• Home
  • Sobre o Site
  • Quem Somos
  • Edições Anteriores
Log In

  • Home
  • Sobre o Site
  • Quem Somos
  • Edições Anteriores

HomeAnálisesAdaptações vendem livros mas não formam leitores críticos

Adaptações vendem livros mas não formam leitores críticos

  • 30 de setembro de 2026
  • comments
  • UCB - UNASP-EC - Vefiola Shaka
  • Posted in Análises
  • 0

Vendas literárias impulsionadas por adaptações se perdem entre agradar o público e colaborar com a construção da educação. 

Vitória Amábili

O filme brasileiro que venceu o Oscar no ano passado, “Ainda estou aqui”, surpreendeu os fãs que não sabiam que a trama foi inspirada em um livro. O título registrou um aumento de 9,2 vezes na média diária de vendas nos e-commerces após 6 de janeiro, data em que Fernanda Torres venceu o Globo de Ouro. 

Não é preciso muito esforço para lembrar de outros livros que venderam mais por causa de filmes e séries sobre eles. “Jogos Vorazes”, “Harry Potter”, “O Senhor dos Anéis” e “Percy Jackson” são alguns dos exemplos de fantasia e, em obras clássicas, “Lupin”, “Sherlock Holmes” e “O Conto da Aia” se destacam. Histórias que não tem nada em comum, mas que se unem quando o assunto é vender em cima das adaptações

A maior diferença se encontra no público. Enquanto uns procuram ler para desenvolver pensamento crítico e educativo, outros leem aquilo que dá na telha, fazendo do TikTok sua lista literária e lendo apenas as modinhas que provém de outras pessoas. O problema não está no tipo de literatura, mas nas intenções que levam uma pessoa a escolher o livro. 

Lendo os clássicos da literatura ou os romances problemáticos da Colleen Hoover, o que importa é como essa leitura vai auxiliar ou afetar a construção do pensamento crítico e reflexivo de uma pessoa. Fernanda Torres ganhou grandes premiações por seu papel na obra, mas as pessoas reconhecem a importância da personagem Eunice ou acham que ela se vitimiza no filme? 

Quem está em destaque deveria estar na cadeia  

Quando uma adaptação literária é lançada, é natural que o público vá atrás do livro que inspirou aquela história, e neste caminho, muitas obras vendem mais cópias e edições do livro. J.K. Rowling pode descansar pelo resto de sua vida, pois desde o lançamento a franquia de Harry Potter bate recordes de vendas e continua fomentando o mercado editorial. O primeiro livro foi publicado em 1997 no Reino Unido, e anos depois, a coleção chegava a mais de 500 milhões de livros vendidos em todo o mundo, em 80 idiomas. Com a chegada do primeiro filme, em 2001, as vendas dos livros aumentaram de forma explosiva, mas o efeito manada não parou por aí. Uma série sobre o menino bruxo está sendo desenvolvida pela HBO, e estreia no final deste ano. A movimentação está sendo tão grande que a editora Rocco investiu em um estande decorado com partes das histórias dos livros para os fãs tirarem fotos na Bienal, e o primeiro livro da série se consolidou como um dos mais vendidos da editora no evento. 29 anos depois! 

O livro vendeu o filme, o filme vendeu o livro, que vendeu a série e voltou para o livro. Mas e a fama, para onde está indo? Da mesma forma que o efeito alcança o mundo todo e as histórias do garoto que vai para Hogwarts fazem parte da vida de muitas pessoas, muitos fãs enxergam uma problemática em enriquecer uma escritora homofóbica. Talvez  J.K. Rowling não consiga descansar tanto. Há aqueles que continuam a comprar e produzir conteúdos sobre as narrativas sem fazer ligação com a autora, e aqueles que não consomem para evitar dar palco para ela. Essa postura é respeitada, mas quando a história do livro é de um caso real, os leitores conseguem fazer a distinção entre o culpado do crime e a narrativa contada?

