
Entre a tradição e a resistência à mudança
- 2 de abril de 2025
- comments
- Theillyson Lima
- Posted in Análises
- 0
O conservadorismo no entretenimento e como a resistência à inovação mantém a indústria refém de fórmulas ultrapassadas.
Julia Viana
O mercado do entretenimento sempre foi um reflexo dos valores sociais de sua época, oscilando entre momentos de inovação e períodos de resistência à mudança. Em pleno século XXI, é notável como o conservadorismo ainda exerce uma forte influência sobre a produção cultural, impactando a indústria cinematográfica, televisiva, musical e digital. Esse conservadorismo pode se manifestar de diversas formas: desde a perpetuação de padrões tradicionais de narrativa até a recusa em abordar temas considerados polêmicos.
Um exemplo clássico dessa resistência está na indústria cinematográfica de Hollywood, na qual as grandes produtoras hesitam em investir em histórias protagonizadas por personagens de minorias ou que desafiem narrativas convencionais. Filmes como Pantera Negra (2018) e Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo (2022) foram exceções bem-sucedidas, mas ainda enfrentaram dificuldades iniciais para serem produzidos e distribuídos.
Rejeição e a segurança financeira
Um dos principais fatores que impulsionam essa resistência é o medo da rejeição do público e, consequentemente, de perdas financeiras. Grandes estúdios e plataformas de entretenimento tendem a apostar em fórmulas seguras, investindo em remakes, continuações e franquias consagradas em detrimento de propostas originais e mais ousadas. Essa estratégia tem como objetivo manter uma base de espectadores fiéis e minimizar riscos, mas, ao mesmo tempo, limita a diversificação de vozes e narrativas.
A franquia Star Wars, por exemplo, tem sido alvo de críticas pela forma como tenta equilibrar inovação e tradição. Embora os novos filmes tenham introduzido personagens mais diversos, como Rey e Finn, parte do público conservador reagiu negativamente, resultando em campanhas de boicote e críticas nas redes sociais.
Embora essa abordagem proteja os investimentos, ela também resulta em um mercado saturado de histórias recicladas e previsíveis. A busca incessante por apelo comercial muitas vezes compromete a qualidade artística e a profundidade das narrativas, favorecendo produções que seguem fórmulas pré-estabelecidas em vez de explorar novas possibilidades criativas. Como consequência, talentos emergentes e ideias inovadoras enfrentam barreiras para ganhar espaço, deixando o público refém de um entretenimento que prioriza a nostalgia em detrimento da originalidade.
Representatividade do mercado
Outro reflexo do conservadorismo no entretenimento está na representação de gênero, raça e diversidade sexual. Embora haja um avanço na inclusão de personagens e histórias que reflitam melhor a pluralidade da sociedade, ainda há resistência por parte de determinados setores do mercado e do público. Algumas produções que ousam desafiar normas tradicionais são alvo de boicotes ou críticas acaloradas, demonstrando como uma parcela da audiência ainda reage negativamente à inclusão de novas perspectivas.
A série The Last of Us (2023), baseada no jogo homônimo, trouxe representações LGBTQIA+ e discussões sobre identidade de gênero. Apesar da aclamação da crítica, a série foi alvo de ataques de grupos conservadores que rejeitam tais mudanças.
Na teledramaturgia brasileira, a novela das 18h da TV Globo, Garota do Momento, ilustrou bem essa resistência. O romance entre os personagens Guto (Pedro Goifman) e Vinícius (Elvis Vittorio) foi interrompido de forma abrupta, com Vinícius recebendo a notícia de que seu pai estava com câncer e decidindo se mudar para os Estados Unidos para cuidar dele e estudar dança.
A mudança repentina da trama gerou discussões sobre representatividade LGBTQIA+ e levou a especulações de que a emissora optou por reduzir a relevância do casal na história para evitar reações negativas do público mais conservador. Apesar de a Globo afirmar que esse desfecho já estava planejado, o caso reacendeu o debate sobre a dificuldade de manter narrativas homoafetivas em produções televisivas populares.
Algoritmo da conservação
No universo do streaming, há uma aparente liberdade criativa maior do que nos meios tradicionais, mas ainda assim os algoritmos favorecem conteúdos que seguem padrões consagrados. Isso reforça a permanência de narrativas que já se mostraram bem-sucedidas, enquanto histórias mais experimentais ou subversivas podem encontrar dificuldades em conquistar espaço e visibilidade.
