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Fandom criminoso tem milhares de autores e nenhum culpado

  • 8 de abril de 2026
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  • Theillyson Lima
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Você provavelmente já participou de um fandom criminoso sem saber.

Vefiola Shaka

Imagine que não existem países

Não é difícil de imaginar

Nada pelo que matar ou morrer

E nenhuma religião também

Imagine todas as pessoas

Vivendo em paz

– Imagine, John Lennon

É exatamente isso. Uma música é o suficiente para que um fã se torne o assassino do seu próprio ídolo. John Lennon foi assassinado por um fã chamado Mark David Chapman, que esperava por ele na calçada do Dakota Building, em Nova Iorque, com um exemplar do livro “O Apanhador no Campo de Centeio” no bolso e uma arma na mão. Horas antes, ele havia pedido um autógrafo. Após o acontecido, o fã/assassino disse à comissão de liberdade condicional que cometeu o crime por “auto-glorificação” e fama, e que se sentiu enfurecido com a riqueza de Lennon e com as letras de músicas como “Imagine” e “God”.  A obra prima “Imagine” tocava no mundo inteiro, enquanto seu criador tinha morrido diante de alguém que o amava demais.

Quando pensamos em fandom criminoso, pensamos exatamente nesta imagem. O stalker, a obsessão, o fim trágico. Mas essa é só a versão mais fotogênica do problema, e provavelmente a menos comum. O crime de fandom que você conhece tem documentário na Netflix ou talvez um podcast de true crime. Tem rosto para apontar e, isso é conveniente porque enquanto o dedo aponta pro o fã/assassino do John Lennon, o fandom sai ileso.

Mas o fandom criminoso pode até vazar endereço e fabricar vários prints. Ele pode financiar uma briga de torcida no futebol. Distribui show em 4K achando que é ativismo cultural. Coordena denúncia em massa até sumir com o perfil de alguém. Tudo isso sem um único criminoso identificável, só milhares de fãs que estavam “defendendo o que amam.”

O sentimento constante de que há alguém atrás

No dicionário, fã é aquele que admira, mas na prática, fã é aquele que admira até o ponto em que admiração vira mapa, rotina vira vigilância e presença constante vira método. O stalking funciona assim também, como um fandom criminoso que não aprendeu o limite entre seguir alguém nas redes e seguir alguém de verdade.

No Brasil, esse comportamento só ganhou nome jurídico em 2021, com a Lei 14.132, que inseriu o Artigo 147-A no Código Penal e tipificou como crime a perseguição reiterada que ameaça a integridade física ou psicológica, restringe a liberdade ou invade a privacidade da vítima. Pena de seis meses a dois anos, o que significa que essa lei chegou tarde e chegou tímida demais.

Os casos já existiam faz tempo. Em dezembro do ano passado, um homem foi preso no Rio de Janeiro suspeito de perseguir Isis Valverde por mais de vinte anos. O caso de Débora Falabella vem se arrastando desde 2013, com medidas protetivas ignoradas e uma stalker presa em 2024 e solta logo depois por questões de saúde mental. 

Em 2024, Paolla Oliveira denunciou uma fã que passou anos se tornando figurante das mesmas novelas que a atriz para se aproximar dela, antes de evoluir para dezenas de mensagens diárias, ameaças e tentativas de invasão de espaços privados. 

O que esses casos têm em comum, além do óbvio, é que nenhum deles é sobre um estranho. Não é nem o caso de um homem perseguir uma mulher, ou o vice-versa, com outras intenções. Se fosse, este texto seria mais direcionado à questão da sexualização. Todas essas perseguições começaram com alguém que era obcecado demais, e o fandom sabe muito bem como transformar esse amor em pressão coletiva quando decide agir em grupo. 

Quando a torcida vira arma

Não se fala de fandom criminoso sem falar do mais violento de todos. Feche os olhos por um momento. Pensa em muito barulho, sinalizadores, muita fumaça. Agora abre, porque o que vem depois é real e tem nome.

O jogador conhecido apenas como Willian, antes de virar peça importante no Fulham, viveu um dos piores momentos de sua carreira numa passagem curta e para lá de conturbada no Corinthians. “Comecei a sentir minhas filhas oprimidas, as pessoas xingando nas redes sociais. Duas vezes eu fui na polícia para fazer Boletim de Ocorrência por causa de ameaças”, disse o jogador em  uma entrevista.

Se Willian ao menos conseguiu falar, Luan não teve nem essa distância. Outro nome do mesmo clube, foi retirado de uma suíte de motel na Zona Oeste de São Paulo por torcedores que o agrediram com tapas enquanto gritavam que ele estava “sugando o Corinthians”. Foram atrás dele num momento íntimo, num lugar que não tem nada a ver com campo, contrato ou desempenho. A fronteira entre ídolo e propriedade, naquela noite, não existia.

Vágner Love nem chegou a esse ponto. Foi atacado numa agência bancária em 2009 por três torcedores que desceram do carro, rasgaram sua camisa e foram embora. 

O futebol é o único fandom no qual a violência virou tradição com nome próprio, organização registrada e, às vezes, faixa na arquibancada comemorando. A torcida que financia, que pressiona, que aparece no motel às três da manhã, opera na lógica do amor incondicional, e o amor incondicional, quando não tem limite, é só outra palavra para controle.

O crime que parece divulgação

Isso nem passa pela cabeça da maioria como crime. Mas é. Existe um perfil no X dedicado a Taylor Swift com posts em altíssima qualidade, videoclipes em 4K, o melhor da cantora reunido e distribuído gratuitamente para milhões de fãs. Nenhum centavo vai para a artista. Nenhum processo vai para o perfil.

Kleber Mendonça Filho encontrou o roteiro de O Agente Secreto num camelô em Nova Iorque e postou agradecendo com emoji de coração. O roteirista de Moonlight passou por uma banca no México, viu o próprio filme à venda em DVD pirata e comemorou nas redes: “Mãe, nós conseguimos”.  Nenhum processo. Só um emoji de mãos erguidas e a constatação silenciosa de que a obra chegou aonde não chegaria de outro jeito.

Isso diz algo que a indústria prefere não admitir. A pirataria de fãs não mata a obra, às vezes a ressuscita. O show distribuído no Telegram chega aonde o streaming não chegou,  no plano que não cabe no orçamento, no país que não está na lista de territórios licenciados. É crime. É também, muitas vezes, o único meio de acesso que existe. E o artista, no fundo, sabe disso, mesmo que o departamento jurídico da gravadora finja não saber.

Mas entre o Mark David Chapman e o perfil anônimo que coordenou uma campanha de denúncia até sumir com a conta de alguém existe um espectro inteiro que ninguém quer nomear. Nomear seria admitir que o problema não é o fã que enlouqueceu. É a lógica do fandom criminoso que normaliza a vigilância como carinho, a pressão coletiva como lealdade e o crime como ativismo cultural.

John Lennon pediu que a gente imaginasse um mundo sem fronteiras. O fã que o matou tinha o disco em casa.

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