• Home
  • Sobre o Site
  • Quem Somos
  • Edições Anteriores
Log In

  • Home
  • Sobre o Site
  • Quem Somos
  • Edições Anteriores

HomeAnálisesO espetáculo antes do voto
Politico medindo

O espetáculo antes do voto

  • 10 de setembro de 2026
  • comments
  • UCB - UNASP-EC - Victor Henrique Bernardo
  • Posted in Análises
  • 0

O show que a política usa para não parecer política.

Luisa Oliveira

“Nosso sobrenome é Brasil da Silva, Vale uma nação, vale um grande enredo Em Niterói, o amor venceu o medo” , Acadêmicos de Niterói, 2026 

A política brasileira sempre teve um pé no palco. Antes de ser debate, projeto de governo ou promessa de campanha, ela é, para boa parte do eleitorado, uma sucessão de imagens, a bandeira erguida, o trio elétrico tocando, o candidato dançando um passinho, o jingle repetido até grudar. A lei proíbe o showmício, apresentação de artistas famosos em comícios para a petição de votos e eleger candidatos nacionais ou municipais, desde 2006, mas o espetáculo não desapareceu, apenas mudou de formato. Trocou o palco fixo pela dancinha viral, o show contratado pela homenagem cultural, o comício tradicional pelo microfone emprestado em cima de um trio já armado para outra finalidade.

Dois episódios do início da campanha política de 2026 resumem bem esse impasse, o desfile que homenageou Lula no Carnaval carioca, seguido pela presença de Flávio Bolsonaro na Festa do Peão de Barretos. Em ambos os casos, o espetáculo dominou as imagens, e a explicação sobre o que estava realmente em jogo, do ponto de vista eleitoral, ficou em segundo plano.

Dois caos 

Em fevereiro, a Acadêmicos de Niterói, estreante no Grupo Especial do carnaval carioca, levou para a Sapucaí um samba-enredo inteiro dedicado à trajetória de Lula, relembrando sua origem humilde em Pernambuco até a chegada à Presidência. Lula não desfilou, mas acompanhou a apresentação em um camarote, e a homenagem virou imediatamente alvo de questionamento, partidos como Novo e Missão entraram com pedidos de liminar no TSE, alegando que o desfile ultrapassava o caráter cultural e configurava propaganda eleitoral antecipada. O próprio presidente reagiu às críticas dizendo que não teve participação na composição do samba nem nos carros alegóricos, e que a homenagem era, para ele, sobretudo um tributo à sua mãe, Dona Lindu.

O Carnaval foi só o início de uma sequência de aparições de Lula em eventos populares nordestinos ao longo do ano, incluindo passagens por festas em Salvador, um evento político nos 46 anos do PT na Bahia e uma esperada presença no tradicional Galo da Madrugada, no Recife, a convite do prefeito João Campos. Já em agosto, a campanha eleitoral oficial abriu com um comício na Arena das Dunas, em Natal, reunindo cerca de 20 mil pessoas, o primeiro grande ato de Lula fora do eixo Sul-Sudeste. A escolha do Nordeste não foi acidental, é a região historicamente mais fiel ao petista, e cada aparição em festa popular, samba-enredo ou comício de massa reforça essa base antes mesmo de qualquer debate sobre propostas de governo.

Do outro lado do espectro político, o mesmo roteiro se repetiu em Barretos. No dia 22 de agosto, durante a 71ª edição da Festa do Peão, considerada o maior rodeio da América Latina, Flávio Bolsonaro discursou no palco principal do evento diante de dezenas de milhares de pessoas, ao lado do governador Tarcísio de Freitas, do prefeito de São Paulo Ricardo Nunes e de nomes como Nikolas Ferreira. Tarcísio apresentou o senador como “herdeiro” político de Jair Bolsonaro, e Flávio se declarou, em discurso, o “futuro presidente do Brasil”. A campanha política de Lula reagiu movendo uma ação no TSE pedindo a cassação da chapa de Flávio, alegando abuso de poder econômico e argumentando que o evento, patrocinado por empresas privadas e por órgãos estatais, foi transformado em um verdadeiro showmício, com locutor anunciando o candidato como se fosse a atração principal da festa.

