, além de questionar se o que ela publica nas redes sociais é realmente o que a família vive.
Bastidores de uma vida perfeita
A Ballerina Farm tem muitos motivos para seguir esse estilo de vida, talvez por querer trilhar o mesmo caminho de sua mãe ou pela fé que ilumina seus olhos e dá propósito à sua vida, ela está longe de ser uma vítima das circunstâncias. As escolhas que ela tomou podem ser mais valiosas para Hannah do que perseguir um sonho considerado ideal pela sociedade, apenas para ser uma mulher empoderada aos olhos de um mundo que vive do lado de fora das porteiras da sua fazenda. É inegável que ao escolher essa vida ela deixou uma parte de si mesma, mas em contrapartida, conquistou outras que a enchem de orgulho e felicidade.
Independente das suas escolhas pessoais, o seu posicionamento nas redes ainda desperta questionamentos e estranhamento. Às vezes é realmente melhor romantizar a vida para ela parecer mais fácil, mas com certeza seria mais fácil ainda sem a necessidade de posar para uma câmera o tempo inteiro. O trabalho que ela executa com um sorriso no rosto, um bebê no colo e seus filhos maiores em volta, certamente envolve muitos cortes e uma boa equipe.
Caso essa afirmativa esteja equivocada, ela vive uma realidade inacessível para a grande maioria das pessoas, mas mesmo assim muitas se inspiram nela. Essa vida funciona para ela e que bom que ela pode se dar esse luxo, mas se ela pensa que qualquer mulher pode ter um bilionário ou uma fazenda nos Estados Unidos para chamar de seus, está enganada.
Luiza Maciel
Além da perspectiva americana, as brasileiras também aderiram a esse estilo de vida. Luiza Maciel é gaúcha e compartilha o conceito de feminilidade através da sua rotina, tema muito explorado atualmente nas redes sociais, com conteúdos sobre família, mostrando o preparo dos alimentos, cuidados que possui com o filho de um ano e a dinâmica do seu casamento. Com o marido que trabalha de madrugada e é o provedor financeiro da casa, ela ajusta sua rotina para acompanhar os horários dele e esse é o seu principal conteúdo nas plataformas.
Em um vídeo que publicou no TikTok recentemente, Luiza respondeu às críticas sobre a sua forma de viver, negando ser uma esposa troféu e questionando se a vida em uma dinâmica desequilibrada no relacionamento realmente é o sonho das mulheres. Ela admitiu que o seu marido é o provedor financeiro da casa, esclarecendo que essa escolha foi decidida antes do casamento e que ele também participa das tarefas domésticas, reiterando que o homem provedor vai além apenas do suporte financeiro.
Além dos esclarecimentos sobre seu estilo de vida, ela destacou que o seu conteúdo reflete fielmente sua vida, alertando a sua audiência sobre influenciadoras que romantizam rotinas nas redes sociais e iludem as suas seguidoras com uma vida inexistente, além de pedir pelo consumo consciente dos conteúdos digitais, lembrando que tudo que é absorvido influencia o subconsciente e pode gerar comparativos irreais.
Tudo o que é apresentado na internet escapa da realidade literal, porque é relatado apenas as coisas instagramáveis da rotina, de maneira filtrada. Independentemente se as mulheres tradicionais conseguem administrar as vidas invejáveis que esbanjam e tanta produtividade, os holofotes da mídia trazem um brilho exacerbado à verdade, ainda mais quando vista pela perspectiva de um público externo ao seu convívio e que possuem uma realidade diferente.
A vida independente também é romantizada
Acordar quatro horas da madrugada, trabalhar oito horas diárias em um emprego que custa no mínimo duas no trânsito e dar conta da vida financeira, social, emocional e física também é romantizado nas redes sociais e existe uma grande problemática envolvida nessa utopia. Os ideais que as pessoas transmitem nas redes sociais quando compartilham suas rotinas perfeitas e lotadas de compromissos, custam a saúde em troca de uma vida para sobreviver ao invés de aproveitar plenamente. Custa caro para quem prefere a vida sossegada e preza pela saúde e estabilidade, mas é bem mais em conta para aqueles que escolhem liberdade e independência sem pensar duas vezes.
Fazer um bolinho de fubá às quatro horas da tarde de uma segunda parece uma alternativa tentadora para quando tudo está desmoronando na vida profissional ou acadêmica, mas por mais escondidos que eles estejam, problemas existem até para quem é perfeito nas redes, ainda que sejam diferentes. Nesses momentos, a estabilidade financeira pode parecer ser a melhor alternativa e talvez realmente seja, se é isso que a pessoa busca como prioridade.
Entretanto, é sempre importante lembrar que quanto mais segurança, menos liberdade, e a partir desse pressuposto analisar o que cada um está disposto, porque a gangorra precisa pender para um dos lados, quanto mais de uma, menos da outra.
O perigo da influência das redes sociais
Claro que existem perigos nas plataformas digitais, o costume eram trends que pregavam discursos estéticos e agora essa conversa evoluiu para um debate comportamental. A vida delas é uma escolha pessoal, mas as pessoas podem taxar como regra, tanto mulheres que sonham com uma vida mais fácil ou com um romance de época dos sonhos, quanto para os homens que idealizam mulheres perfeitas conforme o que é publicado.
A vida de Luiza Maciel acaba sendo mais próxima da realidade de pessoas comuns do que a vida da Ballerina Farm. Um conteúdo orgânico e sem perder a beleza do tradicionalismo, mas com problemas reais de pessoas reais, talvez longe do real de Hannah, mas real para a grande maioria das pessoas que se influenciam por essas mulheres.