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O machismo que persiste dentro e fora das quatro linhas

  • 18 de março de 2026
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  • Theillyson Lima
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Como o jornalismo incentiva ou coíbe episódios de machismo no futebol brasileiro.  

Raíssa Oliveira

O feminicídio é um termo recente, mas com um significado que ultrapassa os séculos e que sempre existiu: mulheres sendo violentadas e mortas apenas por serem mulheres. Ao abrir o noticiário atualmente, parece que esses casos se multiplicaram, mas apenas estão sendo mais expostos na mídia e levados até as delegacias. O bombardeio de notícias de violência física e psicológica direcionadas ao gênero feminino faz com que muitas pessoas busquem o ponto de fuga da realidade através do entretenimento, na tentativa de se proteger desses problemas e buscar alívio para a mente em meio a todo o caos. Entretanto, uma decepção surge quando, o que deveria ser atividade para espairecer, se torna cenário de preconceito. 

Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública comparou os dias de jogos do Campeonato Brasileiro e os índices de violência doméstica. Nesta pesquisa, foi constatado que no dia em que o time da cidade joga, o número de ameaças contra mulheres aumenta quase 24% e o número de lesão corporal dolosa no contexto de violência doméstica cresce aproximadamente 21% em relação a dias sem jogos. Diante desse cenário e de acordo com o presidente Lula, esses dados são inacreditáveis, mas “se o cara é corinthiano, tudo bem”.     

Mas a violência nem sempre é explícita e o feminicídio não começa na estatística de óbito. Começa no preconceito, machismo, falta de autonomia e na desigualdade, e é exatamente isso que esse texto vai abordar. No último mês, Gustavo Marques, zagueiro do Bragantino, disseminou preconceito contra a árbitra Daiane Muniz, após uma derrota do seu time contra o São Paulo nas quartas de final do Paulistão em que ela apitou e ele ficou insatisfeito com a atuação. Depois da partida, ele explicou que “não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras e Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”. E é nessa fala infeliz que a mulher, cansada dos noticiários, não encontra paz nem em jogo. 

A fala do Gustavo Marques excedeu o momento da entrevista pós-jogo, como já era imaginado que aconteceria. A discussão sempre é ampliada para outros programas, outras discussões, outros aspectos, e isso é trabalho do jornalista. Mas como os jornalistas refletiram esse caso e os outros milhares que surgem nas pautas esportivas todos os dias?

O lugar de fala de mulheres jornalistas

Quando um episódio como esse acontece, é de praxe que as mulheres jornalistas, um dos públicos mais afetados pelas declarações misóginas, sejam as primeiras a se posicionarem. Bárbara Coelho, jornalista da CazéTV, se posicionou em defesa da árbitra e criticou fortemente o defensor. “Tem uma coisa que acontece nessas violências contra as mulheres, que matam todo dia no Brasil. A gente precisa entender o tamanho da atrocidade dita pelo Gustavo. Quando escutei, não consegui nem mais prestar atenção no jogo. Viralizou muito rápido, e o que me assusta é saber que uma pessoa que está sendo gravada, microfonada e sabe que está em um ambiente público, tem a liberdade de ser tão desonesta e tão covarde com facilidade. Isso é o que mais indigna”, declarou publicamente após o episódio.  

Bárbara Coelho fez uma perfeita relação entre os comentários preconceituosos e violência à mulher. E as jornalistas não têm receio de criticar, até porque entendem o seu papel e lugar. No final do ano passado, outro caso de declaração machista por profissionais do esporte foi detectado e repercutido pela imprensa. O até então treinador do Internacional, Ramón Díaz, disse em uma coletiva de imprensa após empate que, também em contexto de reclamação de arbitragem por anulação, “o futebol é para homens, não é para meninas, para homens”.  

Quanto à essa declaração, a jornalista Milly Lacombe também se preocupou com a ligação violenta entre preconceito e ação. “Quando ele se dá o direito de cometer essas colocações ele está se colocando a favor de todo o tipo de violência cometido contra a mulher, porque a violência contra a mulher começa no verbo”, concluiu em uma publicação no Instagram pelo UOL. Amanda Munhoz, editora-chefe do GZH, também se expressou através da sua coluna e do Sala de Redação, programa da Rádio Gaúcha. Assim como as anteriores, ela também demonstrou insegurança quanto a não ser só uma fala, mas refletir uma estrutura machista, violenta e segregacionista com mulheres no futebol, reforçando ideias e atitudes misóginas.

Além disso, durante o programa da rádio, Amanda solicitou ajuda de seus colegas homens, que condenaram a atitude e se solidarizaram. Pediu o auxílio porque, apesar das jornalistas estarem se posicionando de forma significativa, também precisava dos homens conscientes para se posicionarem e identificarem situações de preconceito, identificarem e condenarem. E nesse ponto entra uma questão importante: as mulheres se posicionam, mas será que os homens, que se dizem contra quando questionados, também afirmam os ideais livremente ou apenas se desculpam e condenam porque está na pauta do roteiro previsto para o dia?

