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Todo Mundo no Rio

Todo mundo no Circo

  • 10 de setembro de 2026
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  • UCB - UNASP-EC - Victor Henrique Bernardo
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Mega Shows realizados no Rio de Janeiro alavancaram a carreira política de Eduardo Paes e distraíram a população dos problemas sociais da cidade carioca.

Príscilla Melo

As atividades de lazer na sociedade do antigo Império Romano, eram patrocinadas pela política do Panem et Circenses (Pão e Circo). O principal objetivo da estratégia política era apaziguar e distrair a população, por meio da promoção de grandes eventos artísticos, esportivos e banquetes, todos públicos e gratuitos. Essa estratégia buscava evitar que os cidadãos, principalmente a plebe, se opusessem politicamente contra o regime vigente na época, além de também servir para aumentar a popularidade dos líderes romanos.

Ouvi uma vez que é muito fácil interpretar um ocorrido histórico depois que ele já aconteceu, o difícil é perceber o curso da história enquanto ela ainda está acontecendo. Eu acredito nisso. Mas para a plebe, a classe mais inferior do Império Romano, composta por trabalhadores e camponeses que representavam a maioria da população, os teatros, os gladiadores, as corridas, os banquetes e a distribuição de pão e trigo, eram nada mais do que um presente generoso de Roma. 

Seria possível usar o Panem et Circenses como forma de manipulação política ainda hoje?

Todo Mundo no Rio

O projeto Todo Mundo no Rio é uma série de mega shows gratuitos promovidos pela prefeitura do Rio de Janeiro, na praia de Copacabana. Produzido pela Bonus Track, o evento que conta com o patrocínio da Corona, viabiliza grandes shows de artistas internacionais, movimentando assim a economia da cidade, no primeiro fim de semana de maio. O evento, que começou sendo chamado de ‘‘Celebration May’’, teve seu primeiro grande show em 4 de maio de 2024, com a presença da cantora pop Madonna e consagrou o Rio como circuito dos maiores shows de todos os tempos.

Madonna, o primeiro grande espetáculo

A primeira edição do Todo Mundo no Rio, foi um grande sucesso, contando com cerca de 1,6 milhões de pessoas nas areias de Copacabana, sendo dentre esses 150 mil turistas nacionais e internacionais. Em cima do palco de 812 metros quadrados, 24 metros de largura e 18 metros de comprimento, Madonna levou a 81ª edição do ‘‘The Celebration Tour’’ para a orla do Rio, em comemoração aos seus 40 anos de carreira.

A apresentação foi transmitida ao vivo pela TV Globo, que faturou cerca de R$50 milhões com a transmissão do show, ao vender três cotas de patrocínio, cada uma por aproximadamente R$17 milhões. Os três patrocinadores compradores de cotas foram o banco Itaú, a Nivea e a Heineken.

De graça para quem?

Ao todo, cerca de R$60 milhões foram investidos na edição de 2024 do Todo Mundo no Rio. A Prefeitura do Rio de Janeiro investiu R$10 milhões, assim como o estado do Rio de Janeiro, que também investiu o mesmo valor. Os outros R$40 milhões ficaram por conta dos patrocinadores Itaú e Heineken. Dentro deste valor, R$1,6 milhão foi dedicado à estrutura do palco, R$1,5 milhão a estrutura de áudio, R$580 mil à segurança do show e R$796 mil à divulgação do evento. A cantora lucrou em torno de R$17 milhões, aproximadamente US$3,3 milhões. 

De acordo com a prefeitura, o mega show movimentou mais de R$300 milhões na economia da cidade, superando o valor estimado anteriormente pela prefeitura, que era de R$293,4 milhões.

Gagacabana, o maior público

O segundo mega show na orla do Rio em maio de 2025, trouxe Lady Gaga a cidade maravilhosa e com ela 2,1 milhões de pessoas, superando o público de Madonna no ano anterior. A apresentação entrou para o livro dos recordes como a maior plateia em um show gratuito de uma artista feminina da história. O evento foi apelidado carinhosamente pelos fãs de ‘‘Gagacabana’’. 

O espetáculo, que começou com Abracadabra, teve quase o dobro do investimento da edição anterior. O custo total chegou a R$92 milhões, dentro deste valor, o estado e a prefeitura dividiram a conta de R$30 milhões igualmente, os outros R$62 milhões restantes  ficaram por conta dos patrocinadores.

A loba está no Rio

Já em maio de 2026, a cidade recebeu Shakira com ‘‘Waka Waka’’, ‘‘Hips Don’t Lie’’ e muitos outros hits. A cantora colombiana atraiu 2 milhões de pessoas para as areias de Copacabana, número um pouco menor que o de Lady Gaga, mas maior que o de Madonna. A apresentação teve a participação especial de brasileiros como Anitta, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Ivete Sangalo, além de um show de drones no céu do cartão-postal mundial, em homenagem à cantora. O comércio local não perdeu tempo e produziu camisetas, leques e vários outros itens com o slogan ‘‘lobacabana’’, em cores verde e amarelo. A prefeitura investiu R$15 milhões, mesmo valor destinado à apresentação de Lady Gaga, no ano anterior.

Nem todos estão seguros

Apesar de toda a euforia das apresentações do Todo Mundo no Rio e do investimento em segurança, boletins de ocorrência foram preenchidos. Durante o show de Shakira, 115 ocorrências foram registradas, uma queda de 52% em relação a apresentação de Lady Gaga no ano anterior que contou com 238 registros. A performance de Madonna em 2024 foi a maior em número de delitos, com 252 ocorrências registradas. Na última edição, houve 66 registros de furto, 6 pessoas detidas, 6 tabletes de maconha recolhidos, 185 objetos perfurocortantes apreendidos, entre outros delitos.