Os dois episódios têm em comum a mesma engrenagem, um evento cultural, popular e originalmente despolitizado, o Carnaval de um lado, o rodeio de outro, viram palco de disputa presidencial, e a fronteira entre homenagem, propaganda e showmício proibido passa a depender de interpretação jurídica. É justamente esse ponto, o mais complexo de todos, que a cobertura de mídia menos se dispõe a explicar.

O espetáculo em escala municipal

Como se não bastasse de quatro em quatro anos, showmicios nacionais chamando atenção. Ano após ano a esfera municipal que usa seu gasto público com shows, se torna cada vez mais discreta. Pequenas prefeituras pelo país vêm destinando somas expressivas à contratação de artistas para festas locais, quase sempre sob a modalidade de inexigibilidade de licitação, mecanismo que dispensa concorrência quando o artista é considerado “consagrado”, mas que na prática abre espaço para pouca transparência. Em Juara (MT), a prefeitura destinou R$ 1,042 milhão a apresentações musicais para a Expovale 2026.

Casos mais graves mostram o desequilíbrio entre espetáculo e capacidade fiscal. Em Santa Bárbara do Tugúrio (MG), o Ministério Público questionou na Justiça R$1,8 milhão em contratos para shows na Festa da Banana,  valor que supera toda a arrecadação própria estimada do município, financiado por remanejamentos que tiraram recursos de saúde, educação e infraestrutura.

Episódios assim levaram Minas Gerais a aprovar, em agosto de 2026, uma lei estadual que impõe tetos e regras de transparência para esse tipo de gasto. O paralelo com o espetáculo eleitoral é direto, assim como o showmício presidencial se diz homenagem cultural para escapar da lei, o show municipal se traveste de festa tradicional para escapar do escrutínio orçamentário, e o público aplaude o palco sem que ninguém explique quem pagou a conta. E o habitante que foi só admirar o artista sai de lá tendo ouvido um político explicar, no microfone, que sem o voto dele naquela prefeitura, aquele momento cultural nem existiria mais. 

Redes sociais

Nas redes, o espetáculo político vira meme antes de virar notícia. Trechos do desfile da Acadêmicos de Niterói circularam recortados, com foco na ala que representava “neoconservadores” em latas de conserva, imagem que gerou reação de setores evangélicos, mas que raramente veio acompanhada de qualquer explicação sobre por que aquela homenagem estava sendo questionada na Justiça Eleitoral. Da mesma forma, os vídeos de Flávio Bolsonaro sendo apresentado como “herdeiro” no palco de Barretos circularam como qualquer conteúdo de show sertanejo, comentados por quem talvez nem soubesse que aquele mesmo instante seria, dias depois, o centro de uma ação judicial por abuso de poder.

Outros perfis, mais analíticos, tratam esses gestos como estratégia de marketing pura, discutindo alcance, engajamento e algoritmo, como se o samba-enredo ou o discurso no rodeio fossem apenas produtos a serem testados em público. Fala-se de conquista do Nordeste, de aproximação com o público do agronegócio, de geração de imagem, mas quase nunca se explica o que esses gestos tentam esconder ou revelar sobre a disputa eleitoral em curso. O espetáculo vira o assunto inteiro, e o eleitor que não acompanha política o ano inteiro sai sabendo cantar o samba-enredo ou repetir a frase de efeito do rodeio sem entender por que aquilo virou motivo de processo.

O jornalismo político tradicional

Enquanto isso, a cobertura de TV segue um caminho quase oposto, mostra o espetáculo, mas trata a controvérsia jurídica por trás dele com o mesmo vocabulário técnico usado para quem já acompanha o noticiário político há anos. Comentaristas experientes discutem abuso de poder econômico, propaganda eleitoral antecipada e inelegibilidade com a mesma naturalidade de quem comenta um lance de bola, presumindo que todo telespectador já sabe a diferença entre uma homenagem cultural, um discurso de agradecimento e um showmício proibido por lei desde 2006.