Jogando contra

Ainda que alguns defendam a causa feminina nem que seja por pressão da mídia, os outros nem isso se dão o trabalho, até porque tem muito público para engajar isso como vitimismo. O jornalista Pilhado utilizou suas redes sociais para criticar a punição aplicada ao zagueiro Gustavo Marques. Ele acredita que o jogador se retratou, mas o clube cedeu a uma pressão pública e prejudicou o defensor. “Red Bull Bragantino confirmando o que sempre falei, que é um timinho pequeno, é um clube sem tradição, sem torcida, e agora, sem personalidade e que usa o seu próprio jogador pra ganhar uma mídia e uma visibilidade que ele não possui”, opina Pilhado, além de questionar tratamento desigual quando as críticas envolvem árbitros homens, argumentando que ofensas direcionadas aos homens não resultam em punições.    

Esse tipo de profissional dá argumentos e lugar de fala para os homens misóginos, ele cede poder e opinião para os agressores se pronunciarem e sentirem que finalmente estão sendo ouvidos, um verdadeiro desserviço. Não, Pilhado. Xingamentos e ofensas direcionadas aos árbitros homens constantemente não resultam nas mesmas discriminações e, portanto, não nas mesmas punições. Quando um árbitro é julgado pela falta de competência, seja homem ou mulher, não existe preconceito, apenas uma opinião. Já o preconceito e violência contra a mulher começa quando ela é julgada unicamente pelo fato de ser mulher e por ocupar a posição que ocupa. Gustavo Marques não comentou que a arbitragem foi incompetente, ele disse que ela não tinha a capacidade de apitar. O objetivo não é obter mídia, e sim respeito.

Quem pode trabalhar com futebol 

Existem muitos espaços no esporte, especialmente no futebol, para perceber qual lugar que a mulher pode e deve ocupar. A jornalista Luciana Mariano foi a primeira mulher a narrar um jogo de futebol masculino no Brasil, o Campeonato Pernambucano em 1999, pela emissora Bandeirantes. Após 19 anos afastada das narrações, em 2018, ela narrou um jogo da Liga Europa na ESPN Brasil, atividade que exerce até hoje. Atualmente, além dela, quase todos os principais canais de televisão contam com mulheres em seus times de narradores, como a CazéTV, que tem Letícia Machado como narradora. Na Globo, a quantidade de mulheres narradoras e comentaristas nas transmissões de futebol aumentou 32% de 2019 a 2024.

Milly Lacombe foi uma das pioneiras no país a atuar no Jornalismo Esportivo, comentando partidas de futebol a partir dos anos 2000. Pela experiência de ser uma mulher nessa área, garante que o futebol será o último lugar onde o machismo vai terminar, porque é um meio concentrado, poderoso e um reduto da misoginia. Lacombe esteve envolvida em uma polêmica com o jogador Rogério Ceni em 2006, em que ela o acusou de falsificar uma assinatura. Sobre o acontecimento, ela explicou durante um programa do SporTV que “uma mulher, quando erra, não erra sozinha, mas sim pelo gênero. Eu não errei sozinha, mas foi como se pudessem, finalmente, justificar essa ideia de que não podemos gostar de futebol”.

Esses casos e estatísticas refletem uma realidade no meio esportivo: o espaço ocupado por mulheres no futebol está crescendo, mas infelizmente o lugar de fala do preconceito ainda é maior e cruel com elas. O imaginário masculino ainda se apega a um estereótipo de futebol que é responsável por moldar a sua masculinidade, e como deve ser difícil para os homens que se apegam apenas nesse fator para provar masculinidade ver mulheres nessa posição. 

Deve ser difícil ser orientado ao futebol desde que se entende por gente e sonhado em ser um jogador de futebol durante toda a infância, e observar mulheres, inseridas a esse mundo no mínimo uma década mais tarde, tendo mais conhecimento e oportunidades. Até porque,   enquanto Daiane Muniz já foi árbitra de Copa do Mundo e Olimpíadas, é mais fácil se referir ao Gustavo Marques como zagueiro do Bragantino e, ainda assim, poucos sabem quem é. 

Nesse contexto, para um homem provar que ainda é homem de respeito, utiliza argumentos de que mulher apenas é maria chuteira, que gosta de futebol só para admirar os jogadores, não tem voz adequada para narrar e nem postura para apitar, não sabe o suficiente de futebol para comentar. O machismo acredita nesse estereótipo e aproveita o espaço esportivo para disseminar assédio e abuso, muitas vezes extrapolando as quatro linhas e terminando nas bancadas de noticiários. 

Mas assim, nada contra as mulheres, não é nada pessoal, é contra o gênero inteiro mesmo. Apenas por ser mulher. E é aí que entra a violência, o machismo e o feminicídio, que como já dito, começa bem antes da estatística de óbito. Começa quando uma mulher é resumida apenas ao gênero e julgada por conta disso, julgada por ser mulher. 

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