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Brazilcore virou moda no exterior e vergonha no Brasil.

Brazilcore e seu impacto pré-copa e pós-copa

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
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Moda no exterior, vergonha no Brasil.

Príscilla Melo

Um sonho intenso, um raio vívido, gigante, belo, forte, terra adorada, florão da América, pátria amada, mãe gentil, esses são apenas alguns dos adjetivos usados para descrever o Brasil no Hino Nacional. Mas para além do que nós dizemos de nós mesmos, está a nossa fama no cenário internacional. No cinema, nosso país marcou presença nos últimos dois Globos de Ouro, quando Fernanda Torres, em 2025, e Wagner Moura, em 2026, trouxeram para casa o prêmio de melhor atriz e melhor ator em filme de drama. Ainda no mundo cinematográfico, filmes nacionais como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, tiveram grande repercussão ao redor do mundo, chegando a ser indicados ao Oscar, a maior premiação de cinema. 

Para além dos eventos recentes, o Brasil é o berço de grandes lendas que ainda estão vivas na memória popular mundial. No futebol temos o rei Pelé, considerado o maior atleta do gênero. O jogador é o único na história do futebol a conquistar três copas do mundo (1958, 1962, e 1964), além de marcar 1.282 gols durante a carreira e ser considerado o ‘‘Atleta do Século’’ pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), em 1999. Na F1, o falecido Ayrton Senna é lembrado internacionalmente como o maior piloto de todos os tempos. Seu estilo único de pilotagem agressiva, sua habilidade em dirigir em pistas molhadas, sua técnica extremamente precisa e  sua extração absoluta do limite do carro, chamava a atenção ao transformar uma simples volta em uma verdadeira obra de arte. 

Diretamente das passarelas das grandes marcas Gisele Bündchen, é a única modelo na história a ter o título de Ubermodel, criado na década de 1990 pela New York Magazine, para nomear a gaúcha como a maior modelo de todos os tempos. Mesmo décadas depois, nenhuma outra modelo recebeu essa nomeação. Segundo a Forbes, entre 2002 e 2016, Gisele foi a modelo mais bem paga do mundo, ocupando a posição por 14 anos consecutivos. Mesmo após sua aposentadoria ela ainda é considerada um grande nome no mundo da moda. 

Seja nas telonas, no campo, na pista ou na passarela, o Brasil sempre foi um grande destaque entre as outras nações, mas recentemente com o impacto das mídias sociais na disseminação de conteúdos, esse movimento se intensificou ainda mais. O Brazilcore (ou Brazilian Core) é uma tendência estética que celebra a identidade brasileira, enaltecendo o uso de símbolos da cultura do país. Em um ano de Copa do Mundo como 2026, o movimento ganhou ainda mais força, mas será que ele é o suficiente para manter o Brasil unido em ano de copa e eleições? É o que vamos descobrir.

O Brasil está na moda

O Brasil está em alta nas redes sociais. A estética brasileira é uma das maiores tendências globais para 2026. No Tik Tok existem cerca de 50 mil vídeos com a hashtag #brazilcore. A trend transforma elementos do cotidiano brasileiro, que antes eram mal vistos por serem usados por pessoas de periferia, em algo desejado pelos gringos. Um exemplo disso são os chinelos Havaianas. No site europeu da marca brasileira, o modelo do chinelo que contém a logo do Brasil se tornou o mais vendido. Além disso, camisas inspiradas na seleção brasileira também se tornaram moda. Vários artistas estrangeiros como Hailey Bieber, Dua Lipa, Shawn Mendes e Timothée Chalamet, já foram flagrados usando a amarelinha, o que intensificou o fenômeno entre a geração Z. A Corteiz, marca de Streetwear britânica, lançou uma linha de camisetas inspiradas no futebol brasileiro com estampas com o rosto do jogador Ronaldo. A coleção feita em colaboração com o próprio atleta, esgotou rapidamente na Europa e nos Estados Unidos.

Podemos chamar isso de Soft Power, que é a capacidade de um país ou lugar, de atrair outras nações através de sua cultura, estilo de vida, música, moda e turismo. No Pinterest, moodboards com a estética brasileira são populares, elementos como o amarelo e o verde, o vira-lata caramelo, o filtro de barro, as cadeiras e mesas de plástico, o copo americano, os chinelos Havaianas e o Guaraná, sempre estão presentes nos pins que servem de inspiração para os usuários interessados na estética brasileira. 