O jornalista Ullisses Campbell é conhecido por seus livros biográficos sobre Suzane Von Richthofen, Elize Matsunaga e o Maníaco do Parque, todos envolvidos em casos criminais notórios no país. Os três indivíduos têm filmes ou séries espalhados pelas plataformas de streaming, de biografia, simulação de crime, e até para defender o seu ponto de vista, uma piada. Esses projetos não foram inspirados nos livros de Ullisses, mas os escritos do jornalista ganharam notoriedade por causa deles. 

Para a formação de um indivíduo crítico e analítico, é necessário curiosidade e estudos, então a busca por entender a mente de criminosos faz parte deste processo de construção de pensamento, mas isso se perde quando as adaptações de crimes brutais fazem as pessoas idolatrarem estes criminosos. Enquanto alguns leitores não consomem mais conteúdos sobre Harry Potter para não ajudar a escritora homofóbica, há aqueles que tiram fotos com a Elize Matsunaga e postam nas redes sociais. Parece que não importa se o livro é de ficção ou baseado em fatos reais, o que determina as ações do leitor são as próprias escolhas dele, e elas estão caminhando para um lugar deprimente. 

Lista de leitura de quem não escolhe por si mesmo

Muitas das histórias românticas adaptadas hoje vieram de livros, e por causa de toda a repercussão nas telas, as páginas amareladas começam a chamar mais a atenção do público. Julia Quinn, autora da famosa série “Bridgerton”, teve seus queridinhos adaptados para uma série na Netflix. Após o sucesso estrondoso da adaptação, a coleção de livros disparou em vendas, e cravou seis posições entre os títulos de ficção mais vendidos em 2021. Jane Austen também é outra escritora que teve suas obras mais reconhecidas ao longo dos anos por causa das diversas adaptações. A escritora acumula muitas vendas, principalmente com o livro “Razão e Sensibilidade” e “Orgulho e Preconceito”, que saltaram em vendas após as adaptações. As duas escritoras são encontradas no nicho de romance de época. 

Quando falamos sobre romances contemporâneos, “A hipótese do amor”, da escritora Ali Hazelwood, se encontra em quinto lugar nos livros de ficção mais vendidos do Brasil.  A trama ganhou uma adaptação para o Prime Vídeo, com direito à tudo o que o booktok gosta: namoro falso, ambiente acadêmico e intrigas. Mas os dados não mentem. Antes mesmo de chegar nas telas dos internautas, o livro dispara em vendas. O queridinho do Tiktok tem ganhado fama e muitos fãs, mas o local que essas pessoas conhecem o livro também indica dark romances para crianças e adolescentes. 

Todo mundo sabe que existem classificações indicativas para o consumo de conteúdos, mas o que uma rede social tem feito ao tornar os adolescentes sedentos por lerem histórias de ficção em que as personagens querem viver romances abusivos e tóxicos? Além de criadores de conteúdos que fazem vídeos indicando a leitura sem nem ter a decência de falar a classificação do livro, há aqueles que promovem o livro pelo react da capa. Capas fofas, com cores pastéis, casais bonitinhos em formato de desenho e títulos chamativos que escondem conteúdo adulto e problemático. É isso que muitas crianças e adolescentes leem e que muitas vezes escondem dos pais, pois a capa do livro se assemelha a historinhas infantis e bobas. A lista de leituras deles tem girado em torno disso: conteúdos adultos, fúteis e que não são escolhidos a dedo por quem vai ler. 

Vítimas da nova geração

Foi em 1942 que Anne Frank precisou se esconder em um anexo secreto na empresa de seu pai para escapar da perseguição nazista. Junto com a família e mais quatro pessoas, viveu em um espaço apertado, sem poder fazer barulhos, cantar, dançar, ou até mesmo falar quando queria e sobre o que queria. Todo o esforço para que ela e os indivíduos do anexo pudessem sobreviver às perseguições impostas pelos nazistas ao povo judeu. Mas em pleno século XXI adolescentes acham que a Anne escreveu em seu diário para se vitimizar. 

