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Mudanças na transmissão da Copa do Mundo geram o questionamento: onde está o jornalismo esportivo?

Cobertura da Copa virou baderna?

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
  • Posted in Análises
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Mudanças na transmissão da Copa do Mundo geram o questionamento: onde está o jornalismo esportivo? 

Vitória Amábili

“Acabou! É tetraaa! É tetra! (1994)

Sai que é sua Taffarel! (1998)

Rrrrrrrr Ronaldinho! (2002)

Lá vêm eles de novo, virou passeio! Gol da Alemanha! (2014)”

  • Galvão Bueno

A voz que deu cara, som e sentimento para as coberturas da transmissão da Copa no Brasil, através das emissoras Bandeirantes, TV Gazeta e Rede Globo vai migrar para o SBT na 23° edição da Copa do Mundo. Junto com Galvão Bueno, as mudanças são visíveis no mundial de futebol masculino, com a apreciação de novos cantores para dar voz às músicas oficiais do evento, aumento no número de seleções participantes e a cobertura de transmissões dos jogos ao redor do mundo. 

Na terra em que o futebol nasce em campinhos de pracinhas, onde crianças montam times e usam garrafas pets e havaianas para delimitar o “gol”, o futebol cresce, faz parte da herança cultural dos brasileiros e se reinventa nas transmissões. Neste ano, as coberturas vão oscilar entre canais da TV aberta, por assinatura e por streaming. A CazéTV garantiu o direito de todos os 104 jogos, que serão transmitidos no YouTube. Já a Globo exibirá 55 partidas entre TV aberta, SporTV, Globo Play e GeTV. Além dela, o SBT transmitirá 32 jogos pela TV aberta e pela NSports. E para os que gostam da rádio, emissoras como CBN, Jovem Pan e BandNews FM também farão a cobertura. Esse é o ano em que crianças, pais e avós se reúnem em frente a telas e ao redor de rádios para vivenciar aquilo que um dia será uma memória afetiva e assunto das rodas de conversas. 

Mas afinal, o jornalismo tem cumprido com o seu papel em informar as pessoas sobre essas mudanças? Quantas surpresas vão acontecer quando os homens mais velhos da família ligarem a TV na Globo e não escutarem a voz de Galvão Bueno, ou mesmo quando quiserem assistir a um jogo e não encontrarem a transmissão ao vivo nas emissoras? Como o jornalista se porta com essas mudanças? Agora é o momento de você colocar o fone e escutar a música oficial da Copa desse ano, enquanto entende como a cobertura dos jogos irá funcionar no Brasil. 

Poucos direitos para a grande Globo 

Quem nunca sonhou em falar “Olha mãe, eu tô na Globo”? O auge da vida social dos brasileiros é aparecer nas telinhas da grande emissora. Provavelmente você se lembra da influenciadora Lara Santanna, sua caracterização e torcida nas Olimpíadas de Paris estamparam o “puro suco brasileiro” para o mundo. Momentos da história estão marcados na vida dos apaixonados por esportes por causa da cobertura da grande emissora. Por ela,  o telespectador consegue se sentir participante de momentos que param o mundo, mesmo que ele esteja no sofá de casa e cansado após o trabalho. Contudo, este ano será um pouco diferente. 

No dia 14 de maio, O Globo publicou uma matéria explicando as inovações da emissora para a transmissão da cobertura da Copa do Mundo. A rede irá transmitir os jogos nas telas e em diversas plataformas, a grande novidade divulgada na coletiva de imprensa foi a “baixa latência”, ferramenta que diminui o delay entre a exibição dos jogos da TV para o serviço de streaming. “A Copa do Mundo da TV Globo veste o Brasil de emoção, honra a tradição desde 1970, desde quando os Brasileiros podem ver a Copa do Mundo na TV Globo”, defende o diretor-geral do esporte, Renato Ribeiro, ao explicar as inovações para a transmissão. Mas, o que adianta tanta inovação sendo que a emissora não possui mais os direitos de todos os jogos da competição? Diferentemente de quando as transmissões da Copa começaram e a Globo detinha o direito de passar todos os jogos nas telas que preenchiam a casa dos brasileiros, hoje quem detém esses direitos não é mais a TV aberta. 

Com as novas alternativas de transmissão das partidas da Copa, o sentimento que permeia é o de confusão. Um grande apreciador do futebol vai se sentir confuso ao precisar ficar trocando o lugar que assiste aos jogos. Apenas a CazéTV irá transmitir todas as partidas, e se o telespectador quiser olhar todas, vai precisar acessar em algum momento a plataforma, mesmo que as narrações dela não agradem. Da mesma forma, pense no seu avô que gosta de assistir aos jogos e lembrar de quando era criança e jogava nos campinhos com os amigos, ele também vai se sentir confuso com essa migração de direitos de cobertura para o digital, pois para ele os jogos passam apenas na TV. 

Ao mesmo tempo em que essas alternativas vão promover um maior alcance dos jogos, principalmente para o público jovem que vive com o celular na mão, também vão causar confusão e descontentamento de quem sempre foi fã e não precisava se preocupar em decidir onde assistir as partidas. Talvez daqui uns anos toda essa abordagem esteja mais disseminada, mas hoje, é perceptível que a falta de informação sobre essas inovações vai pegar muitas pessoas de surpresa. 

