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A Copa do Mundo preferiu que falassem mal dela do que ser esquecida

  • 10 de setembro de 2026
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  • UCB - UNASP-EC - Victor Henrique Bernardo
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Show de intervalo adotado pela FIFA para a final da Copa do Mundo deixou a desejar e levantou críticos. 

Vitória Amábili

Pela primeira vez na história da Copa do Mundo o intervalo de 15 minutos, usado para o descanso dos jogadores entre o primeiro e segundo tempo, contou com um show. Com um nome familiar, e uma logística já conhecida do Super Bowl, o grande evento que ocorreu no meio tempo entre Argentina e Espanha reuniu atrações da música, como Justin Bieber, Madonna, BTS, Shakira e a curadoria de Chris Martin, do Coldplay. Entre os dois tempos da partida, o estádio MetLife, em Nova Jersey, ganhou um novo chão, novas cores e outra atmosfera.  

Uma edição histórica que chegou mudando o tempo de intervalo de 15 minutos para quase o dobro; adicionou paradas para a hidratação dos jogadores, por causa do calor extremo; estreou 48 seleções na fase de grupos e consequentemente a maior quantidade de times participantes de toda a história do evento, e além de tudo isso, contou com um show de intervalo, quebrando 96 anos de tradições. 

Com grandes mudanças na programação, com mais partidas e um intervalo marcado pela música pop, as perguntas que ficam são: como o público reagiu a essas inovações? Como a mídia retratou as novidades? Será que este é um novo normal da Copa, ou apenas um ano que ficará na história? A FIFA conseguiu superar ou não o Super Bowl? Este é o momento para você colocar o show do intervalo deste ano para tocar e ler esta análise. 

Críticas e críticas sobre o que nem importa

Além de ser usado pelos atletas para recuperação física, reposição de nutrientes e hidratação, o intervalo entre os dois tempos de partida é usado pela equipe técnica para reajustar as táticas e estratégias com os jogadores. Nestes poucos minutos, são apontados erros, acertos e mudanças técnicas na equipe, além de montar estratégias para o segundo tempo. Neste ano histórico, a FIFA quebrou anos de tradição e o próprio regulamento, ao adotar um intervalo no estilo do Super Bowl com cantores e performance, para a grande final entre Espanha e Argentina. No último ano, a FIFA testou este estilo de intervalo na final do Mundial de Clubes, e em 2026, o show de intervalo entrou na programação da Copa do Mundo. 

Para os fãs de carteirinha do futebol, as mudanças no intervalo instigaram as críticas ao evento que comemorou sua 23° edição. Nem a grande diversificação de artistas foi o suficiente para suscitar as críticas. Entre algumas polêmicas geradas por causa do show, estão a própria quebra de regra da FIFA; impacto nos jogadores, por prejudicar o reaquecimento e aumentar o risco de lesões e a americanização do futebol. Quando mencionado que o show da Copa do Mundo se assemelha ao Super Bowl, isto foi encarado de forma negativa por críticos do futebol. Para eles, este evento promove o espetáculo e a comercialização, deixando a essência do futebol de lado. 

De certa forma é engraçado observar que, na mídia, quem mais reclamou do aumento do intervalo não foram os técnicos, mas o público das arquibancadas. Talvez o que os leigos não entendem é que da mesma forma que o intervalo prolongado pode prejudicar os jogadores, ele também pode auxiliar o time inteiro a estruturar as estratégias para o segundo tempo. Será que por isso os técnicos não reclamaram? Além disso, se os amantes do futebol fossem reclamar do que realmente importa, eles não ficariam presos apenas aos minutos a mais do intervalo entre os dois tempos, e pensariam em criticar aquilo que realmente atrapalha o futebol. 

Superou, imitou ou gerou falsas expectativas? 

Parece muito ignorante comparar um show da Copa com o do Super Bowl, mas não se engane, eles divergem em muitos pontos. Primeiro o público. Enquanto o Super Bowl acontece apenas nos Estados Unidos, e é muito conhecido por ser a grande final da NFL, a Copa do Mundo acontece em cada edição em um país diferente, ou como neste ano, em três países. O público é muito distinto em número. Em uma comparação da revista Veja, é possível notar a diferença de telespectadores de ambos os eventos. Enquanto o Super Bowl reuniu uma audiência média de 127,7 milhões de pessoas em 2025, a abertura da Copa do Mundo chegou a mais de 1,2 bilhões de visualizações. E mesmo com todo esse alcance e fama, a FIFA, que organiza um evento global à cada quatro anos, precisou imitar um show que acontece apenas nos Estados Unidos.

Mas, apesar da FIFA ter em suas mãos a maior audiência, é o Super Bowl que se garante no valor líquido adquirido, e isto graças à comerciais e propagandas. Algumas propagandas exibidas no evento deste ano superaram o valor de US$10 milhões. Um valor exorbitante para apenas 30 segundos de comercial no Super Bowl. Já na Copa do Mundo, os valores podem variar de US$2 milhões até US$6 milhões pelo mesmo tempo de tela. Talvez a idéia de copiar o modelo dos Estados Unidos passe do intervalo para o valor cobrado pelas propagandas exibidas, afinal, quem iria querer perder todo este dinheiro? 

