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O primeiro turno acabou mas a campanha não saiu das ruas

  • 21 de outubro de 2026
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Santinhos no chão, pacotes de bondades e votos de última hora, o que sobra da pressa em agradar o eleitor?

Vefiola Shaka

Na manhã seguinte ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, quem acordou primeiro não foram os candidatos. Foram os trabalhadores da limpeza, que recolheram toneladas de santinhos e papéis de “colinha” espalhados pelas ruas. Promessas impressas viraram lixo antes mesmo de o resultado fechar, e coube a quem nunca apareceu nos palanques apagar os rastros da festa. É essa a imagem que a campanha deixa e que o noticiário ocupado com o placar quase não mostrou.

Os números mostram uma eleição apertada neste ano. Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos, e Lula (PT) com 45,16%. São 1,87 pontos de diferença, cerca de 2,2 milhões de votos. O segundo turno é em 25 de outubro, e mais de 33 milhões de eleitores nem apareceram para votar. 

Uma eleição contada como corrida de cavalos

Uma eleição parece cada vez mais com uma corrida de cavalos. Os candidatos entram nos boxes, as portas se abrem ao mesmo tempo e a campanha dispara pela pista. No primeiro turno, cada um corre para ficar à frente, mas os jóqueis, que são os marqueteiros e coordenadores, controlam o ritmo para guardar energia para os metros finais, que é o segundo turno. Vence quem cruzar a linha primeiro, desde que ninguém tenha atrapalhado o caminho do outro de forma injusta. É aí que a gente entende que o jogo vai além do esporte, porque quem assiste também está na pista. Quando o noticiário narra a disputa só como placar, o eleitor vira plateia de arquibancada.

A imprensa acordou na segunda-feira pós primeiro turno tão surpresa quanto o país. Veículos internacionais lembraram que as pesquisas indicavam Lula à frente, e a Reuters citou analistas que viram parte do desempenho de Flávio como voto de protesto. A palavra do dia foi “virada”, e o resultado passou a ser narrado como placar de jogo, quem está na frente, quem precisa correr atrás.

Quem olhou além do placar foi o cientista político Renato Dolci, ouvido pela Revista Esquinas. Ele leu o primeiro turno em dois eixos ao mesmo tempo, esquerda contra direita e política tradicional contra movimentos antissistema. Para ele, o recado de mudança dirigido ao PT existe, mas não é inteiramente programático. Já no noticiário nacional, o debate ficou preso a dois nomes. Na avaliação do ombudsman do O Povo, as agendas e estratégias de Flávio e Lula pautaram a cobertura da semana. Quando todos os veículos olham para o mesmo lugar, a surpresa do domingo vira certeza na segunda, e a cautela some.

As bondades de última hora e a escala 6×1

Enquanto o noticiário discutia o placar e informava o público sobre, o governo começou a mexer os pauzinhos novamente. Passado o primeiro turno, ampliou o anúncio de medidas populares. Foram zerados os impostos sobre a gasolina, prometida a ampliação do Pé-de-Meia a universitários e anunciado um projeto para facilitar a vida dos MEIs. O impacto estimado é de R$ 25,8 bilhões até 2027.

Não é ilegal, e talvez nem seja mau, mas o calendário consegue falar por si mesmo. Quando os benefícios chegam depois de uma votação apertada e antes de outra, fica difícil separar política pública de estratégia eleitoral. O eleitor não é bobo e percebe a coincidência.

Outro acontecimento foi o da escala 6×1 que virou a marca dessas eleições. Por um lado, Lula a defendeu na Avenida Paulista, em ato da UNE que marcou o quinto dia de mobilizações pela reeleição. Por outro lado, Flávio Bolsonaro votou a favor da PEC que acaba com a escala, de forma remota, na quarta-feira (14). O candidato resolveu nos últimos acréscimos do segundo tempo do jogo mudar de lado e apoiar a PEC. No final das contas, a proposta foi aprovada em dois turnos, com 75 votos a favor e um contrário.

Só que o histórico de Flávio nessa pauta tem mais curvas do que uma estrada de serra. Uma semana antes da aprovação da PEC pela Câmara em maio deste ano, ele disse que a proposta tinha “grande carga de hipocrisia e interesse nas eleições”. Em agosto, passou a defender um modelo em que o trabalhador escolhe a própria jornada. Na semana passada, acusou Lula de oportunismo por tentar acelerar a votação em pleno segundo turno. A mudança repentina veio na terça-feira, depois de uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e rompeu com o discurso que o candidato mantinha desde o início da tramitação. Coincidência? Aí surgem as teorias de conspiração. O filho recebeu a benção do pai sobre a decisão, ou pediu dicas? Talvez isso seja apenas uma coincidência mesmo e não tenha a ver com a situação.

