
Donald Trump e o futuro da política
- 2 de abril de 2025
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- Theillyson Lima
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O presidente dos Estados Unidos é a representação perfeita do líder político conservador adaptado à modernidade – e isso é preocupante.
Victor Bernardo
“Estão comendo os cães e gatos. Estão comendo os animais de estimação das pessoas que moram lá.”
Essa não é uma expressão idiomática, nem uma figura de linguagem. Se trata do então candidato, hoje presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acusando imigrantes de – literalmente – comer animais de estimação dos moradores da cidade de Springfield, Ohio. A declaração, sem nenhuma prova, foi dada em um debate presidencial em setembro do ano passado. Apesar de ser rapidamente desmentida pelo apresentador, passou a ser reproduzida por apoiadores do republicano.
Na semana seguinte à acusação falsa, a cidade recebeu diversas ameaças de bombas, tendo que evacuar escolas e prédios governamentais. Residentes haitianos também foram vítimas de vandalismo e relataram sofrer assédio e ataques racistas.
Trump e sua inconsequência são a representação perfeita do que acontece quando grandes líderes políticos reproduzem os discursos do movimento ultraconservador, do qual o presidente norte-americano é o maior expoente.
Da retórica à realidade
Um discurso não é simplesmente uma coleção de palavras organizadas de forma persuasiva, especialmente quando se é o presidente dos Estados Unidos. O que Donald Trump fala, geralmente se torna realidade. E costuma ter consequências desastrosas.
Não existe situação mais emblemática para representar isso do que os ataques ao Capitólio em 2021. O republicano nunca reconheceu a derrota para Joe Biden nas eleições presidenciais de 2020, alegando que houve fraude. Assim, entrou com diversos pedidos de recontagem de votos e perdeu vários processos na Justiça relativos a esse pleito.
No dia 6 de janeiro de 2021, Trump fez um discurso criticando o então vice-presidente Mike Pence por não concordar com seu esquema de questionamento aos resultados. Após a fala inflamada viralizar nas redes sociais, seus apoiadores marcharam para o Capitólio, símbolo do poder nos EUA e sede do Congresso, onde acontecia uma sessão para certificar a vitória de Joe Biden, numa clara tentativa de ameaçar a democracia.
De volta ao poder, Trump já prometeu perdoar os que foram condenados pela invasão.
Mais uma vez reproduzindo discursos conservadores, o presidente norte-americano também já afirmou que as mudanças climáticas são “uma das maiores fraudes de todos os tempos”, incentivando o uso de combustíveis fósseis e fechando agências de regulamentação climática.
Coincidência ou não, a Global Atmospheric Research – base de dados independente sobre a emissão de poluentes no planeta – indicou que as emissões de CO2 dos EUA tiveram um aumento durante o primeiro mandato de Trump, depois de uma sequência de quedas até 2015.
Trump critica o aborto, e os juízes conervadores que ele colocou na Suprema Corte ajudam a revogar o direito à interrupção legal da gravidez. A naturalização de gestos e falas nazistas permite que grupos radicais saiam das sombras. Discursos de supremacia geram conflitos em cidades com muita divisão racial. Os exemplos são inúmeros, e comprovam: o extremismo conservador na retórica de Donald Trump se reflete constantemente na vida real.
Acontece no EUA, acontece no resto do mundo
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) já afirmou algumas vezes que o que acontece nos EUA se repete no Brasil. Será preciso esperar 2026 para entender o real impacto da vitória de Donald Trump e sua onda conservadora no futuro da política brasileira. Mas, o que já é certo, é que isso tem ressoado com a extrema-direita ao redor do mundo.
Javier Milei, presidente da Argentina, foi o primeiro líder estrangeiro a conversar com Trump depois que ele venceu as eleições, em 5 de novembro. O norte-americano o convidou para sua cerimônia de posse – quebrando protocolos, inclusive – e disse admirar seu trabalho na Argentina, onde mais da metade da população está abaixo da linha da pobreza.
