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Adaptação

O fracasso que persegue as adaptações de livros para o cinema

  • 30 de setembro de 2026
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  • UCB - UNASP-EC - Vefiola Shaka
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Indústria cinematográfica prefere usar receita pronta, adaptação de histórias de obras clássicas da literatura, ao invés de inovar em roteiros originais.

Príscilla Melo

Velha madeira para queimar, velho vinho para beber, velhos amigos para confiar e velhos livros para ler.

  • Francis Bacon

Mais do que um conjunto de folhas impressas ou digitais, os livros são a possibilidade de viver outras vidas em uma só. Entretanto, em uma época tão visual, apenas a imaginação das cenas descritas podem não ser suficientes para satisfazer alguns, faltam rostos, movimento e cores. E é aí que o cinema chega, recontando histórias já conhecidas de uma maneira nova, usando todos os seus recursos visuais e sonoros com uma adaptação. 

O filme ‘‘A Odisseia’’, dirigido e roteirizado por Christopher Nolan, é a mais recente e monumental adaptação da literatura para o cinema. O poema épico grego atribuído a Homero, ganhou vida através de uma produção única, que contou com câmeras IMAX de 70 mm e um elenco formado por grandes nomes de Hollywood. O filme foi um verdadeiro fenômeno nos cinemas alcançando incríveis US$1,75 bilhão em bilheteria no mundo, se tornando o maior faturamento da carreira do renomado diretor. Mas a verdade é que nem todos os filmes com roteiros adaptados de livros tem esse desfecho, ‘‘Percy Jackson e os Olimpianos’’, ‘‘A letra Escarlate’’, ‘‘O Hobbit’’, ‘‘O Apanhador de Sonhos’’, ‘‘Eragon’’, ‘‘Crepúsculo (2008)’’, ‘‘Duna (1984)’’ e muitos outras provam essa realidade.

Quando se está adaptando um livro para o cinema, a linha entre o sucesso e o fracasso costuma ser muito tênue. De fato, agradar fãs não é uma tarefa fácil. Mas será que o sucesso depende só da aceitação do público ou os estúdios cinematográficos têm responsabilidade no fracasso?

O Morro dos Ventos 18+ 

O romance clássico ‘‘O Morro dos Ventos Uivantes’’ (Wuthering Heights), escrito pela escritora e poetisa britânica, Emily Brontë, já ganhou várias adaptações para o cinema ao longo dos anos. A primeira adaptação aconteceu em 1920, para o cinema mudo, depois dessa, o enredo ganhou novas versões em 1939, 1954, 1992, 2011 e finalmente 2026. A versão deste ano foi dirigida por Emerald Fennell e foi estrelada por Margot Robbie (Barbie) e Jacob Elordi (A Barraca do Beijo), que interpretaram os apaixonados Cathy e Heathcliff. Mas diferentemente das adaptações anteriores, essa foi uma releitura ousada que causou controvérsias e desagradou o público fascinado pela história original de Emily Brontë.

Ambientado na região isolada de Yorkshire, na Inglaterra, o clássico, considerado uma das maiores histórias de amor de todos os tempos, narra o romance proibido entre Catherine e Heathcliff, que acaba se transformando em uma trágica narrativa de obsessão, paixão destrutiva e vingança implacável. O livro aborda temas como crueldade humana, traumas familiares, classes sociais, preconceito e ressentimento. Mas ao contrário disso, o filme dirigido por Emerald Fennell, ignorou todos os aspectos sociais, discutidos na obra de Emily Brontë, e transformou o clássico em uma história pornográfica.

O primeiro ponto que decepcionou o público foi a escalação de Jacob Elordi, um homem branco, para interpretar Heathcliff, que é descrito por Brontë como um ‘‘cigano de pele escura’’, fator ligado aos maus tratos que o personagem sofre na trama e que perdeu completamente o sentido com o embranquecimento de Heathcliff. Outro elemento criticado foi o figurino, assinado por Jacqueline Durran, que não correspondeu ao período histórico em que a história se passa (1770-1802). As roupas usadas, principalmente pela personagem interpretada por Margot Robbie, continham tecidos sintéticos, modelos contemporâneos, cores extravagantes, tecidos brilhantes e transparentes que nada tinham de fiel aos trajes usados no século 19, período em que a história se passa. 

Além disso, a adaptação cinematográfica troca a tensão psicológica e espiritual retratada no livro pela tensão sexual constante, estetização da luxúria, elementos visuais sensuais e cenas de sexo percebidas desde o trailer, o que não foi do agrado dos fãs do clássico de Brontë.

Divergências

O livro distópico, Divergente, da autora Veronica Roth, faz parte de uma trilogia (Divergente, Insurgente e Convergente) ambientada na cidade de Chicago, em uma versão pós-apocalíptica. Nesta realidade, a sociedade se divide em cinco facções (abnegação, amizade, audácia, franqueza e erudição) a fim de manter a paz e a harmonia. Ao completar 16 anos, os jovens das facções realizam um teste de aptidão para descobrir com qual facção se identificam mais. Após o teste, eles precisam passar pela grande escolha de qual grupo pertencerão pelo resto da vida. Mas aquilo que parecia simples se tornou um grande desafio para Beatrice Prior, depois que seu teste mostrou que ela possuía aptidão para três facções diferentes (abnegação, audácia e erudição), o que a enquadra como uma divergente e coloca em risco sua vida.

