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Aprendendo a jogar com a mídia

Aprendendo a jogar com a mídia 

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
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O futebol visto e explicado pela primeira vez nas telas de muitas pessoas.

Luisa Oliveira 

Ah o futebol, o esporte mais praticado globalmente. Só ele tem o poder de entregar um momento quatrienal, que une 100% de  todos os povos em prol de uma só coisa, uma taça de ouro que mostre o respeito que a pátria merece e o poder que ela pode ter através da vitória dela, a Copa do Mundo. Mas antes de todos estarem juntos comemorando, é ideal que saibam o que estão vendo.  E é aí que a mídia entra. 

Segundo a pesquisa publicada no último ano pela Nexus, o esporte é acompanhado e visto por 47% de toda a população brasileira ao menos uma vez na semana. Enquanto os outros 13% não entendem nada sobre o esporte, considerando que só veem ele a cada quatro anos em um evento global. Então o mínimo que se espera da mídia, é que ela ensine o básico a esse público.

Redes Sociais 

Perfis de blogueiras no Instagram simplesmente acreditam que maquiagem seja a base para mulheres entenderem sobre esse esporte. Colocam posições de jogadores como produtos ou marcas e explicam movimentos do jogo como passos de se produzir. Definem pessoas como fofocas. Então claramente o atacante e camisa 10, Neymar Júnior é o iluminador que realça pontos estratégicos, conferindo brilho e dimensão e destaque ao rosto, o campo. Não se pode esquecer também de Vinicius Junior, o ponta que se separou recentemente da influenciadora Virginia Fonseca, ou seja sua função é ousadia, a velocidade estonteante e o drible desconcertante que rasga a defesa adversária. Sua performance é marcante e impossível de ignorar.

Outros perfis na mídia acham que homens são capazes de entender o futebol por meio de carros. Quando se comparam os motores, marcas e até modelos mais recentes ou antigos. Ou seja, o zagueiro e camisa 18, Danilo, é o carro BMW X7: um SUV grande e versátil, equipado com um motor V8 potente, que se adapta a qualquer terreno e situação, ou seja o “faz tudo” dentro do campo. 

O jornalismo esportivo 

Enquanto as redes sociais explicam de maneira clara, a mídia tradicional simplesmente esqueceu que agora não está sendo acompanhada apenas por seus telespectadores leais. Isso significa que, se depender de  programas em rede aberta sobre o futebol, brasileiros que assistem apenas a Copa de quatro em quatro anos nunca vão entender o que 22 jogadores estão fazendo dentro de um campo correndo atrás de uma bola. Considerando que, o principal canal que diz que futebol tem que ser visto lá porque,“aqui é emoção”, TV Globo, só sabe narrar os noventa minutos com linguagem técnica jamais entendida por leigos. 

A TV Globo, canal mais assistido do Brasil, escala ex-jogadores profissionais como Caio Ribeiro, Denilson e Junior para comentar os jogos. No amistoso Brasil x Panamá, realizado em 31 de maio de 2026 no Maracanã, a narração foi de Everaldo Marques, estreando como voz principal da Seleção. Usando sempre a mesma  linguagem, termos como “tiro de meta”, “bloco baixo”, “cruzamento” e “linha de quatro” circularam normalmente, sem pausa, sem explicação, porque quem está na bancada já sabe o que isso tudo significa.

A escolha de ex-jogadores para comentar parece óbvia dentro da lógica do jornalismo esportivo, quem jogou sabe o que está vendo e falando. O problema é que quem nunca jogou, e nunca acompanhou, também está assistindo, e esse segundo grupo é maioria. Segundo o relatório da Adlook, pesquisa realizada com mais de 33 mil pessoas em seis países, 61% do público brasileiro da Copa é formado por espectadores casuais, pessoas que não acompanham futebol o resto do ano. A maioria de quem está na frente da TV não é o público para quem a transmissão foi feita.

No SBT, a outra emissora de TV aberta com direitos da Copa 2026, o cenário se repete. Galvão Bueno e Tiago Leifert narram, com comentários de Mauro Beting, jornalista premiado como melhor comentarista de TV e rádio, reconhecido justamente pelo seu profundo conhecimento tático e histórico do futebol. Um elogio dentro do jornalismo esportivo. Para o espectador casual, um problema, conhecimento tático profundo pressupõe que quem ouve já entende o básico.

A questão não é competência, Everaldo Marques, Caio Ribeiro, Mauro Beting, todos são profissionais sérios e preparados. A questão é para quem eles foram preparados. O jornalismo esportivo tradicional acompanhou 22 Copas do Mundo e ainda não entendeu que nem todo mundo que vê e escuta sabe o que é o futebol.

Portais de notícias 

Todos os acompanhantes da copa seriam muito mais felizes se o problema estivesse só na TV aberta. Assim poderiam buscar entender o esporte mais praticado no mundo, em outros veículos de comunicação. Mas infelizmente não é assim, portais de notícias como  ge.globo, o UOL Esporte e o Lance!,os três maiores do país, são construídos para quem já tem time, já sabe o que é escalação e já entende por que importa saber se um jogador atua como volante ou como meia.  

Nas vésperas da Copa 2026, o portal UOL publicou uma manchete dizendo “Samir: É desnecessário Casemiro dar um carrinho por trás perto da estreia”. Uma frase que só faz sentido para quem já acompanha. Para quem está chegando agora, é um comunicado interno para iniciados. Os colunistas deste portal, Paulo Vinícius Coelho, Casagrande, Mauro Cezar e Juca Kfouri, jornalistas veteranos e especialistas profundos do futebol brasileiro, escrevem apenas para leitores que já sabem o que estão lendo.

Não existe, em nenhum desses portais, uma seção dedicada a explicar o básico do futebol para quem nunca acompanhou. A Copa chega, o público dobra, e os portais continuam falando para a mesma metade que sempre esteve lá.

Não faz mais que obrigação 

Já que a mídia não entrega o básico de explicação e conhecimento para aqueles que não entendem de futebol. Considerando que, canais de TV aberta e portais de notícias acham que todos os telespectadores e leitores sabem o que estão vendo, ela entrega emoção, imagem, o grito do gol, o choro no banco, a bandeira nas arquibancadas. Isso chega para todo mundo, para quem entende e para quem não entende. É o futebol como espetáculo, e nisso a mídia brasileira é extraordinária. Mas entregar emoção não é jornalismo. É entretenimento. E confundir os dois é exatamente o problema.

A TV Globo transmite a Copa para milhões de brasileiros em sinal aberto e gratuito. O SBT faz o mesmo. Os portais ge.globo, UOL Esporte e Lance! estão disponíveis para qualquer pessoa com acesso à internet. Nenhum deles cobra um centavo. Nenhum deles explica o que está acontecendo em campo para quem nunca acompanhou futebol na vida. Cumprem o básico, colocar o jogo na tela, e param por aí. Não fazem mais que a obrigação.

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