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Mais países, menos exclusividade?

  • 10 de junho de 2026
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  • Theillyson Lima
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Ao tratar o aumento de países na Copa do Mundo como um avanço natural, parte da imprensa deixa em segundo plano os interesses econômicos da FIFA e os impactos no torneio.

Caio Leite Ferreira

Em janeiro de 2017, a FIFA anunciou uma das maiores mudanças da história da Copa do Mundo, o torneio passaria de 32 para 48 seleções a partir da edição de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México. A decisão foi aprovada por unanimidade pelo Conselho da entidade e representou uma expansão de 50% no número de participantes, aumentando significativamente o alcance da principal competição do futebol mundial.

Desde o anúncio, a proposta tem sido recebida com entusiasmo por boa parte da imprensa esportiva. As reportagens costumam destacar o aumento da representatividade, a possibilidade de participação de novos países e a oportunidade de tornar a Copa mais global. Afinal, mais seleções significam mais torcedores envolvidos e mais nações vivendo a experiência do maior evento do futebol. Apesar desses benefícios evidentes, a mudança também levanta questionamentos importantes sobre a competitividade do torneio, os interesses econômicos por trás da decisão e a possível perda de exclusividade da competição.

A inclusão que o futebol precisava

A principal justificativa para a expansão é permitir que mais países participem da Copa do Mundo. Para seleções africanas, asiáticas e da América Central, o novo formato representa uma oportunidade inédita de chegar ao torneio. Assim, a decisão parece coerente com a proposta de tornar o futebol mais global e menos concentrado nas potências tradicionais.

A mídia esportiva enfatizou bastante esse aspecto, em reportagens publicadas por veículos como a ESPN Brasil, a ampliação foi frequentemente apresentada sob a perspectiva da inclusão e da ampliação da representatividade internacional, destacando as oportunidades para seleções que historicamente enfrentam dificuldades para se classificar e o aumento da representatividade. Há mérito nisso, ver novas seleções disputando uma Copa pode gerar histórias interessantes, aproximar diferentes culturas e fortalecer o esporte em regiões onde ele ainda busca maior desenvolvimento.

Mas existe uma questão que nem sempre recebe a mesma atenção, a Copa do Mundo sempre foi especial justamente porque era difícil chegar até ela. A classificação era um feito enorme, resultado de anos de trabalho e eliminatórias extremamente competitivas. Quando o número de vagas aumenta em quase 50%, parte dessa exclusividade inevitavelmente diminui. O que inicialmente pode ser interpretado como uma medida de democratização do torneio ganha outra dimensão quando observamos os números envolvidos. As projeções financeiras indicam que a expansão também atende a interesses econômicos significativos da FIFA. 

O preço da expansão

Além da questão esportiva, há um fator impossível de ignorar. Segundo projeções da própria FIFA, a Copa de 2026 deverá gerar mais de 9 bilhões de doláres em receitas, impulsionadas principalmente pelos direitos de transmissão, marketing, venda de ingressos e patrocínios.

A conta é bem simples, quanto mais seleções, mais jogos. Mais jogos significam mais audiência, mais espaço publicitário e mais dinheiro circulando. O torneio passará de 64 para 104 partidas, um crescimento gigantesco que beneficia não apenas a FIFA, mas também patrocinadores e emissoras. Esse crescimento financeiro já aparece nos números. A entidade anunciou um aumento de 15% na distribuição financeira destinada às seleções participantes da Copa de 2026.

Apesar da relevância desses números, boa parte da cobertura esportiva deu mais destaque ao aumento das vagas do que ao debate sobre a distribuição dessas receitas. Poucas reportagens questionaram quanto desse crescimento financeiro será efetivamente revertido para federações nacionais, programas de desenvolvimento do futebol ou compensações aos clubes que cedem jogadores para o torneio. A ausência dessa discussão limita a compreensão do público sobre os interesses econômicos envolvidos na mudança. 

Os jogadores também observam essa expansão com cautela. O sindicato internacional FIFPRO tem feito críticas frequentes ao calendário do futebol, alertando para o excesso de partidas e para o desgaste físico dos atletas. Com uma Copa mais longa e mais jogos, a preocupação se torna ainda mais relevante, visto que o número de lesões mesmo antes do torneio começar já é algo bem debatido nas redes.

Uma Copa maior é necessariamente melhor?

Essa é a pergunta que permanece sem resposta definitiva. A ampliação da Copa tem vantagens claras. Mais países poderão viver a experiência do torneio, mais torcedores estarão representados e o futebol ganhará ainda mais alcance global. Ao mesmo tempo, existe o risco de que o evento perca parte daquilo que o tornou tão prestigiado ao longo das últimas décadas, aquela sensação de que apenas os melhores conseguiam chegar lá.

A ampliação da Copa do Mundo para 48 seleções traz benefícios evidentes e merece ser apresentada ao público também sob essa perspectiva. Nesse sentido, a cobertura esportiva cumpriu um papel importante ao destacar a inclusão de novos países e a ampliação da representatividade internacional. No entanto, parte dessa cobertura dedicou menos espaço às implicações econômicas e competitivas da mudança, tratando a expansão como uma evolução quase inevitável do torneio.

Uma análise mais ampla poderia incluir discussões sobre o impacto do novo formato na qualidade da competição, na carga física dos atletas e nos interesses financeiros da FIFA. Ao priorizar determinados aspectos, o jornalismo ajuda a definir quais aspectos do debate recebem maior atenção e consequentemente, o que é falado pelo povo. Mais do que discutir se a expansão da Copa é positiva ou negativa, a questão é avaliar se a cobertura ofereceu ao público elementos suficientes para compreender todas as dimensões dessa decisão tão histórica.

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