Todo mundo está falando

É difícil que um grande evento com palco gigante, luzes, drones e estrelas do pop, como o Todo Mundo no Rio, passe despercebido. Muitas manchetes foram dedicadas ao evento nos jornais nacionais e internacionais. O jornal argentino La Nación, descreveu no  título: ‘‘Shakira en Copacabana: un show multitudinario con grandes éxitos, invitados especiales y alegría brasileña’’, em um texto super detalhado com 27 parágrafos sobre o festival. O jornal colombiano El Heraldo, sediado em Barranquilla, cidade natal de Shakira, dedicou mais de dez matérias à cobertura da edição deste ano do Todo Mundo no Rio e disse na época que ‘‘Copacabana se renderá ao fenômeno de Shakira’’. 

O jornal britânico The Guardian, descreveu o show de Lady Gaga em 2025 como ‘‘um momento de alegria absoluta para os fãs brasileiros’’. A BBC do Reino Unido, destacou a performance de Gaga como a responsável por criar uma ‘‘atmosfera eletrizante’’ em Copacabana. O portal alemão Deutsche Welle, enfatizou a magnitude da estrutura do espetáculo e o financiamento feito pela prefeitura, além de afirmar que o show foi o maior da carreira de Lady Gaga.

O dono do circo

O carioca Eduardo Paes, formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, iniciou sua carreira política aos 23 anos. Ele se elegeu como prefeito do Rio de Janeiro em 2009 e teve seu primeiro mandato até 2012. No ano seguinte foi reeleito e teve seu segundo mandato de 2013 a 2016. Em 2020, venceu novamente as eleições, tendo seu terceiro mandato entre 2021 e 2024. Reeleito no primeiro turno das eleições de 2024, pelo PSD, tomou posse no dia 1 de janeiro de 2025, mas desta vez, acabou renunciando ao cargo em 20 de março de 2026, com a intenção de concorrer ao governo do Rio de Janeiro, em outubro deste ano. Seu cargo na prefeitura foi ocupado pelo seu vice Eduardo Cavaliere.

Eduardo Paes é conhecido pelos cidadãos cariocas como o idealizador e promotor do Todo Mundo no Rio, que nasceu durante seu mandato. Em coletiva de imprensa no fim de 2024, o ex-prefeito garantiu que os mega-shows estão confirmados até 2028. O agora candidato a governador, se tornou ao longo dos anos uma das figuras políticas mais populares do estado do Rio de Janeiro, chegando a acumular um milhão de seguidores em sua conta no Instagram. 

O que está por trás do palco

A cidade do Rio de Janeiro ocupa a 12º posição no ranking das capitais brasileiras mais seguras, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao ano de 2025. Ao andar pelas ruas da cidade carioca, depois de suceder Paes, Eduardo Cavaliere, se deparou com uma população cheia de perguntas, mas é interessante notar que nenhuma delas foram sobre novos projetos de educação, saúde e segurança, mas sobre quem será a próxima diva pop do Todo Mundo no Rio em 2027. Parece haver alguma semelhança entre os cidadãos cariocas e a população do antigo Império romano. 

A pergunta que fica no ar é, porque fazer mega shows na orla do Rio? Qual é a motivação por trás disso? Se a resposta for apenas movimentar a economia, será que não existem outras formas de fazer isso? Somente no primeiro semestre de 2026, o turismo movimentou R$17,2 bilhões na capital carioca, segundo o Diário do Turismo. Esse valor é extremamente maior que os cerca de R$300 milhões movimentados pelas edições do Todo Mundo no Rio, se a motivação for girar a economia, porque não investir em setores que já trazem lucro como o turismo? 

Se a justificativa dos mega shows for apenas o entretenimento da população, por que  somente artistas internacionais são promovidos? Será que não temos cantores o suficiente no Brasil? Será que entre gêneros como sertanejo, pop, mpb, funk, samba e tantos outros, nomes como Anitta, Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Roberto Carlos, Luan Santana e muitos outros, não atraíram pessoas para as areias de Copacabana?

Traga o Pão, pois o circo está montado

Na edição deste ano, o palco estava pronto e a areia estava lotada de pessoas pedindo pelo início do espetáculo de Shakira, que atrasou mais de uma hora para começar. Mas espera aí, acho que já vi isso antes. A arena pronta, os artistas no camarim e o povo aglomerado clamando pelo início do espetáculo. É possível ouvir vozes dizendo ‘‘Ave, Roma’’, ‘‘Ave, César’’ ou ‘‘Viva o Rio’’, ‘‘Viva o prefeito’’ e ‘‘Viva Eduardo Paes’’. 

O problema não está no entretenimento em si, mas na intenção por trás dele. Enquanto a população se distrai com quem será a próxima celebridade do Todo Mundo no Rio, problemas reais da cidade acabam sendo deixados de lado. Para o povo, a promoção da festa gratuita é um ato positivo da prefeitura, assim como os gladiadores, os teatros e os eventos esportivos para a plebe romana, o que não vêem é que tudo é barganha. A alta popularidade dos políticos, a baixa oposição ao regime vigente e a pouca insistência em favor de projetos realmente úteis para a população, são o que os promotores do evento ganham em troca do Pão e do Circo oferecido, nomeado por eles de: Todo Mundo no Rio.

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