Sem medo de usar a amarelinha

Para além de uma mera moda para os gringos, no Brasil durante o intenso período de polarização política vivido no país durante as eleições de 2018 e 2022, a tradicional camisa verde e amarela passou a ser vista com outros olhos. Em um ambiente no qual todos deviam ter um lado, a camisa da seleção brasileira deixou de ser um símbolo nacional e se tornou um símbolo político. Em um cenário em que metade da população era de esquerda e outra metade de direita, muitos brasileiros guardaram a amarelinha na última gaveta, por não quererem ser associados a um partido político, que usou as cores da bandeira para se identificar. Durante os últimos anos foi assim, mas agora parece que algo novo está no ar. Sem muito burburinho político, com um dos líderes partidários preso, com o brazilcore em alta e o sonho de um hexa, as gavetas estão sendo abertas, a poeira está sendo sacudida, e a verde e amarela está sendo vestida, sem medo, sem vergonha. Tudo o que temos agora é orgulho do que já vivemos e esperança pelo que ainda sonhamos em viver.

É, em cinco-oito, foi Pelé

Em meia-dois, foi o Mané

Em sete-zero, o esquadrão

Primeiro a ser tricampeão

Oh, 94, Romário

2002, Fenômeno

Primeiro tetracampeão

Único penta é o Brasilzão!

  • Único Penta é o Brasilzão, Hinos de Futebol

O jeitinho brasileiro de torcer

O brasileiro já nasce apaixonado. Quando gosta de algo, gosta de verdade. Não é à toa que no mundo afora somos reconhecidos por sermos os melhores fãs e o melhor público em shows. Mas muito além do jeitinho obcecado de ser, quero falar do quanto nós amamos e torcemos pelo nosso país. Sim, o país tem muitos problemas, ainda mais quando falamos da nossa atual situação dentro do esporte. Faz 24 anos desde que ganhamos a última Copa do Mundo, e de lá até aqui, o país passou por maus bocados como o histórico 7×1  para a Alemanhã em 2014. Depois das inúmeras derrotas copa após copa, muitos brasileiros disseram ter perdido as esperanças. Quando divulgada a lista de convocados, ficou a nostalgia ao perceber que não temos hoje jogadores que cheguem aos pés das seleções passadas como a de 2002, que trouxe o penta para o Brasil. 

Mas mesmo sem expectativa, o espírito de torcedor sempre vai falar mais alto. Após o 6 x 2 no jogo de despedida no Maracanã e o 2 x 1 contra o Egito, na estreia em solo americano, em Cleveland, comentários como ‘‘estão me deixando sonhar’’, ‘‘está cedo para sonhar com o hexa?’’ e ‘‘não é querendo criar falsas expectativas… mas a energia dessa copa, está com cheiro de hexa’’, inundaram os chats das lives de transmissão dos jogos. A partir daí, ruas desde Manaus até o interior de Minas Gerais ganharam cores, que há muito tempo não viam, bandeiras do Brasil foram penduradas na janela e a camisa da seleção está sendo vestida no corpo. O povo está sonhando e o marketing do Instagram da CBF está alimentando esse sonho, através de posts que enaltecem a história do Brasil no futebol, destacam o potencial dos jogadores e a vontade de vencer a Copa do Mundo de 2026.

Tá, mas e depois?

Mesmo com o Brazilcore em alta, em pouco tempo o ‘‘orgulho nacional’’ se tornará desgosto e insatisfação. A Copa do Mundo e as eleições estarem no calendário do mesmo ano, é uma das melhores coincidências que temos. Pois a copa tem sabor de união, de torcida, de mãos dadas, de alegria, de energia, de mesa, de pessoas juntas sonhando e vibrando pelo mesmo ideal. Mas quando acaba julho, vem agosto, depois setembro, até chegarmos em outubro e o clima mudar completamente. A união vira divisão, a torcida vira fanatismo político, as mãos antes juntas viram agressão verbal e física, a alegria e a energia viram raiva e ódio, a mesa que antes reunia a família, agora só tem parte dela, porque quem vota no outro candidato que não é o meu, não merece comer junto comigo. E assim, em questão de meses deixamos de ser uma nação unida e nos tornamos uma nação dividida. 

E o que sobra depois da copa? Bom, a tinta da rua é lavada, as bandeiras retiradas e a camisa amarela é guardada na última gaveta. Se a Copa do Mundo é um sentimento, ela é como uma paixão adolescente, intensa enquanto dura, mas breve, muito breve. Agora estamos vivendo a fase da intensidade, mas sabemos que vai passar. Me pergunto ‘‘será que o hexa mudaria nosso destino de conflitos internos?’’, se ganharmos saberemos a resposta. A única certeza que podemos ter é o hexa, pois se ganharmos será o sexto título, e se perdemos será a sexta derrota consecutiva. Mas se por enquanto tudo o que temos é expectativa e euforia, vamos torcer, vibrar, ansiar, e respirar o ar de união enquanto ele ainda existe, e antes que todos lembrem que na verdade se odeiam e que ao contrário da essência do brazilcore, tem vergonha do país.

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