O Congresso depois das urnas

A votação da PEC mostra o outro lado do primeiro turno, o Congresso que saiu das urnas. No Legislativo, a reação foi de sobrevivência. O PL elegeu 121 deputados e 19 senadores e terá as maiores bancadas das duas casas. Hugo Motta procurou o centrão e a esquerda para garantir a reeleição na Câmara. Deputados do PT já defendem apoiá-lo para isolar o PL. O efeito apareceu em plenário. 

A Câmara aprovou o perdão de dívidas dos MEIs por 461 a 4. Na votação da PEC, um microfone aberto flagrou Davi Alcolumbre ao lado do líder do PT, Camilo Santana, perguntando, sorrindo, “Eu não falei que ia dar certo?” Para a coluna de Eduardo Gayer, no SBT News, a bancada do PL empurrou o centrão para o colo do governo antes do segundo turno. Parte das bondades, portanto, não saiu só do Planalto. O Congresso votou com medo do que vem depois. 

Rua para a direita, tela para a esquerda

A mobilização não parou no domingo da votação para os dois partidos. Nikolas Ferreira convocou o “Bloquinho do 22” para o domingo (18) em várias regiões do país, em apoio a Flávio. Na Paulista e em outros estados do Brasil, houve trio elétrico, artistas, deputados e governadores reeleitos apoiando Bolsonaro. A política brasileira virou festa, com música funk, camisetas da seleção brasileira e coreografia.

Se a direita ocupou a rua, a esquerda correu para a tela. A campanha de Lula montou uma sala no comitê em Brasília para reunir influenciadores de esquerda e jovens eleitos. O próprio presidente avaliou que era “a campanha menos organizada” de que já participou desde 1989. Os simpatizantes do partidos também participaram em passeatas, mas a principal movimentação foi a ajuda que veio de fora do comitê. Perfis de fãs de artistas como Taylor Swift e BTS começaram a se mobilizar logo após a definição do segundo turno. São cerca de 500 fã-clubes, e a oposição questionou se o movimento era tão espontâneo quanto parecia. Famosos como Anitta, Marina Sena, Carla Madeira, Ingrid Guimarães participaram do movimento de “fazer o L” em stories ou posts nas redes sociais, entre muitos outros artistas brasileiros. 

Do outro lado, o PL reuniu influenciadores para tentar derrubar o canal de WhatsApp que Janones transformou no “Exército de Lula”. A pergunta é se isso é mobilização ou vitrine porque a curtida não vira voto sozinha, e quem organiza a fila na urna ainda é a estrutura de rua. 

Um segundo turno que engoliu o resto

O primeiro turno decidiu muito mais do que a Presidência. Houve análises sobre o novo Congresso e sobre os governadores eleitos num só turno, mas a pauta da semana foi das agendas dos dois candidatos. Dolci chama a atenção para o motivo. Para ele, o segundo turno é “muito mais presidencializado”, e o resultado regional não pode ser projetado mecanicamente para ele. A imprensa fez exatamente essa projeção. Governos estaduais e cadeiras no Senado, que mexem com o dia a dia do eleitor, saíram da manchete assim que a disputa virou Lula contra Flávio. 

Em uma tentativa para contar os números de matérias sobre as eleições em relação ao presidente são inúmeras, sendo elas em portais de notícia conhecidos ou portais locais. A maioria das matérias ou produções jornalísticas sobre o governador é sobre quem são os candidatos, ou sobre reeleição no segundo turno e não se tratam de muita profundidade. 

Foi dado palco a deputados eleitos e senadores que tiveram uma participação marcante nas eleições. O caso da deputada estadual Eduarda Campopiano (PL), a mais votada de São Paulo, com 1,96 milhão de votos, rendeu uma enxurrada de textos. A BBC News Brasil apontou que projetos que ela apresentou como vereadora em Praia Grande reproduzem propostas de outras casas legislativas, com referências a cidades erradas. Já o caso do deputado estadual eleito Felipe Vasques (PSDB), do Ceará, passou longe de receber tanto palco nos noticiários. 

Em menos de 24 horas depois de eleito com 48.104 votos, ele foi alvo de uma operação da Polícia Federal que investiga suspeitas de crimes eleitorais e peculato. Menos de 10 textos jornalísticos foram publicados sobre ele, três sendo de UOL, G1 e Metrópoles e o resto de jornais locais. Os dois são eleitos com questões ligadas ao exercício do cargo, mas um virou pauta nacional e o outro ficou, em grande parte, na imprensa regional. 

No fim das contas, o problema não é mobilizar ou viralizar, é o que sobra depois. Os santinhos viram lixo, as bondades viram promessa e os votos viram discurso. A pergunta da epígrafe fica no ar, e vale devolvê-la ao eleitor. 

Desordem, desordem, desordem! De quem é essa desordem? De quem a produz nos palanques, de quem a financia com os votos ou de quem a varre na manhã seguinte?

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