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Apaga as mensagens, pelo amor de Deus

  • 18 de março de 2026
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  • Theillyson Lima
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O placar, o artilheiro e o árbitro têm nome, mas o abuso sexual no esporte, não.

Vefiola Shaka

O esporte de formação no Brasil é alimentado por uma promessa de ascensão social. Famílias investem em chuteiras, mensalidades e viagens porque o filho talentoso pode ser o atalho para uma vida diferente. É aquele sonho típico de seguir os passos do Ronaldo, do Messi, até do Neymar. O treinador, nesse cenário, não é apenas quem ensina a chutar ou nadar. É o guardião do futuro. É a figura que inspira autoridade — que, se mal utilizada, pode acarretar em comportamento predatório. 

A chave para que este ciclo se reproduza é a ideia de que figuras de autoridade possuem direito inato sobre o corpo alheio. O desafio da imprensa é expor esse nó.

Repetir, elaborar, repetir

O mecanismo se repete com precisão desconcertante em todos os casos documentados: aproximação afetiva, uso da autoridade esportiva, presenteamento, pedido de sigilo, exploração do sonho como moeda de troca. O abusador raramente age por impulso. Ele constrói, ao longo de meses, uma relação de dependência emocional com a vítima e com a família, tornando-se presença indispensável antes de se tornar ameaça. É o que especialistas em proteção infantil chamam de grooming, um processo deliberado de manipulação que transforma a confiança conquistada em instrumento de controle. 

No esporte, esse processo encontra condições excepcionalmente favoráveis: a hierarquia entre treinador e atleta é naturalizada desde cedo, a obediência é treinada como virtude e o corpo da criança já é, por definição, objeto de avaliação e correção.

Fábio Adamo, condenado em 2025 por assediar meninos entre 10 e 16 anos, usava sua conexão com o futebol de base para se aproximar de garotos que tinham no esporte a única perspectiva de futuro. O treinador catarinense, condenado a 65 anos, presenteava atletas com chuteiras e celulares e prometia a faixa de capitão como recompensa por “contato mais próximo”. Esse último não tem o nome exposto em nenhuma matéria. Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica, dormia na mesma cama de atletas em viagens e deixava filmadoras em banheiros. Larry Nassar abusou de pelo menos 265 ginastas americanas durante 24 anos, muitas delas medalhistas olímpicas. Petr Vlachovsky, eleito o melhor treinador do futebol feminino tcheco, escondeu câmeras em vestiários por quatro anos.

Quando 265 vítimas num país, 40 em outro e dezenas em mais outros compartilham o mesmo roteiro, o que a imprensa tem à frente não é uma sequência de escândalos. É um padrão.

A estrutura jornalística

A cobertura, no entanto, insiste em tratar esses casos como episódios isolados. Cada um tem começo, meio e fim: o crime, a denúncia, a condenação. A moldura do escândalo permite personalizar o crime em uma figura identificável e encerrar a história com a sentença, como se a punição do indivíduo esgotasse o problema. Essa estrutura narrativa não é neutra. Ela tem uma consequência direta: poupa as instituições de responder pelas perguntas que realmente importam. Como Adamo seguiu circulando em campeonatos sub-16 com denúncias registradas desde 2019? O que a federação tcheca fazia nos quatro anos em que Vlachovsky operava a câmera? Por que a USA Gymnastics manteve Nassar em funções durante décadas enquanto ginastas relatavam desconforto com seus “procedimentos”? Quem sabia, quando soube e o que fez?

Essas perguntas raramente aparecem porque exigiriam um trabalho diferente do que a lógica de pauta costuma admitir, fontes dentro das federações, acesso a atas de reuniões, acompanhamento de processos disciplinares que tramitam em silêncio. É mais simples, e mais rápido, publicar a nota.

Essa omissão é mais visível no tratamento das respostas institucionais. Em praticamente todas as coberturas disponíveis, a declaração da federação ou do clube aparece como encerramento do texto, invariavelmente alguma variação de “a entidade repudia qualquer forma de violência”. Ela é publicada sem o ceticismo mínimo que qualquer apuração exigiria. A CNN Brasil reproduziu a declaração do presidente da federação tcheca de que a entidade “não tratou desse tipo de caso no passado” sem formular a pergunta que ela impõe. Então o que faziam enquanto um treinador filmava atletas menores por quatro anos? 

A Confederação Brasileira de Ginástica divulgou nota celebrando o banimento de Lopes como “a primeira decisão deste nível na esfera esportiva do Brasil”, e os veículos a publicaram com neutralidade, sem perguntar o que acontecia antes dessa primeira vez, nem por que ela demorou tanto. Neste contexto, passar a olhar com mais atenção para esses ambientes fechados, considerando os precedentes, é uma mudança de postura prudente.

Há ainda um silêncio estrutural que a imprensa raramente nomeia, o abuso sexual no esporte contra meninos é sistematicamente subnoticiado porque a homofobia funciona como aliada do abusador. A vítima não denuncia por medo de ter sua orientação sexual questionada, de ser responsabilizada pelo que sofreu ou de perder o lugar que o esporte ocupa na sua vida e na da sua família. 

No caso Adamo, uma mãe que denunciou em 2019 relatou ao UOL que pessoas próximas perguntaram, após o caso vir à tona, se o filho era gay. O menino tinha 11 anos quando sofreu o abuso sexual no esporte. Em outro caso, o pai de uma outra vítima de Adamo pediu que a situação não fosse levada adiante. Chegar ao nível de pedir : ” Não, não, não, não. Não leva adiante, não conta para ninguém, pelo amor de Deus”.

Outro perguntou se o filho “arrumou um jeito de trazer dinheiro” com as transferências via Pix. 

O estigma não é um efeito colateral do sub noticiamento, é parte do mecanismo que o sustenta, e a imprensa raramente o examina como tal. O abuso sexual no esporte só virou pauta quando a condenação foi expressiva o suficiente para entrar em uma pauta já montada.

Depois da sentença vem o esquecimento

O problema se agrava depois da sentença. O ciclo de vida da notícia termina com o placar final, e o que acontece depois raramente tem acompanhamento. Fernando de Carvalho Lopes foi condenado em 2022, teve a pena reduzida em 2023 e em 2024 o GE revelou que ele vivia em Portugal há pelo menos um ano com passaporte vencido, sem ter comunicado a saída do país às autoridades brasileiras. 

A maioria dos veículos que cobriu o caso em 2018 não publicou nada sobre a fuga. Vlachovsky aguarda com pena suspensa enquanto a Fifpro pede banimento global à FIFA e à UEFA sem resposta. As jogadoras que foram filmadas sem saber durante quatro anos declararam que vivem com medo constante de estar sendo monitoradas. Essa declaração foi publicada. Não foi acompanhada.

A imprensa por si só pode não ser o que vai extinguir esses crimes, mas pode representar  uma pequena luz para que eles venham a público. Afinal, para que servem os jornais se não conseguem cumprir minimamente com seu papel?

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