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A literatura nas telas das crianças

  • 30 de setembro de 2026
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A entrada de livros e histórias infantis no cinema.

Luisa Oliveira

“Era uma vez… e viveram felizes para sempre”, a clássica expressão usada em livros de contos de fadas e histórias de princesas infantis. Expressão que desperta imaginação e sentimentos, imaginação do mundo lindo e perfeito e sentimento de conforto após uma grande reviravolta na ficção.

A literatura infantil começou a ser infiltrada no cinema a partir do século XX. Em 1937, a Disney lançou Branca de Neve e os sete anões, o primeiro longa-metragem de animação, numa adaptação de conto de fadas que abriu caminho para as histórias infantis nas telas. Desde então, a infância das crianças foi moldada por livros e filmes que despertam imaginação. Histórias,que antes eram vistas no cinema como desenhos da tecnologia Technicolor pelas gerações antigas, hoje são assistidas em live action com efeitos especiais que dependem de Inteligência Artificial.

Nesse caminho, a imprensa repete quase sempre a mesma pergunta, o filme foi fiel ao livro? A pergunta que fica de fora é mais simples e mais difícil, como a criança recebe o filme? Este texto olha para dois percursos, o do livro infantil que virou filme infantil, e o do livro que nasceu para a criança e, na tela, envelheceu, virando produto infantojuvenil. Nos dois, a mídia tradicional e a das redes falam muito da criança e pouco com ela. Curioso, para um público que supostamente é o centro de tudo isso.

Quando a criança é o pressuposto

Quando o livro é infantil e o filme mantém a idade, a imprensa trata a recepção infantil como assunto resolvido. O blog Clube Quindim afirma que o filme, “O Gato”  (2003) , baseado em Dr. Seuss conserva o humor e as cores do livro e, por isso, conquista as crianças imediatamente. A Turma da Mônica segue o mesmo padrão, “Laços” (2019) foi visto pelo Plano Aberto como o resgate do que Mauricio de Sousa sempre propôs, mas o crítico do ND Mais admitiu não saber se o filme funciona para quem não conhece a obra, e o Depois do Cinema lembrou que o desenho permite caricaturas que o ator real não reproduz. Uma obra feita para crianças chega à imprensa avaliada por quem já a conhece de cor, com a imparcialidade de quem foi ao cinema para matar a saudade.

Quando o livro cresce e a tela envelhece

Em “Onde Vivem os Monstros” (2009), o livro de Sendak tem só 338 palavras e o filme de Spike Jonze precisou inventar quase tudo. No mesmo ano a CNN ouviu um pai cujo filho de 1 ano e 8 meses, leitor fiel do livro, ficou entediado, e cuja filha de 4 anos perguntou por que o filme era tão triste,  para ele, o livro é para crianças de um a quatro anos, e o filme parecia pensado para quem tem de oito a doze. O crítico David Edelstein, da NPR, achou a acusação de “assustador”, exagerada, porque criança gosta de sentir medo. Ao menos alguém lembrou que criança existe, ainda que só para opinar sobre o que ela suporta.

Em “Percy Jackson”, o autor Rick Riordan chegou a incorporar sugestões de leitores mirins na escrita dos livros, segundo o AdoroCinema. Nos cinemas, porém, as adaptações de 2010 e 2013 desagradaram os fãs, e o próprio Riordan resumiu ao Purebreak, “duas horas de tela branca”. Quando a série chegou ao Disney+, um texto da Unicamp explicou o desconforto dos leitores mais velhos, a plataforma mira o público infantojuvenil, e quem leu os livros em 2005 não faz mais parte dele, ainda que a série tenha ficado entre as mais vistas do serviço. Riordan resolve a questão de outro jeito, o público dos livros vai de oito a oitenta anos, e “se você gosta, tem a idade certa”.

O webjornalismo

A crítica de cinema trata as adaptações como duelo entre filmes, não entre filme e livro. Sobre “A Pequena Sereia” (2023), a maioria comparou o live-action ao desenho de 1989, como se o livro de Andersen nunca tivesse existido. Só o Portal Cinema, de Portugal, voltou ao conto original, chamando a versão da Disney de “infantil demais”,  um defeito, na visão do crítico, que não pergunta se uma história para crianças deveria mesmo ser mais infantil. 

O caso de “Branca de Neve” (2025) mostra o padrão de forma mais nítida, porque a cobertura ficou quase toda no mundo adulto. A CNN Brasil discutiu se as falas de Rachel Zegler prejudicaram a bilheteria, a Folha de Pernambuco falou em “efeito babá” pais procurando ocupar os filhos,  como fator de sustentação do filme, um crítico previu que a produção não agradaria nem pais nem crianças, chamadas de “público pouco exigente”, sem consultá-las. A criança aparece como número de bilheteria e álibi da discussão dos adultos, presente na estatística, ausente na conversa.

Os portais transformam a adaptação em lista de serviço,  “os filmes que não são recomendados”, “as versões originais”,  que ajuda o pai a escolher o filme, mas quase nunca explica o que muda para a criança quando o conto vira imagem em movimento. A exceção é o blog Sou Mamãe, que sugere um jogo de encontrar diferenças entre livro e filme, o único texto em que a criança tem algo a fazer, e não só a aprovar. 

As redes sociais

Nas redes, a criança aparece mais do que em qualquer outro espaço, mas quase sempre pelas mãos dos adultos. Em “A Pequena Sereia”(2025), pais de meninas negras postaram vídeos da reação dos filhos ao ver Halle Bailey como Ariel, num contraponto direto aos comentários racistas do primeiro trailer. Bailey contou à ELLE Brasil que chorou ao ver os vídeos. É talvez o registro mais forte de recepção infantil nesse material, e ele existe porque um adulto apertou o botão de gravar.

Em “Como Treinar o Seu Dragão” (2025), o TikTok mostra outro uso, criadores em sessões especiais perguntando aos seguidores se vão “assistir com as crianças”, vídeos de youtubers adultos reagindo ao trailer, e edições de nostalgia. A criança é o destinatário implícito do produto, mas quem fala é o adulto que cresceu com a animação, emocionadíssimo com a própria infância. Já entre leitores de Percy Jackson, Riordan interage direto com fãs mais velhos que expressam “sentimentos mistos”, os leitores mais novos quase não aparecem nessa conversa.

Uma conversa sem a criança

O jornalismo trata a criança como pressuposto ou número de bilheteria, as redes a mostram como reação e imagem, filmada e editada por adultos. Em nenhuma das duas o que a criança pensou sobre o filme vira notícia. Nunca foi só sobre princesas nem sobre super-heróis. É sobre o que acontece quando personagens que a infância tratou como seus passam pelo cinema e voltam nas manchetes de adultos  enquanto a criança que lê contos de fadas debaixo do cobertor segue sem lugar na conversa.

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