Plataformas como a Netflix, por exemplo, frequentemente cancelam séries inovadoras por falta de engajamento inicial, mesmo quando possuem uma base de fãs dedicada. Séries como Sense8, que abordava diversidade e inclusão de forma aberta, foram descontinuadas apesar da recepção positiva.
Indústria musical
A indústria musical também reflete esse fenômeno, especialmente na forma como artistas precisam equilibrar expressão pessoal e aceitação mercadológica. Muitos cantores e bandas optam por seguir tendências estabelecidas em vez de inovar artisticamente, temendo perder relevância ou espaço dentro do circuito comercial. Além disso, temas considerados polêmicos, como críticas sociais e políticas, nem sempre encontram apoio dentro das grandes gravadoras.
O rapper Childish Gambino, por exemplo, enfrentou resistência ao lançar a música This Is America, que aborda racismo e violência policial nos EUA. A música se tornou um sucesso, mas também gerou debates intensos sobre a politização da arte na música mainstream. Enquanto muitos aplaudiram a ousadia da canção e seu videoclipe impactante, outros acusaram o artista de exagerar na crítica social, mostrando como temas políticos ainda geram divisões no mercado musical. Mesmo assim, a repercussão da obra reforçou a importância da música como ferramenta de reflexão e mudança social.
Resiliência das fórmulas tradicionais
A resistência ao novo também se estende aos jogos eletrônicos, um setor bilionário que frequentemente aposta em mecânicas e narrativas já testadas. Apesar de haver espaço para inovação dentro dos games independentes, as grandes produtoras muitas vezes hesitam em modificar fórmulas lucrativas. Questões como a representação de minorias e a abordagem de temas mais profundos enfrentam barreiras, principalmente devido à pressão de comunidades que rejeitam mudanças na estrutura clássica dos jogos.
O jogo The Last of Us Part II (2020) enfrentou grande resistência por parte de jogadores mais conservadores devido à inclusão de personagens LGBTQIA+ e à subversão de expectativas narrativas. O game foi bombardeado com críticas negativas antes mesmo do lançamento oficial, evidenciando como parte do público ainda rejeita mudanças significativas na indústria dos jogos.
A resistência à inovação nos jogos eletrônicos evidencia como o conservadorismo impacta até mesmo um dos setores mais dinâmicos do entretenimento. Grandes produtoras preferem apostar em fórmulas já testadas, priorizando a segurança financeira em detrimento da diversidade de narrativas e mecânicas. Esse cenário demonstra que, apesar dos avanços tecnológicos e da crescente demanda por representatividade, a indústria dos games ainda enfrenta barreiras culturais que limitam sua evolução criativa.
A escolha pela mesmice
Muitos criadores e produtores acabam escolhendo não inovar, não apenas por medo da recepção do público, mas porque internalizaram a ideia de que seguir padrões tradicionais é a única forma segura de garantir sucesso. Dessa maneira, mesmo aqueles que teriam liberdade criativa para experimentar novos formatos e narrativas acabam por se autocensurar, preferindo histórias que se encaixam dentro do que já foi aceito e consolidado. Esse ciclo de acomodação à tradição reforça o domínio do conservadorismo dentro do mercado do entretenimento.
Além disso, há um número significativo de estúdios, emissoras e produtoras que optam por não explorar novas abordagens simplesmente porque não acreditam na necessidade de mudança. Para essas empresas, o conservadorismo não é apenas uma resposta ao mercado, mas uma posição ideológica. Elas não se veem como resistentes à inovação, mas sim como guardiãs de uma tradição que, segundo sua visão, não precisa ser alterada.
Mesmo entre o público, essa resistência à inovação pode ser vista. Muitos consumidores preferem assistir ao que já conhecem e rejeitam novidades simplesmente porque estas desafiam suas expectativas. O sucesso de remakes e sequências em comparação a filmes originais demonstra como parte do público está mais disposta a consumir conteúdos familiares do que se arriscar com algo novo. Esse comportamento reforça a ideia de que o conservadorismo no entretenimento não vem apenas das empresas, mas também da audiência, que muitas vezes rejeita mudanças mesmo quando estas poderiam trazer maior inovação.