A admiração parece recíproca, uma vez que Milei anunciou que pretende endurecer as fronteiras argentinas e ameaçou impor diversas taxas em negociações com outros países, duas medidas já adotadas por Trump nos primeiros meses de governo.
Nayib Bukele, presidente de El Salvador, já recebeu visitas de grandes nomes do partido Republicano, e também foi convidado para a posse do presidente norte-americano. Marco Rubio, Secretário de Estado dos EUA, elogiou o governo salvadorenho por reduzir drasticamente a taxa de homicídios. Para atingir esse objetivo, Bukele impôs um estado de exceção que já dura mais de dois anos e fez do país aquele com a maior taxa de prisões do mundo.
Se aproveitando disso, Trump enviou alguns deportados ao país da América Central, onde relataram torturas e violações dos direitos humanos.
Poucas semanas antes das eleições da Alemanha, no fim de fevereiro, Elon Musk declarou seu apoio ao partido extremista Alternativa para a Alemanha (AfD). O bilionário dono do X/Twitter é tido como um dos responsáveis pela vitória de Trump, e faz parte do seu governo. Na Alemanha, Musk fez um discurso em um comício da sigla conservadora, atacando o então chanceler Olaf Scholz e indicando que o país deveria “superar a culpa pelo passado”.
A AfD terminou a eleição na segunda posição, com 20,8% dos votos, logo atrás de outro bloco conservador, a União Democrata Cristã, que obteve 28,6%.
Na França, o presidente dissolveu a Assembleia Nacional do país e convocou novas eleições após perder na eleição do Parlamento Europeu para a sigla de extrema direita Reagrupamento Nacional, que também tem o apoio de Musk. Partidos de esquerda e centro criaram uma espécie de “corrente sanitária”, impedindo a maioria do partido extremista. Ainda assim, a sigla conservadora foi a que mais cresceu.
Trump, conservadorismo e o futuro da política
O crescimento do conservadorismo na política não é novidade e, obviamente, não é inteiramente culpa de Trump. Nomes como Bolsonaro, no Brasil, Giorgia Meloni, na Itália, Marine Le Pen, na França e Alice Weidel, na Alemanha, são forças políticas que caminham com as próprias pernas, e não dependem do endosso do presidente norte-americano.
Apesar disso, é impossível minimizar o impacto que o maior líder do ocidente tem no direcionamento da política global. É importante lembrar que essa onda de conservadorismo ganhou força justamente com a primeira vitória de Donald Trump, em 2016, e cada uma dessas figuras tem estilos de comunicação semelhantes aos do norte-americano. Essa forma de fazer política tem características especialmente preocupantes quando aliada às possibilidades que a internet traz.
Na hipocrisia de Trump ao culpar imigrantes por todos os problemas, enquanto é casado com uma, ou no discurso transfóbico de Weidel mesmo fazendo parte da comunidade LGBT, o conservadorismo não precisa fazer sentido. Basta defender uma bandeira, apelar para alguns fantasmas e conseguir certo apoio popular. A internet se responsabiliza pelo resto. Com ou sem ajuda das big-techs, e com adeptos muito engajados, o discurso – muitas vezes falso – se prolifera com facilidade.
Donald Trump entendeu isso perfeitamente, e já tem pupilos pelo mundo todo. Os “fãs” desses políticos os defendem vigorosamente de tudo, afinal, eles não erram. Foi-se o tempo em que o culto à personalidade era exclusividade de regimes ditatoriais. Hoje, figuras quase messiânicas angariam uma legião de apoiadores e vencem eleições nas maiores democracias do mundo.
E, quando perdem, tentam mudar as regras. Trump e Bolsonaro tentaram golpes de estado ao deixarem o poder, por exemplo. Esse pensamento extremo – além de espalhar ódio, racismo e xenofobia -, é uma ameaça à própria democracia. Que o dono do cargo de maior importância na geopolítica mundial o defenda sem o menor pudor e com tanto apoio é, no mínimo, preocupante. O futuro parece sombrio.