Para a menina presa em um sótão, sem a luz do dia, sem poder sair para brincar com as crianças e sem a certeza de quando a vida voltaria ao normal, restava apenas o seu diário surrado. Registros sobre alimentação, a forma precária de usar o banheiro e tomar banho, as intrigas das mulheres que usavam a cozinha e as noites em que todos se encontravam ao redor do rádio para escutar os avanços dos exércitos alemães eram o único mundo que a garota tinha para escrever e documentar. A realidade dela, retratada em seu diário, não agradou uma adolescente no último encontro da Bienal. Segundo a leitora, Anne Frank se vitimizou ao escrever, e por isso a menina não gostou do livro. Se ambas trocassem de lugar, tenho certeza de que a menina deste século não repetiria sua fala. 

O comentário foi infeliz, mas pior que isso é perceber que os jovens têm perdido a oportunidade de se tornarem indivíduos críticos e analíticos. Está tudo bem ler histórias bobinhas do TikTok e tendências pelo simples prazer de fazer parte do hype, mas isso sai do controle quando os leitores não conseguem diferenciar histórias reais de ficção e leem apenas por conveniência. Comentários como o desta menina repercutem nas redes sociais e mais leitores que não pensam por si próprios são formados. Se o futuro dependesse deles, as Anne ‘s seriam esquecidas e trocadas por Evelyn’ s Hugo e seus sei lá quantos maridos. 

Os registros da menina judia viraram um dos livros mais usados para falar sobre a segunda guerra mundial, principalmente nas escolas, e ao longo dos anos várias adaptações sobre a história escrita pela própria vítima da guerra surgiram. Os registros viraram um livro e alavancaram com as produções cinematográficas e, depois disso, estas mesmas produções impulsionaram a produção de mais edições literárias da história. O padrão se repete com outras obras clássicas, contemporâneas, de ficção e não ficção, mas o público sabe diferenciar os gêneros literários de casos reais, ou todos interpretam Anne Frank como vitimista por achar que seu diário é uma modinha do TikTok? 

Pensem e critiquem por mim pois não sou capaz de fazer isso 

O emburrecimento da sociedade é quase palpável. Criminosos se tornam famosos por um dia, adaptações de crimes brutais fazem os telespectadores passarem pano (rosa e com glitter) para assassinos; romances problemáticos são vistos como o ideal em um relacionamento, dark romance faz as pessoas perderem a linha entre prazer e abuso e, além de todas essas coisas completamente malucas, uma menina de 13 anos presa por um regime nazista é taxada como vítima por uma adolescente. Os livros vendem muito, as adaptações chegam e fomentam ainda mais essa procura pela literatura, mas do que adianta, se no final os leitores não tem um consumo consciente e crítico sobre o que leem. 

“Leia o que quiser e onde quiser”, é a defesa daqueles que não pensam por si próprios e que no fim, são moldados pelas modinhas das redes sociais. Se Anne Frank foi vitimista, Eunice, interpretada pela Fernanda Torres, vai ser taxada como o que por essa geração que não pensa por si própria? 

Post Views: 11

Related Posts

sagrado
comments
Análises

Sagrado no texto, profano na tela

Adaptação
comments
Análises

O fracasso que persegue as adaptações de livros para o cinema

Todo Mundo no Rio
comments
Análises

Todo mundo no Circo

Mega Shows: entretenimento e dinheiro pra quase to…

  • 10 de setembro de 2026
  • comments
Adaptação

O fracasso que persegue as adaptações de livros pa…

  • 30 de setembro de 2026
  • comments

Share this

0
SHARES
ShareTweet

About author

UCB - UNASP-EC - Vefiola Shaka

Related Posts

sagrado
comments
Análises

Sagrado no texto, profano na tela

Adaptação
comments
Análises

O fracasso que persegue as adaptações de livros para o cinema

Todo Mundo no Rio
comments
Análises

Todo mundo no Circo

Politico medindo
comments
Análises

O espetáculo antes do voto

Tags

  • #edição244
  • adaptações
  • Ainda Estou Aqui
  • Anne Frank
  • Filmes
  • harry potter
  • leitores
  • Livros

Comments

Copyright © 2019 Unasp Engenheiro Coelho