
Tradição e disputa ideológica
- 2 de abril de 2025
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- Theillyson Lima
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Como a tradição e a disputa ideológica moldam a atuação da direita conservadora na política brasileira.
Amanda Talita
O conservadorismo político no Brasil é um fenômeno complexo que permeia diversos períodos históricos e se molda às transformações sociais e econômicas do país. Os que são favoráveis a essa postura defendem que ela simboliza a preservação de valores essenciais para a sociedade, tais como a família, a moral cristã, a ordem pública e o respeito à propriedade privada. Contudo, opositores afirmam que a política conservadora frequentemente se opõe a progressos sociais e pode estar ligada a retrocessos nos direitos civis.
Ao longo dos anos, a ascensão do conservadorismo tem sido precedida por um acirrado debate ideológico, que impacta desde eleições presidenciais até debates culturais e econômicos. Esta tendência, anteriormente confinada a círculos políticos tradicionais, hoje é amplamente visível nas redes sociais, na mídia e nos parlamentos, influenciando discursos e influenciando a percepção do público.
Um dos elementos que fomentaram essa expansão foi a união de segmentos da extrema-direita com entidades religiosas, principalmente igrejas evangélicas, que começaram a se envolver ativamente na política, mobilizando seguidores e defendendo princípios conservadores com forte apelo moral.
Raízes conservadoras no Brasil
A origem do conservadorismo no Brasil está ligada ao pensamento político do século XIX, particularmente com figuras como Dom Pedro II, que defendia por uma ordem política centralizada e alinhada aos interesses monárquicos e agrícolas. No período da República Velha (1889-1930), a política conservadora estava ligada às oligarquias do café, que davam prioridade à estabilidade econômica e à preservação da ordem social.
Desde o século XIX, os conservadores têm sido uma força política no Brasil, inicialmente voltados para a proteção do poder vigente e da elite, além da disputa com os liberais por cargos públicos. Ou seja, havia um embate muito mais pragmático (por poder) do que ideológico (por ideais). No século XX, fortaleceram-se com a criação da União Democrática Nacional na década de 1940, apoiaram o golpe militar de 1964 e se estruturaram do partido do governo (Arena).
Durante a década de 1990, adotaram um discurso favorável ao mercado, porém, no começo da década de 2000, mudaram o foco para questões morais, oposição à reforma agrária e políticas de rigor. A internet promoveu essa emergente direita, que ganhou força como resposta às políticas do PT. A união do ultraliberalismo com o conservadorismo moral foi crucial para o afastamento de Dilma Rousseff e a vitória de Bolsonaro em 2018.
Religião e Política
A presença de políticos religiosos é notável, com grupos de partidos políticos que apoiam posições conservadoras. E o tema dos costumes ganhou destaque entre os religiosos do país. Eventos relacionados à igreja são cada vez mais transformados em palanques de apoio a correntes políticas e candidatos. Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o censo sobre religião, declarando que 86,8% dos brasileiros são cristãos, sendo a maioria católica. Isso por si só já evidencia o caráter conservador do país.
O discurso dos religiosos que entram na política nem sempre se traduz em boas práticas políticas. Frequentemente, esses políticos usam sua identificação religiosa para se eleger e, uma vez no poder, acabam defendendo mais os próprios interesses do que os da comunidade que representam.
A pesquisa do Datafolha revelou uma forte inclinação conservadora dos brasileiros em relação a questões de moral e costumes. Em relação à posse de maconha, 67% dos entrevistados consideram que deveria ser crime, um aumento em relação a 2023. A oposição à descriminalização aumentou, especialmente entre jovens de 16 a 24 anos (55%) e pessoas com maior escolaridade (68%). Quanto ao aborto, 35% são favoráveis à proibição total, enquanto apenas 6% apoiam o direito ao aborto em todas as circunstâncias.
A religião ainda é uma ferramenta gigante na política, capaz de moldar comportamentos eleitorais e afetar a maneira como as pessoas se posicionam politicamente.
Política conservadora brasileira
O conservadorismo no Brasil tem uma longa história, manifestada em várias áreas do pensamento e das ciências sociais, bem como em personalidades proeminentes na política, economia e direito. Em face de o movimento ter se tornado mais conhecido nas últimas décadas, com figuras como Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho, sua origem está ligada a pensadores e intelectuais que tiveram um papel crucial na formação de um conservadorismo brasileiro diversificado, que engloba a defesa da ordem, da moral cristã, do nacionalismo e do liberalismo econômico.
Jair Bolsonaro é, sem dúvida, o nome mais proeminente do conservadorismo brasileiro nas últimas décadas. Ele foi eleito presidente em 2018 com uma plataforma que defendia o fortalecimento da família tradicional, a luta contra a comunidade LGBTQIAPN+ e o combate ao comunismo. Sua trajetória política começou no Exército Brasileiro, mas foi como deputado federal que ganhou visibilidade, destacando-se por seu discurso direto e polêmico. Bolsonaro representa uma faceta do conservadorismo que se alia ao liberalismo econômico e ao militarismo, com um discurso constante de segurança e combate à corrupção.
Lucas Pavanato (PL), 26 anos, foi o vereador mais votado de São Paulo em 2024, com 161,3 mil votos. Influenciador digital com 1,7 milhão de seguidores, ele não tem experiência política prévia e assumiu a Câmara Municipal em 2025. Natural de Sorocaba (SP), já trabalhou na campanha de Fernando Holiday e tentou, sem sucesso, ser deputado federal em 2022. Aliado de Nikolas Ferreira (PL) e apoiador de Pablo Marçal (PRTB), Pavanato se promove com declarações polêmicas, cortes de podcasts e ataques a adversários. Suas principais bandeiras incluem o combate à chamada ‘ideologia de gênero’, com discursos contra pessoas trans e críticas à redesignação sexual. No início do seu mandato, Pavanato já se envolveu em diversas polêmicas que incluem homofobia e intolerância às diferenças.
Entre as propostas polêmicas mencionadas por ele estão a proibição do aborto, a restrição do uso de banheiros femininos por mulheres trans e a investigação de ONGs que trabalham com dependentes químicos na cidade.
Outros aliados ao PL (Partido Liberal) são alvos constantes de investigações. Capitão Derrite, que já foi investigado por 16 homicídios; Adrilles Jorge, que fez uma saudação nazista durante transmissão ao vivo; Nise Yamaguchi, defensora do uso de tratamentos sem comprovação científica durante a pandemia; e Alexandre Correa, ex-marido de Ana Hickmann, acusado de violência doméstica. Hoje, compõem a política brasileira.