Agora, os artistas. O Super Bowl segue uma mesma linha na sua história com os shows de intervalo. Eles chamam apenas um artista que irá realizar uma programação de até 15 minutos na hora do intervalo entre primeiro e segundo tempo. Em algumas edições, mais de um cantor participou do evento, como à 10 anos atrás, com o show de Coldplay, Bruno Mars e Beyoncé. Por outro lado, a Copa do Mundo optou por uma diversificação de cantores, dividindo os quase 12 minutos de música entre 4 artistas completamente diferentes: Shakira, Madonna, BTS e Justin Bieber. Uma proposta legal, levando em conta que a Copa acontece no mundo todo, enquanto o Super Bowl se concentra nos Estados Unidos. 

Apesar disso, a proposta de intervalo semelhante ao Super Bowl deixou a desejar no dia do evento, afinal, como competir com quem um dia levou Michael Jackson aos palcos para performar e cantar com crianças? É óbvio que a FIFA nunca vai conseguir fazer isso de novo, mas ela vai sair perdendo enquanto escolher muitos artistas e esquecer de tornar o show pessoal e autêntico. O Super Bowl consegue ser tão assertivo neste aspecto que em 2023, a cantora e compositora Rihanna anunciou a sua segunda gravidez no show de intervalo. Ela performou, cantou e contou para o mundo que estava grávida. Claro que o Super Bowl utiliza momentos assim para marketing, e foi exatamente isso que aconteceu: ninguém esquece quando a Rihanna anunciou a gravidez, e nem onde ela fez isso. 

Quem ligou a TV na final da Copa se decepcionou ao ver que a grande quantidade de artistas impossibilitou que cada um deles realmente cantasse e mostrasse a própria identidade na programação. Será que a escolha de apenas um artista, como a Shakira, responsável por dar voz a música oficial da Copa neste ano, não tornaria o intervalo mais pessoal, dinâmico e performático? A artista já esteve presente nos dois eventos, e a presença de palco dela no Super Bowl supera muito à da Copa.

De uma idéia idiota para um fundo social 

A revista Veja publicou uma matéria antes do início da Copa, quando o presidente da FIFA, Gianni Infantino, deixou escapar a grande novidade que dividiu o público entre dois grupos: os que aprovam e os que não aprovam a implementação do show do intervalo na Copa. Antes mesmo do início do evento, internautas criticaram as novas escolhas para a edição da Copa deste ano, alegando que o novo formato era apenas uma promoção, e que o intervalo adotado é uma cópia do Super Bowl. 

Se vale tantas reclamações, algum motivo muito maior deve estar por trás. A FIFA divulgou as informações sobre o show de intervalo da final antes do dia marcado para a partida. Nas informações chaves do evento, é possível ler o propósito da inovação: apoiar o FIFA Global Citizen Education Fund, iniciativa que busca expandir o acesso à educação de qualidade e as oportunidades no futebol para crianças ao redor do mundo, através da arrecadação de 100 milhões de dólares. 

Para o vocalista do The Cure, o show foi uma “ideia idiota”, não por não concordar com a arrecadação de fundos, mas por conta da implementação de um show no meio da Copa do Mundo. O que para ele não fazia sentido nenhum, um dia educará a muitos com qualidade.

Além de que, a cada ingresso vendido, em todas as partidas de jogos da Copa do Mundo, US$1,00 foi revertido para o FIFA Global Citizen Education Fund. Todo o público que estava presente nos jogos pagou um pequeno valor para a iniciativa, mesmo sem saber, e o show que foi duramente criticado aconteceu também para promover esta ação. Vale tanto hate em algo com a intenção de gerar fundos para crianças ao redor do mundo? 

Cópia barata para benefício próprio 

Apesar da iniciativa de arrecadar fundos para a educação de crianças, os colaboradores do projeto não saem de mãos vazias. Antes mesmo da primeira partida rolar, o mundo já sabia que a FIFA iria faturar mais de R$66 bilhões com a Copa do Mundo, e que já estava pensando em expandir o torneio na próxima edição, em 2030. Apenas no jogo da final, a entidade máxima do futebol lucrou mais de R$4 bilhões. Se comparar com o objetivo de  arrecadação para o fundo de educação de crianças, o valor é extremamente maior. Isso não torna os colaboradores da FIFA vilões de crianças e do público que ama o futebol, mas revela algo maior que isso, que no final, ninguém faz nada se não ganhar algo em troca. 

O fundo social pode realmente ter sido a base dessa quebra na história da Copa, introduzindo um show no meio do intervalo e prolongando este tempo para arrecadar recursos para uma instituição. Por outro lado, isto também é utilizado como uma estratégia de marketing para chamar mais atenção de público, patrocínios e da mídia para o evento. Além de que, apesar de não se guiar pela escolha de apenas um artista, como no Super Bowl, esta decisão pode ter sido tomada para gerar mais alcance a aceitação dos diferentes públicos que assistem aos jogos da Copa do Mundo. 

A FIFA pode fazer tudo isso e explicar cada motivação: divulgar fundos sociais, colaborar com causas de crianças e escolher artistas diversos que conversam com o grande público espalhado ao redor do mundo, para ela, nada disso importa. Afinal, se o Super Bowl não gerasse tanta renda para todos os envolvidos na programação, a FIFA não estaria fazendo uma cópia barata do maior show de intervalo conhecido no mundo inteiro. 

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