Saí que a transmissão é minha 

Com a ampliação das transmissões para o digital estão as mudanças nos apresentadores e narradores. Galvão Bueno, famoso apresentador e narrador brasileiro, irá dividir as narrações das partidas com Tiago Leifert e outros comentaristas no SBT. Já a Globo optou por um quadro com Everaldo Marques, um dos principais narradores esportivos da rede, Renata Silveira, Gustavo Villani e demais comentaristas. A aposta da Cazé TV está em Romário como o principal comentarista dos jogos, além dele, Fred Caldeira, Fernando Nardini e Isa Pagliari são novas contratações do time.

Imagina os fãs de futebol e de vozes como a de Galvão ligando a TV no dia 14 de junho, com a camiseta amarela no corpo e um balde de pipoca na mão, e levando um susto ao não escutar a voz que marcou as maiores partidas do futebol brasileiro. As gerações mais novas e principalmente as que não acompanham esportes não conseguem perceber a diferença de narração entre uma emissora e outra. Mas para aquela pessoa que escutava na rádio os jogos, acompanhou as vitórias do Brasil e ainda mantém no coração o gosto pelo futebol, a voz do narrador que acompanhou 13 Copas e dois títulos do Brasil vai deixar a desejar nos streamings e na própria Globo. 

A diferença, entretanto, não está apenas no tom de voz do narrador. O que chama atenção nas narrações do esporte é a capacidade de transmitir emoção pura, além de ritmo e impostação da voz. Porém, o que realmente diferencia os narradores é a presença de técnica jornalística na fala, na composição do texto e na informação passada ao consumidor. Nas Olimpíadas de Paris, tanto a rede Globo como o CazéTV detinham os direitos para a cobertura dos jogos. Em comentários do Reddit é possível ver muitas pessoas defendendo as transmissões do streaming da Cazé, principalmente pelos comentários entre os jogos da competição, enquanto que outros não gostaram da abordagem apresentada. Para alguns, a cobertura da CazéTV trouxe a possibilidade de assistir várias categorias ao mesmo tempo, como surf e vôlei, enquanto as telas da Globo passavam uma categoria de cada vez e, mesmo assim, a narração encanta o público.

O problema não está em qual das transmissões agrada mais, mas em qual delas se diz jornalista e realmente defende uma postura jornalística em suas coberturas. O jornalismo se reinventa a cada nova tendência, mas a sua postura está realmente defendida nesses novos espaços da mídia, ou ele só está se encaixando sem seguir seus princípios? Todas as coberturas que vão transmitir a Copa neste ano possuem jornalistas em seu quadro de narradores e comentaristas, qual deles vai defender sua profissão e qual vai se entregar às novas mudanças? 

Lá vem ela, o passeio aumentou! 

Da mesma forma que as equipes de transmissões contam com jornalistas durante toda a cobertura da Copa, nomes populares estão ganhando espaço no meio esportivo. No dia 21 de maio, a influenciadora Virgínia divulgou em suas redes sociais que vai participar da Copa como repórter de entretenimento em parceria com o programa Domingão do Huck, da TV Globo. Para quem gosta da influenciadora é uma notícia boa e que movimenta a Copa no Brasil, já para os jornalistas é apenas mais uma prova de que a profissão tem sido desvalorizada e substituída. “É a esculhambação, é o entretenimento 100% no lugar do jornalismo”, comentou o jornalista esportivo Juca Kfouri. É Virgínia, esse lugar não é para você, mesmo que 2026 seja seu e dos seus fãs. 

Assim como a entrada da influenciadora, a cobertura narrativa da Copa pelo YouTube causa revolta naqueles que gostam de esporte e querem escutar especialistas que entendem do que estão falando, ao invés de ficarem apenas ouvindo conversas paralelas dos apresentadores. Não há uma problemática em volta dos novos formatos que surgem a cada dia, a questão é que os profissionais estão deixando que anos de estudo se percam para influencers que não possuem nenhuma formação em comunicação. Falar bem não basta para ser repórter, saber o que é um gol e a camiseta do time não basta em uma cobertura jornalística da Copa, e mesmo assim o jornalista tem perdido o lugar para pessoas que não sabem o mínimo. Até quando a essência do jornalismo será deixada de lado para se encaixar em novas tendências de streaming?

E mesmo que haja uma vasta opções de transmissão para agradar vários públicos, é difícil medir a importância deles quando a maior parte da população não sabe que os jogos passam em outro lugar além da Globo. Porque no fim, se um influenciador do Instagram consegue divulgar as informações sobre a cobertura da Copa melhor que os portais de notícias, é ele quem vai ganhar palco nas emissoras, pois elas procuram aquilo que gera mais engajamento, e o verdadeiro repórter será deixado de lado por não entregar isso. 

Onde estão as informações acessíveis sobre esse assunto que vai ditar o ânimo do brasileiro? O jornalismo, quando critica novos formatos e novas tendências, tem conseguido levar a informação para as pessoas? Se no fim não houver uma adaptação do jornalismo para os novos formatos, com o intuito de estar presente em todos os lugares defendendo os princípios da profissão, vamos continuar perdendo o nosso lugar para Virgínias, narradores sem técnica e streamings sem ética e responsabilidade. 

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