A adaptação tinha um enorme potencial de se tornar um grande sucesso, mas o resultado não saiu como o esperado. A decisão de transformar os livros de Roth em filmes nasceu em um contexto em que a saga ‘‘Jogos Vorazes’’, adaptação dos livros de Suzanne Collins, fazia muito sucesso entre a crítica e o público. Entre as principais diferenças entre esses dois filmes que nasceram através de um roteiro adaptado, está a fidelidade à história original. Enquanto Jogos Vorazes seguiu fielmente a trama geral do livro de Collins, a saga de Roth sofreu mudanças na história que pesaram na opinião pública. Além das alterações no enredo, o longa deu tempo de tela demais para alguns personagens como Jeanine Matthews, interpretada por Kate Winslet, que quase não aparece nos livros e tirou o foco de alguns que no no roteiro original foram bem explorados, como é o caso do personagem Marcus Eaton, pai de Tobias.

Mas para além de quais partes de um livro devem ser incluídas em uma adaptação, o contexto falou muito quando se trata da saga Divergente. O grande sucesso de Jogos Vorazes inspirou a criação de outras sagas distópicas como Maze Runner e o próprio Divergente. Porém quando a história de Katniss Everdeen chegou ao fim em ‘‘Jogos Vorazes: A Esperança parte 2’’, os fãs do nicho já estavam saturados de filmes semelhantes com a mesma temática e comparavam todas as obras do gênero com a história de Collins, foi o que aconteceu com o longa dirigido por Neil Burger. Como resultado, ‘‘Divergente: Convergente (terceiro filme da saga)’’ foi um fracasso de bilheteria e fez os diretores cancelaram a sequência (Divergente: Ascendente) que estava sendo produzida, deixando a saga sem final.

Será que tudo precisa virar filme?

No Oscar 2026, a categoria de Melhor Roteiro Adaptado contou com fortes candidatos, adaptações de obras literárias. O vencedor da categoria, ‘‘Uma Batalha Após a Outra’’, protagonizado por Leonardo DiCaprio, foi baseado no livro ‘‘Vineland’’, de Thomas Pynchon. ‘‘Hamnet’’, que foi muito bem avaliado pela crítica especializada, foi adaptado do livro com o mesmo nome, em que a autora Maggie O’Farrell, imagina a vida do filho de William Shakespeare, Hamnet, que morreu aos 11 anos e influenciou a criação da peça Hamlet. ‘‘Frankenstein’’ dirigido com foco dramático por  Guillermo del Toro, foi adaptado do clássico gótico atemporal de Mary Shelley de mesmo nome. E ‘‘Sonhos de Trem’’, que recebeu quatro indicações na última edição do Oscar, foi baseado na novela de Denis Johnson. 

Por mais que as adaptações citadas não tenham fracassado como O Morro dos Ventos Uivantes ou a saga Divergente, um fator vem à mente, será que tudo precisa virar filme? E se livros continuassem apenas sendo livros?

Perdendo a aura

O conceito de aura descrito no ensaio A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica, criado por Walter Benjamin, em 1936, define a superação da unicidade e a autenticidade de uma obra a partir de sua reprodução democratizada. Aplicando essa ideia nas adaptações cinematográficas, podemos concluir que pegar uma obra clássica e respeitada, como ‘‘O Morro dos Ventos Uivantes’’ de Emily Brontë, e a democratizar transformando-a em um filme, que por mais que carregue o mesmo nome, não condiz com a história idealizada pela autora britânica, culmina na fragmentação da unicidade e da autenticidade obra e na perda da sua aura.

O argumento da democratização é totalmente válido se pensarmos que muitas pessoas procuram pelo livro depois de assistir um filme de roteiro adaptado. Mas será que é esse o objetivo da indústria cinematográfica ao transformar livros em filmes?

É homenagem ou desculpa para o medo de arriscar e a falta de criatividade?

É fato que histórias inéditas são o ideal, mas a novidade é incerteza, o público pode achar o enredo fraco, não simpatizar com os personagens ou atores, não achar o filme marcante, não se emocionar, não engajar e consequentemente não gerar lucro para os estúdios cinematográficos. Talvez esse fator de risco seja o responsável pela grande leva de histórias, já conhecidas, que estão ganhando versões em novos formatos. É mais fácil investir em um produto que já possui fãs e é reverenciado o suficiente para garantir uma bilheteria satisfatória, do que investir em algo completamente novo que tem 50% de chance de ser um grande sucesso e 50% de chance de ser um grande fracasso. 

Um exemplo de uma inovação que deu certo foi ‘‘Pecadores’’ dirigido e roteirizado por Ryan Coogler e protagonizado por Michael B. Jordan. O longa bateu o recorde histórico de indicações com 16 nomeações ao Oscar 2026, das quais venceu em quatro, incluindo a categoria de Melhor Roteiro Original.

Pode colar, mas cola direito

Adaptar clássicos da literatura é uma receita pronta de sucesso, quando feita direito. Muitos diretores aceitam adaptar uma história, mas se negam a compreender sua essência. Usam uma narrativa que já foi idealizada por outra pessoa para colocar suas próprias impressões e opiniões sobre os personagens ali descritos, causando assim a perda da mensagem original. A inovação e a criatividade sempre serão preferíveis, mas se é para usar o trabalho de outro como base, respeito e fidelidade são itens indispensáveis e o adicional que impede o fracasso de uma adaptação. 

Ao ver a reação negativa do público diante do trailer de ‘‘O Morro dos Ventos Uivantes’’, a produção do filme tentou se justificar pelo conteúdo dando a entender que ‘talvez’ a história retratada fosse na verdade a imaginação de uma mulher que está lendo o livro, ao invés de assumir a responsabilidade de ter destruído a aura de uma obra clássica, transformando-a em um enredo barato a adaptação.

Talvez alguns livros devessem continuar sendo apenas livros.

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