A cobertura da Festa do Peão de Barretos ilustra bem o problema. Os telejornais mostraram Flávio Bolsonaro no palco, ao lado de Tarcísio de Freitas, sendo aplaudido por uma multidão estimada em 60 mil pessoas, mas poucos pararam para explicar, no mesmo bloco, porque aquele discurso específico, dentro de um evento privado patrocinado com dinheiro público e privado, poderia configurar uso indevido de estrutura para fins eleitorais. O mesmo aconteceu com o desfile de Carnaval, mostrou-se a emoção da avenida, a letra do samba, a presença de Lula no camarote, mas a disputa judicial que envolveu a escola de samba ficou relegada a notas rápidas, sem o contexto necessário para quem não sabia, por exemplo, o que caracteriza propaganda eleitoral antecipada.

Assim como no futebol, o problema não é a falta de competência de quem está na bancada, é para quem esse conhecimento foi pensado. O jornalismo político tradicional cobre eleição atrás de eleição e ainda parte do princípio de que todo mundo que assiste ao vivo já entende os limites legais por trás da festa.

Portais de notícias

Se a TV trata o espetáculo com desdém técnico, os portais de notícias fazem o oposto, tratam a controvérsia jurídica como fato consumado, sem nunca explicar por que ela importa para quem só viu a festa. Manchetes anunciaram a ação da coligação de Lula pedindo a cassação da chapa de Flávio por causa de Barretos, e outras trataram das liminares contra o desfile da Acadêmicos de Niterói no Carnaval, mas quase sempre pressupondo que o leitor já sabe o que significa abuso de poder econômico, o que caracteriza um showmício ou por que uma escola de samba pode ser alvo de ação no TSE.

Colunistas especializados em política escrevem para leitores que já entendem a diferença entre uma homenagem espontânea e um ato político organizado, entre discurso de agradecimento e pedido explícito de voto. Para quem está chegando agora a esse universo, atraído justamente pela cena viral do samba-enredo ou do rodeio, essas nuances passam batido. Não existe, na maioria desses portais, uma seção fixa dedicada a explicar o básico da legislação eleitoral para quem nunca acompanhou de perto os limites entre cultura popular e propaganda de campanha política. A eleição chega, o público interessado cresce, e o texto continua escrito para quem já vota informado há anos.

Nunca foi sobre samba nem sobre boiadeiro. É sobre quem paga a conta do espetáculo e quem fica de fora da explicação. E é aí que a lei eleitoral perde força antes mesmo de ser aplicada, quando o showmício já aconteceu, já foi aplaudido, já virou meme, e só depois tarde demais para quem só queria ver o desfile,  alguém aparece para dizer que aquilo, na verdade, também era voto. 

Post Views: 9

Related Posts

comments
Análises

A Copa do Mundo preferiu que falassem mal dela do que ser esquecida

comments
Análises

O pop sempre tem um lugar nos grandes shows

comments
Análises

Super Bowl: o show do intervalo que ficou maior que o jogo

A Copa do Mundo preferiu que falassem mal dela do …

  • 10 de setembro de 2026
  • comments

Share this

0
SHARES
ShareTweet

About author

UCB - UNASP-EC - Victor Henrique Bernardo

Related Posts

comments
Análises

A Copa do Mundo preferiu que falassem mal dela do que ser esquecida

comments
Análises

O pop sempre tem um lugar nos grandes shows

comments
Análises

Super Bowl: o show do intervalo que ficou maior que o jogo

Brazilcore virou moda no exterior e vergonha no Brasil.
comments
Análises

Brazilcore e seu impacto pré-copa e pós-copa

Tags

  • #carnaval
  • #edição243
  • #eleição
  • artista
  • Brasil
  • política
  • showmício
  • voto

Comments

Copyright © 2019 Unasp Engenheiro Coelho